Episódio 10/13

Pregos e martelos

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TRANSCRIÇÃO

Bernardo Afonso: Olá. Eu sou o Bernardo Afonso e estou neste momento a fazer a última gravação desta série. Foram mais de 100 entrevistas, ao longo de quase 200 horas e está tudo concentrado numa pasta com 250 GB. Mas isto é só o início, a matéria prima com que tentamos moldar uma longa narrativa.

Nos últimos dois anos, ajudei a imaginar, construir e moldar tudo isto que estás a ouvir. Uma boa parte do trabalho foi fascinante, pelo menos para mim: compor uma banda sonora de raiz, ler o Livro do Desassossego, viajar pelo país para falar com centenas de pessoas e ver a desenhar-se lentamente à minha frente uma realidade que pouco ou nada conhecia. Não me parece nada mal. Mas há outra grande parte do trabalho que tem pouco de estimulante (isto para ser simpático): as centenas de horas de transcrições, o tempo interminável perdido a fazer cópias de segurança e exportação das várias versões dos episódios, a impossível arquitetura de justificações para tudo aquilo que é dito e a revisão obsessiva do texto, à procura de gralhas, erros gramaticais e incoerências.

Depois de tudo isto, há que fazer com que tudo o que se imaginou e escreveu faça sentido ao ser ouvido. Um complexo processo de corte e costura de áudio, de manipulação do que gravámos, de equilíbrios entre todos os elementos. E ouvir e reouvir e reouvir. Acordo a meio da noite a citar pedaços inteiros de episódios.

O que ouves nesta série é o somatório de quase 3000 faixas de áudio. Há narrações, entrevistas, arquivos, sons ambiente, efeitos de delay e reverb, anonimização de vozes e centenas de instrumentos a acompanhar tudo isto. Cada uma destas faixas foi cuidadosamente analisada, editada e discutida. São mesmo muitas as horas investidas num trabalho como este. E são também muitos os custos que vêm com ele: salários, alimentação, deslocações, estadias, equipamento, marketing, entre um sem número de outros pequenos valores que fazem com que uma investigação de dois anos como esta se torne muito cara. Por isso precisamos do teu apoio para que trabalhos como este continuem a ser feitos e sejam de acesso gratuito. Se gostaste do que ouviste até aqui, considera contribuir mensalmente para o Fumaça em fumaca.pt/contribuir e junta-te às mais de 1500 pessoas que todos os meses nos ajudam a estar mais perto de ser a primeira redação profissional portuguesa totalmente financiada pelo público. Novamente, basta ires a fumaça.pt/contribuir.

Espero que gostes dos episódios que te faltam. Obrigado por estares desse lado.

Nuno Viegas: Olá. Eu sou o Nuno Viegas. Este é o décimo episódio de Desassossego, uma série Fumaça sobre saúde e doença mental. 

Se é o primeiro que encontras vai ser difícil compreender por completo a história que estamos a contar. Devias mesmo ouvir esta série por ordem. Vai para o episódio um. E, se queres aproveitar o trabalho do Bernardo Afonso, devias mesmo ouvir este episódio usando auriculares ou auscultadores. 

Em fumaca.pt podes consultar um glossário e a transcrição completa daquilo que vais ouvir. 

E, agora,vamos ao episódio. A narração é de Margarida David Cardoso.

I

Margarida David Cardoso: E como é que foi no hospital psiquiátrico? Quando estiveste internada

Cláudia R. Sampaio: Foi horrível. Pronto. Horrível.

Margarida David Cardoso: Porque é que dizes isso?

Cláudia R. Sampaio: O menos mau foi o segundo internamento. O Júlio de Matos tem vários pavilhões, não é? Eu acho que aquilo é dividido por áreas, depende de onde tu vens. O que quer dizer que tu podes ficar no meio de pessoas de todos os tipos que tu possas imaginar. Tu não ficas só com bipolares. Aconteceu-me ver um paciente atacar o outro, na sala de televisão. Claro, depois vêm os enfermeiros e essas coisas todas… Mas tu dormes no meio de não sei quantas pessoas e não tens lá ninguém para te proteger.

Margarida David Cardoso: Cláudia R. Sampaio, a poeta e pintora que ouviste no quinto episódio desta série, tinha esta sensação de não estar protegida. Esteve internada por três vezes no hospital Júlio de Matos, atualmente chamado Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. A primeira vez em 2013.

Cláudia R. Sampaio: Eu só não ficava a pensar nisso a noite toda, porque com a medicação caías para o lado e nem tens tempo para pensar sobre isso. Mas depois de começares a pensar sei lá se alguém me vai querer fazer mal enquanto eu estudo dormir, porque tudo é possível. Não há assim tanta vigilância que evite que uma coisa dessas aconteça. A única coisa que evita é mesmo o peso dos medicamentos. As pessoas ali ficam os zumbis, praticamente.

O objetivo lá é não sentir. É pararem-te com o sofrimento, no meu caso, era pararem-me com o sofrimento e obviamente, era uma medicação que não sentia, ficava turva, sonolenta, dormia, dormia. No fundo, também era para me fazer descansar que era uma coisa que eu não fazia. Mas tornas-te um zumbi, enquanto lá estás. Praticamente é só isso. Até dizerem que estás melhor e que podes sair.

Margarida David Cardoso: No livro Jerusalém, Gonçalo M. Tavares descreve assim o hospício ficcional Georg Rosenberg: “Havia como um arredondamento da existência […]. Como se cada existência, exatamente como um compartimento, tivesse um caixote de lixo, um sítio específico, com formas adequadas, para onde se deveriam atirar os hábitos, ações e, se possível, os pensamentos que não interessavam. Neste caso, que não interessavam a quem vigiava […].”

Cláudia R. Sampaio: Lembro-me de, no segundo internamento, eu não queria sair. Porque nessa altura, eu senti que não tinha absolutamente nada… Não tinha dinheiro para comer, nessa altura. Então, eu não queria sair dali, porque não sabia como é que ia viver cá fora. E achava que ia voltar ao desespero a partir do momento em que saísse dali. Nessa altura, eu estava numa espécie de bolha ali dentro. E depois foi uma altura em que eu andei a fazer amizade com os outros pacientes e a perguntar a vida deles toda. Há lá pessoas incríveis, não é? Infelizmente, quando entras ali para dentro parece que o teu valor desaparece, porque se estás ali é porque… A falta de apoios do Governo para estes sítios mostra isso. Não é preciso muito apoio, porque aquelas pessoas parece que não precisam de muito. As instalações são péssimas. Eu passava frio a tomar banho. As janelas não fechavam bem. Não tinhas, por exemplo, salas de recreio, no sentido de poderes te instruir, com livros, material para desenhar, para pintar, pessoas que puxassem por isso; para fazeres coisas. Tinhas uma televisão e ficavas a babar-te a olhar para lá. E pronto. Uma vez por semana ou de duas em duas semanas, num dos internamentos, apareciam uns psicólogos como as mandalas para tu pintares. O que comigo não funciona muito bem. Não sei, não me sinto propriamente viva a pintar mandalas. E pronto. Podia jogar às cartas com os outros pacientes.

Margarida David Cardoso: E achas que te fizeram bem os internamentos?

Cláudia R. Sampaio: O primeiro fez-me bem no sentido em que houve uma descoberta, não é? Acerca do meu problema, a descoberta desse psiquiatra que me ajudou bastante, a descoberta de medicamentos que começaram a funcionar. O segundo internamento funcionou no sentido em que eu precisava, de facto, de uma bolha para não cometer mais nenhum ato violento contra mim própria. O terceiro internamento foi tão mau que eu pedi para me vir embora antes do tempo, não estava a aguentar.

Margarida David Cardoso: Mas foi mau por quê?

Cláudia R. Sampaio: Pelas condições ali dentro. Pelas condições, pelo tipo de doentes que estavam lá nessa altura e que não me davam descanso, alguns. Lembro-me que havia uma senhora nesse internamento que decidiu perseguir-me muitas horas por dia. Foi um bocado complicado. Ficas ali no meio. Ou tens sorte ou não tens sorte.

Margarida David Cardoso: O hospital Júlio de Matos, em resposta a esta descrição, reconhece que – e cito – “a reabilitação das instituições hospitalares e as mudanças nas práticas assistenciais são um processo permanente que nunca está concluído”. Demonstra um investimento nos edifícios de quase dois milhões de euros, entre 2019 e 2021. E garante que “cada paciente tem um plano individual de intervenção” multidisciplinar. Mas acrescenta que – e cito novamente – “um dos grandes problemas em todo o hospital é a dotação de enfermeiros e assistentes operacionais que deveria ser superior à existente que, sendo suficiente para cuidar dos doentes, deixa pouco tempo para atividades lúdicas”.

O internamento psiquiátrico está nos últimos degraus da escadaria dos cuidados de saúde mental. É a hospitalização das pessoas nas situações mais graves e emergentes que precisam de cuidados imediatos. Um momento que pode ter tanto de transformador, como de traumático.

Este é o episódio dez: Pregos e Martelos. Seja toda a gente bem-vinda ao Fumaça.

II

Os horários são rigorosos: para acordar, para comer, para fazer higiene, para ocupar o tempo, para dormir. A entrada de comida é regrada, dado que alguma medicação tem um grande impacto no apetite e aumenta o risco de engasgamento. Não entram cintos, atacadores, ou qualquer objeto cortante. O telemóvel e grande parte dos bens pessoais ficam à porta. Costuma haver um pequeno armário para guardar o que passa o crivo.

O tabaco pode ter luz verde. O internamento psiquiátrico é o único em contexto hospitalar de agudos onde a lei levanta a proibição de fumo. Pode ser gerido pela equipa terapêutica, embora possa também ser da iniciativa do hospital desencorajá-lo, como acontece no Hospital Fernando da Fonseca, Amadora-Sintra.

Cláudia R. Sampaio foi sempre ter ao internamento por vontade própria – ou naquilo que se pode considerar vontade própria quando se vive, nas palavras dela, “a repetição constante do horror”. Precisava de ajuda, de uma bolha de proteção de si própria, de emergência. É para isso que se desenham as hospitalizações de agudos: para estabilizar doenças em estado de descompensação aguda e emergente, e conter danos para a própria pessoa ou para os outros. Metade dos internamentos são associados a diagnósticos primários de depressão, esquizofrenia e doença bipolar. Intervenções curtas, de 15 dias, três semanas.

Cristina Ferreira esteve internada dez dias no hospital de Beja, em fevereiro de 2018.

Cristina Ferreira: Eu nunca me lembro de ter ido tão lá… Tão baixo. Mesmo, mesmo, mesmo ao fundo.

Margarida David Cardoso: O internamento acabou a mudar-lhe a vida. Primeiro, foi o choque de ter que se despojar de tudo, de perceber que ficaria sozinha, sem contacto com o exterior. Lembra-se de pensar que era como a tropa.

Cristina Ferreira: De manhã, nós tínhamos de nos levantar, eu penso que era às 7h. Era bastante cedo. Tínhamos que fazer a questão da higiene, a nossa higiene, arrumar as nossas coisas, o quarto, as poucas coisas que podíamos ter. E depois íamos tomar o pequeno almoço, e havia uma altura que era um bocadinho o nosso tempo. Podíamos fazer basicamente o que quiséssemos. Muitos dos doentes aproveitavam esse bocadinho para voltar a dormir, e os enfermeiros nunca deixavam, porque não é suposto dormir àquela hora, é suposto dormir durante a noite e é uma rotina que eles querem estabelecer.

Margarida David Cardoso: Parte dessa rotina eram as atividades desenvolvidas pela equipa terapêutica. Cristina também fazia yoga nas horas vagas quando as colegas de quarto se ocupavam na sala de convívio. A dada altura, um enfermeiro sugeriu que desse uma aula aos colegas. Até aí, Cristina, que trabalhava em produção televisiva há vários anos, não levava tão a sério o hobby que se viria a tornar a sua profissão.

Cristina Ferreira: Foi um momento importante para mim, porque foi quando percebi que realmente podia também dar mais aos outros através do yoga. E foi aí que eu decidi tirar o curso de professora de yoga.

Margarida David Cardoso: O internamento foi assustador em alguns momentos.

Cristina Ferreira: Eu tenho que confessar que ao ver algumas pessoas e o comportamento de alguns dos doentes, eu fiquei assustada mesmo.

Margarida David Cardoso: Mas foi um ponto de viragem. Mudou de medicação e encontrou um enorme apoio nos profissionais do serviço.

Cristina Ferreira:  Uma equipa extremamente disponível e acessível. E funcionou tudo muito bem. Se calhar é estranho, não é, que um internamento, uma coisa tão drástica e violenta possa realmente ser transformado em algo positivo, mas acabou por ser. Foi um ponto de inflexão, mesmo. De passar a valorizar a vida. Basicamente é isso.

Jorge Pereira: Olho para o internamento psiquiátrico e a pergunta que me fazia era sempre a mesma: se precisasse de ser internado aqui, era isto que eu esperava para mim? De todo que não era, como é óbvio. Há muita coisa que não está bem, que eu achava que deveria melhorar, nomeadamente recursos humanos, as regras e mais regras e mais regras que são impostas ao doente mental.

Margarida David Cardoso: O enfermeiro especialista em saúde mental, Jorge Pereira, trabalhou no Hospital de Magalhães Lemos, no Porto, entre 1994 e 2011. Explica como, em geral, a organização dos internamentos psiquiátricos nem sempre abona pela qualidade dos cuidados.

Jorge Pereira:  Como é óbvio a atenção deve ser específica mediante as necessidades de cada um. E ter as patologias todas misturadas acabam por não haver muito esse cuidado.

Margarida David Cardoso: Há quem tente organizar os quartos com base no bom-senso – se possível, por exemplo, evitar que um utente com alucinações partilhe quarto com alguém que fez uma tentativa de suicídio. Mas o espaço nem sempre é auspicioso a grandes manobras logísticas. Os quartos individuais são raros. É comum terem duas, três, quatro camas – até oito, como no hospital de Faro. Normalmente, são divididos por género. Nos dois hospitais psiquiátricos que restam no país, os doentes são distribuídos pelos vários pavilhões conforme a origem geográfica, porque tanto o Júlio de Matos, em Lisboa, como o Magalhães Lemos, no Porto, ainda respondem às necessidades dos concelhos que não têm internamento próprio ou camas disponíveis. Em geral, Jorge Pereira acha que as regras poderiam ser mais flexíveis.

Jorge Pereira: Uma coisa que com que sempre me indignei e continuo-me a indignar é que o doente mental continua a não ter acesso ao seu telemóvel, que eu acho que, se calhar, há doentes que não poderiam ter, mas que há outros, uma grande maioria, que poderia ter acesso. Lembro-me de uma vez uma pessoa dizer que a filha fazia anos nessa noite e porque é que não podia mandar uma mensagem à filha, que fazia anos? Os profissionais são muito resistentes, são muito rígidos. Agora eu percebo que, quando há falta de pessoal, as coisas têm que andar com alguma rigidez para se poder fazer tudo o tem que ser feito.

Margarida David Cardoso: Nesse contexto, há internamentos de psiquiatria em que, além de dormir, comer e tomar a medicação, há muito, muito pouco para fazer. Depois de internado num serviço de agudos, um utente na casa dos 20 anos descreveu-nos como lhe chegavam a doer as pernas de tanto andar para a frente e para trás nos corredores do hospital. Um enfermeiro especialista em saúde mental explicou como o internamento hospitalar na psiquiatria de adultos ainda se associa quase exclusivamente ao tratamento farmacológico. Cito: “Precisam de medicação, fazem medicação, seda-se e está tudo bem – Voltam para casa e está feito.” A preparação para a alta e a prevenção de recaídas, que deviam ser feitas ao mesmo tempo que a estabilização do quadro clínico, podem ficar para segundo lugar. E, numa unidade de longo internamento, disse uma enfermeira que “já quase ninguém fala em processo terapêutico, em reabilitação”. “Fala-se em manutenção, em que a malta não descompense muito.” Fim de citação.

Diogo, que não se chama Diogo, viveu no Júlio de Matos cerca de 30 anos, depois de um diagnóstico de esquizofrenia. Mudou-se em 2019 para o Centro de Apoio Social do Pisão, em Cascais, onde o encontramos. Pediu para lhe guardarmos a identidade. Recorda assim a rotina no hospital psiquiátrico: levantava-se, tomava banho, comia o pequeno-almoço, ficava à espera que lhe dessem tabaco. Esperava a hora de saída, por volta das 10h, 10h30. Ia dar uma volta, pedir umas moedas, comprar um maço de tabaco se tivesse dinheiro. Arranjava uns trocos para uma sandes, um bolo, guardava qualquer coisa para a tarde. Depois voltava para almoçar. Às 14h, descia outra vez. Arranjar mais umas moedas, comprar outro maço. Voltava ao final da tarde: jantar, tomar os medicamentos, devolver o tabaco, dormir. No outro dia, a repetição.

Quando lá chegou ainda era jovem. Ajudou a fazer camas, dar de comer aos doentes, lidar com os mais agitados. Mas depois desinteressou-se. Fugiu várias vezes, para voltar repetidamente ao internamento compulsivo. Quando lhe pergunto como poderia ser diferente o internamento psiquiátrico, fala em mais liberdade, mais exercício físico, terapia ocupacional com fartura e técnicos com formação específica – “técnicos como deve ser”, nas suas palavras.

Francisco Sampaio, antigo enfermeiro no Hospital de Braga, retrata o serviço onde trabalhou como uma excepção no que toca à terapia e atividades ocupacionais.

Francisco Sampaio: O enfermeiro especialista selecionava um conjunto de utentes (cinco, seis) que tivessem um problema comum e realizava uma intervenção como esses utentes desde segunda até sexta feira. E isto, deixa-me dizer-te, é um luxo. Ou seja, não é de forma alguma aquilo que é a realidade mais habitual nos serviços de psiquiatria por esse país fora.

Margarida David Cardoso: Susana Pinto Almeida fala no contraste entre a sua experiência no Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, e a chegada a um hospital distrital, em Leiria.

Susana Pinto Almeida: Num internamento num hospital universitário, há terapia ocupacional, há uma preocupação imediata com a reabilitação cognitiva, ainda está o doente a chegar (isto é uma forma de expressão). Quando chega à zona Centro, não há terapia ocupacional.

Margarida David Cardoso: Em 2021, os então médicos internos de psiquiatria Ana Samouco e Afonso Homem de Matos, no hospital de Portalegre.

O que é que uma pessoa que está internada faz durante o dia?

Ana Samouco: Nada. 

Afonso Homem de Matos: Aqui não há muito para fazer, é verdade. Temos uma única terapeuta no serviço, as horas que dedica, de facto, à terapia ocupacional são uma parte muito pequena do seu horário. Os materiais disponíveis também não são incríveis para fazer outro tipo de atividades. Pronto, têm televisão.

III

Margarida David Cardoso: Alguns serviços de saúde mental continuam separados do resto do hospital. E a raiz histórica dessa segregação geográfica não deixa de ter relação com a segregação científica a que a psiquiatria esteve sujeita durante séculos. Em Portugal, os serviços “nunca foram alvo de um plano de requalificação” e “existem sinais de deterioração importantes, que afetam diretamente a prestação de cuidados”, como se afirma nas orientações técnicas da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência. O PRR prevê a requalificação de 20 serviços. Portalegre está entre os primeiros sete a avançar para obras. O edifício, com claros sinais de degradação, é o único com atividade clínica à parte do resto do hospital. Para levar um doente de urgência à medicina interna ou à cirurgia…

Afonso Homem de Matos: Tem que sair aqui pela frente, em camas em que – não vos consigo descrever, mas de há 30 anos, se calhar… 

Ana Samouco: Passar aqui mesmo à porta do hospital, em frente à urgência, para quem quiser da rua ver…

Afonso Homem de Matos: Quatro pessoas para conseguir levar aquela cama toda a tremer, em que, de vez em quando, vão caindo bocados pelo caminho, para chegar ali à urgência.

Margarida David Cardoso: Ao ar livre.

Afonso Homem de Matos: Sim, sim, se tiver um dia de Inverno, sim, sim.

Margarida David Cardoso: Já em Faro, o serviço de psiquiatria dista quase dois quilómetros do resto do hospital. É um edifício antigo, muito frio no inverno, muito quente no verão, mas com jardim próprio. O desconforto térmico colmata-se com aparelhos portáteis de aquecimento e de ar condicionado, explica a direção clínica. O edifício vai a obras com o PRR.

Para fazer exames de diagnóstico, como um eletrocardiograma, por exemplo, necessário sempre que se inicia ou muda de medicação antipsicótica, o doente tem que ser transportado ao hospital principal. Por falta de colaboração com outras especialidades médico-cirúrgicas, caso um utente tenha de ser visto por outro médico, é preciso novamente chamar uma ambulância.

Este é um dos médicos do serviço, que pediu anonimato. Vais ouvir a partir daqui alguns profissionais de saúde que, por receio de represálias de atuais ou antigos empregadores, apenas concordaram falar com o compromisso de lhes protegermos a voz e o nome. Alteramos as vozes para esse efeito.

Profissional de saúde: Quando era preciso alguma observação de urgência, nós tínhamos que pedir uma ambulância ao hospital, o doente é transportado para a urgência do hospital e era observado como um doente externo, uma pessoa externa. Pronto, e para além disto, nós não estamos incluídos no núcleo de emergência interna hospitalar, o que quer dizer que – e isto já aconteceu, comigo inclusivamente – uma doente entrou em paragem, e nós tivemos que chamar o INEM do nosso próprio telemóvel, explicar que estamos num hospital e chamar o INEM para virem a equipa de paramédicos…

Margarida David Cardoso: A direção clínica do Centro Hospitalar Universitário do Algarve assegura que algo assim não é comum, que o departamento está integrado na rede de telefone hospitalar e conta com apoio dos serviços de emergência internos. A construção de um novo hospital no Algarve foi uma certeza anunciada várias vezes nos últimos 20 anos, e está novamente inscrita no programa do atual governo. O edifício da psiquiatria e saúde mental da Unidade Local de Saúde da Guarda será outro a ser requalificado com o PRR. Aí, onde Rui Paixão trabalha como enfermeiro especialista em saúde mental, até uma pequena distância causa constrangimentos semelhantes.

Rui Paixão: No nosso caso não são quilómetros; são alguns metros. Estamos sempre dependentes de transporte ou externo ou da própria instituição, e que não estão propriamente mobilizados e à espera que nós precisemos deles.

Margarida David Cardoso: Rui Paixão, que é também dirigente sindical no Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal, o Sindepor, diz que assistia à chegada de doentes cada vez mais velhos e pouco autónomos a um serviço em que os quartos ficam num primeiro andar sem elevador.

Rui Paixão: Há uma rampa externa que expõe, nomeadamente agora durante o inverno, os doentes, caso haja essa necessidade, caso haja uma alteração da mobilidade e os queiramos mobilizar para o piso térreo, obriga a expor os doentes às condições climatéricas, que na Guarda não são propriamente muito favoráveis. Os quartos também estão, do ponto de vista da segurança do doente, completamente desfasados com as necessidades de hoje em dia. São quartos em que estão instaladas três camas em que não se distanciam sequer um metro uma da outra. Estamos a falar de mobiliário que acabou sempre por ser mobiliário que deixava de ser utilizado por outras unidades. E os espaços comuns acabam por ter também instalações sanitárias degradadas e bastante limitadas. E é com isso que temos trabalhado.

Margarida David Cardoso: Este foi o ponto em que começamos a puxar a corda para desenrolar uma série de problemas estruturais que se cruzam e entrelaçam, que não dizem respeito apenas a um serviço ou a um profissional de saúde em particular. 

A começar pela falta de profissionais. Aqui, novamente Francisco Sampaio, que apresentamos como antigo enfermeiro no Hospital de Braga, e que é atualmente investigador, professor universitário e presidente da Mesa do Colégio da Especialidade em Saúde Mental e Psiquiátrica da Ordem dos Enfermeiros. Ouves o Pedro Miguel Santos a entrevistá-lo, em novembro de 2021.

Francisco Sampaio: Nós tínhamos quatro enfermeiros de manhã, três à tarde e dois à noite. Portanto, eram 38 utentes, cada enfermeiro à noite ficava responsável por 19 utentes. O que pode parecer uma coisa aberrante, mas há sítios bem piores. Vamos tendo conhecimento de situações de um enfermeiro à noite para 50 utentes, para 60. Já aconteceu.

Pedro Miguel Santos: Em Portugal? Isso acontece hoje em dia?

Francisco Sampaio: Acontece.

Pedro Miguel Santos: Isso em que serviço?

Francisco Sampaio: Não posso dizer o sítio. Mas, habitualmente, este tipo de situações acontecem em contexto de utentes crónicos. Ou seja, não em utentes em fase de descompensação aguda (pelo menos que eu tenha conhecimento), mas em utentes crónicos. E muitas vezes isso acontece, esse tipo de rácios enfermeiro-utente completamente… Eu diria até mesmo aberrantes para a dignidade daqueles utentes.

Margarida David Cardoso: É na pedopsiquiatria que o número de horas de cuidados de enfermagem tende a ser maior. Cai na psiquiatria de adultos. E vários profissionais de saúde coincidem nesta perceção de que a real míngua se concentra nos internamentos de longa duração, nos serviços de crónicos.
Pode-se dizer que um desses casos era o Centro Hospitalar Conde Ferreira, propriedade da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Em 2019, depois de uma reportagem da TVI denunciar situações de maus tratos e negligência sobre utentes, a secção regional da Ordem dos Enfermeiros visitou duas enfermarias do hospital. Numa delas, com 58 vagas, havia dois enfermeiros por cada turno de dia, apenas um enfermeiro à noite. A rotatividade de profissionais e o absentismo eram grandes.

Para tudo funcionar de acordo com as recomendações, segundo a Ordem, era preciso que estes dois serviços, que tinham um total de 25 enfermeiros, tivessem mais 64 profissionais.

Este cálculo é feito através daquilo que a Ordem definiu como as dotações seguras de cuidados de enfermagem, revistas em 2019. São recomendações de boas práticas, genéricas. E, para Francisco Sampaio, o número que resulta desta fórmula “é o paraíso”.

Francisco Sampaio: Ou seja, não conheço nenhum serviço de psiquiatria que tenha aquele número excelente de enfermeiros.

Margarida David Cardoso: Mesmo nos piores casos em que há 50, 60 utentes para um enfermeiro, não há força de lei.

Francisco Sampaio: O problema que se coloca aqui é que um regulamento não é uma lei, nem um decreto-lei. E, portanto, um regulamento tem uma força de recomendação.

Margarida David Cardoso: Um dos poucos instrumentos de pressão é a denúncia. A Ordem dos Enfermeiros pode fazer aquilo a que chama “visitas de acompanhamento do exercício profissional” [VAEP], onde olha especificamente para as dotações seguras. Vão normalmente dois representantes, fazem um relatório, entregam-no à instituição e, caso nada mude, podem depois enviar os resultados para as tutelas.

No setor privado e social, onde se incluem as IPSS, essa denúncia pode, no entanto, nunca se refletir em nenhuma ação, porque a Ordem precisa de autorização para fazer a visita, ao contrário do que acontece nas entidades do SNS. Diz o vice-presidente da Ordem dos Enfermeiros, Luís Barreira, que têm tido problemas com isso mesmo. Alguns lares, em particular, têm recusado a visita. Nesse caso, segue para quem tem poderes de fiscalização. A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde, a IGAS, e a Entidade Reguladora da Saúde, a ERS.

Em traços muito gerais, a IGAS foca-se mais na prestação dos cuidados de saúde, no cumprimento da lei e das exigências técnicas; já a ERS olha mais para a atividade económica, a proteção dos direitos dos utentes e questões de concorrência. Ambas podem fazer visitas e auditorias, quer as que estejam programadas, quer as que surjam na sequência de reclamações. Podem ainda emitir instruções e recomendações, ou, em caso de violações mais graves, a IGAS pode aplicar sanções disciplinares – mas apenas ao setor público –, a ERS, coimas. Em caso de poder constituir um crime, é com o Ministério Público.

O hospital Conde Ferreira foi investigado nessa instância e o inquérito foi arquivado.

Francisco Sampaio: Imagine-se um utente… Pessoas com ideação suicida (portanto, têm ideias de suicídio): se eu tenho um enfermeiro para 20 utentes, ou para 25, ou para 28, ou o que quer que seja, eu não consigo passar a noite toda a entrar nos quartos e a sair, não é? Portanto, esta vigilância não existe durante a noite toda. E, portanto, há aqui muito mais espaço para que essas ideias sejam postas em prática.

Margarida David Cardoso: Os episódios de agressividade também não são negligenciáveis. Reagir de forma agressiva pode ser compreensível perante sintomas gerados pela doença. Se o meu pensamento ou a minha perceção do mundo está alterada, se acho que me querem matar, ou me sinto ameaçado (quer tenha razões para isso, ou porque há alucinações que me levam a pensar assim), é provável que me vá defender. E essa defesa pode ser agressiva.

Francisco Sampaio: Se calha de haver um episódio de agitação que depois escala para a agressividade e que até pode, no mesmo momento, acontecer com dois utentes diferentes, a própria segurança do enfermeiro (a sua integridade física, mesmo) é colocada em risco. Lembro-me de um caso de uma colega que foi arrastada… Tinha um serviço com escadas e que foi arrastada pelas escadas abaixo.

Margarida David Cardoso: Neste ponto, paramos: como é que se gerem estas situações? O que é que acontece quando uma pessoa está agitada e tens de a conter de se magoar a si ou magoar os outros? Ou assegurar que, embora ela recuse, lhe é garantido o tratamento involuntário? Juntamos uma lista de contactos de profissionais de saúde com experiência em internamento psiquiátrico, quase todos são enfermeiros, e começamos a ligar-lhes. 

Vai-se por fases: esta foi uma resposta-padrão da boa prática. Um enfermeiro treinado deve ser capaz de identificar os sinais e antecipar situações mais complicadas.

Rui Paixão: Às vezes, até o simples facto de trocarmos um doente de um quarto para outro.

Margarida David Cardoso: Tenta-se falar com a pessoa, num espaço seguro, com tempo.

Profissional de saúde: Levar a pessoa para outro espaço e fazer redução de estímulos – apagar as luzes, fechar a porta.

Marieta Vaz Osório: Se possível, às vezes, basta uma palavra, ou atender a um pedido de alguém que não ouve mais nada e que está afixado naquilo.

Raquel Virgílio: Uma sala snoozeland, onde temos um colchão de água com água quente, temos música ambiente.

Margarida David Cardoso: Pode ser usado um quarto mais resguardado, com menos estímulos, ou um quarto de isolamento. Um espaço fechado que deve ser despido de tudo o que possa magoar e ser perfeitamente vigiável do exterior.

Marieta Vaz Osório: Não é nunca numa de castigo. É numa de proteção do próprio doente até ele estar estável.

Margarida David Cardoso: Não resultando ou não havendo hipótese de fazer isso, há a contenção química com medicação que já esteja prescrita em SOS. Por exemplo, indutores do sono em caso de insónia, ansiolíticos se ansiedade, neurolépticos para agitações graves.

No caso extremo em que a pessoa está impermeável pela força das alucinações, por exemplo, como recurso último, pode ser fisicamente imobilizada pela equipa terapêutica para que lhe seja administrada essa medicação por via intramuscular.

E, quando tudo isto falha, há a contenção mecânica: a pessoa é presa à maca ou a um cadeirão com faixas de tecido almofadado que lhe restringem os movimentos. E deve ser retirada logo que possível.

Rui Paixão: Vai-se avaliando a situação até que o doente realmente tenha mais calma e colaboração para se interromper essa contenção.

Margarida David Cardoso: É idealmente feita num quarto à parte, para proteger e não expor a pessoa, e evitar a agitação de outros doentes. É uma intervenção até um certo ponto traumática, violenta – ouvimos de vários profissionais de saúde. Ninguém com quem falamos o disse fazer de ânimo leve.

Rui Paixão: Sim. Sim. Sim. E sempre de última linha. E nós próprios assumimos isso perante o doente.

Margarida David Cardoso: O enfermeiro Rui Paixão.

Rui Paixão: De certo modo é pedir-lhe desculpa por esse tipo de ato, mas foi um ato que que foi necessário na hora. E, muitas vezes, temos essa conversa durante a situação em si. Começando também a negociar logo com o doente a possibilidade de reverter essa situação, ou a nossa preocupação em revertê-la o mais rapidamente possível, assim que haja condições.

Margarida David Cardoso: A Direção-Geral da Saúde (DGS) descreve precisamente as medidas de contenção como “um último recurso”, que deve “ter como resultado o melhor interesse do doente”. Na última orientação sobre esta matéria, de 2011, lê-se que “o recurso a estas medidas é abusivo se visa a redução da vigilância do doente”.

E quando se refere a quem deve desencadear as medidas de contenção necessárias, esta orientação nomeia apenas a figura do “profissional de saúde”, que deve sempre ter formação para prevenir e aplicar corretamente técnicas de contenção. A imobilização, em particular, é normalmente feita por enfermeiros e auxiliares de ação médica. No entanto, vários profissionais de saúde relatam a necessidade de chamar polícias e seguranças privados que estejam de serviço no hospital para ajudar em situações mais complicadas. O ideal, refletem, era que fosse feito por profissionais de saúde, mas não havendo condições naquele momento para assegurar a integridade física de todos, recorre-se a quem está disponível.

Então, que outros impactos tem sobre os doentes a gestão de serviços subnutridos com espaços inadequados? Onde os quartos individuais são raros, à exceção dos de isolamento. O Nuno Viegas pegou na lista de contactos e foi perguntar: como é que geres situações de urgência? O que é que fazes se dois utentes descompensarem ao mesmo tempo?

Rita Mendes: Pois, sempre me questionei sobre isso. E quando perguntava à parte da chefia e tudo o mais, é um pouco tentar socorrer os dois ao mesmo tempo, se não ter que optar pelo que podemos fazer, pela maior urgência.

Margarida David Cardoso: Rita Mendes, enfermeira há seis anos, fala da experiência que teve entre 2016 e 2021 na Casa de Saúde do Telhal, em Sintra, do Instituto São João de Deus. Um enorme complexo de unidades de internamento, clínicas e residências com capacidade para mais de 450 utentes. Rita trabalhava numa unidade de instalações antigas, dois pisos, sem elevador, onde se fazia o jogo, nem sempre possível, de tentar colocar no andar de cima os doentes mais independentes.

Nuno Viegas: Em termos de recursos humanos, qual era o rácio de…

Rita Mendes: [Ri-se] Vamos tocar mesmo na mouche, sim.

Nuno Viegas: [Ri-se] Esse riso diz muita coisa.

Rita Mendes: Os rácios eram muitíssimo inadequados. Mais inadequados não poderiam ser. Ou seja, era uma enfermeira por turno. Na manhã, se tivéssemos sorte, o previsto seriam dois auxiliares.

Margarida David Cardoso: Dois auxiliares de ação médica para prestar cuidados e outro de serviços gerais para limpezas e arrumações. Como é comum, ao longo do dia os turnos vão mingando. À noite, altura em que vários profissionais dizem haver mais episódios de agitação, havia um enfermeiro e um auxiliar.

Rita Mendes: Para 40 utentes. Houve uma fase em que nós ainda íamos vigiar, ou seja, saíamos da nossa unidade para ir a uma outra unidade, onde estava uma auxiliar sozinha durante o período da noite, com 45 utentes, e nós íamos ver se estava tudo bem, se precisavam de alguma coisa e assim e acabámos por fazer a chamada volta com a auxiliar – ou seja, troca das fraldas, observar os utentes, ver se não precisavam de alguma coisa. E, para além disso (ainda não ficamos por aqui, ainda há um bocadinho pior do que isto depois), ainda íamos a uma outra unidade, que onde os utentes são muito mais independentes e fazem… são sete utentes que estavam naquela unidade naquela altura e nós íamos lá também, para ver se eles precisavam de alguma coisa e se estava tudo bem. E, depois, regressávamos à nossa unidade.

Margarida David Cardoso: Outro enfermeiro que trabalhou um ano nesta unidade, entre 2017 e 2018, pede anonimato para fazer o mesmo retrato.

Profissional de saúde: Houve uma altura em que muitos enfermeiros se foram embora e eles deixaram de conseguir assegurar cuidados, principalmente à noite. E, portanto, tínhamos cerca de 70 utentes à responsabilidade de um só enfermeiro, sendo que metade desses utentes não os conhecíamos de lado nenhum.

Basicamente, é vigiar se estão vivos, se estão ok e que medicação é que têm prescrita em SOS. Porque não dá para fazer muito mais. Se um doente desorganiza, não vai haver tempo, nem disponibilidade para aplicar medidas graduais. Tem que ser:  adormecer o utente, ou acalmá-lo. Porque, depois, há outros tantos à minha responsabilidade.

Rita Mendes: Por isso é que a equipa de enfermagem se recusou a fazer isto.

Nuno Viegas: E o que é que aconteceu depois de se recusarem? Eles contrataram alguém?

Rita Mendes: Houve uma outra… Não. Houve uma outra unidade que ficou destacada para essas rondas.

Margarida David Cardoso: Rita Mendes ligou à Ordem dos Enfermeiros a pedir ajuda.

Sérgio Branco: Os enfermeiros faziam aquilo que era o possível, mas perante aquela afluência, aquele sobrecarga enorme, nunca se pode fazer bem. E basicamente eles estavam num registo quase de sobrevivência ali.

Margarida David Cardoso: Sérgio Branco, presidente da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros, recebeu uma primeira queixa sobre a Casa de Saúde do Telhal, em 2017. Era escrita por um grupo de profissionais, que denunciava turnos com um enfermeiro para 50, 80, 110 utentes. Visitou a instituição dois anos depois, na sequência de uma nova queixa, agora anónima, que retratava a divisão de um único enfermeiro por várias unidades com dezenas de doentes dependentes, durante a noite, da mesma forma que Rita Mendes o tinha feito. Para o responsável da ordem, é o mesmo que se passa com praticamente todas as organizações semelhantes.

Sérgio Branco: Há um desfalque assistencial enorme, sobretudo pela falta de enfermeiros. Estão desfalcadas não só em termos quantitativos e, neste caso, por falta de profissionais, e especificamente por falta de enfermeiros. Mas estão desfalcadas sobretudo também em termos qualitativos, ou seja, em termos de qualificação das pessoas que depois lá trabalham. Porquê? Porque procuram exatamente a resposta mais barata para, sei lá… Para garantir a sustentabilidade ou para garantir lucros ou o que seja que os move.

Margarida David Cardoso: Quando levamos estas questões à direção da Casa de Saúde do Telhal, a diretora Ana Sequeira, o diretor clínico Vítor Cotovio e o diretor de enfermagem Luís Gens explicam as dificuldades sistemáticas de contratação de enfermeiros que sentem desde a intervenção da troika e a emigração de muitos profissionais. Admitindo que os rácios estão “longe do ideal”, demonstram como a rotatividade de enfermeiros obriga a permanentes ajustes nas unidades em função do grau de complexidade dos utentes, para que os mais dependentes tenham cobertura. Por isso, é normal pedir rondas noturnas para assistir àqueles que estão mais autónomos. Algo que só se faz, diz o diretor de enfermagem, depois de certificado que todos os utentes estão estáveis. Luís Gens explica que, embora tenham feito esforços para aumentar a remuneração do trabalho e cativar mais enfermeiros, não é possível fazer mais sem um aumento do valor da diária de internamento paga pelo Estado – atualmente a ser discutido. O atual acordo de prestação de serviços foi celebrado em 1983, e a sua atualização já estava prevista no Plano Nacional de Saúde Mental, de 2007.

Para Rita Mendes, a queixa na Ordem dos Enfermeiros não resultou em qualquer mudança.

Rita Mendes: Eu ainda trabalhei lá quatro anos e, até eu me vir embora, aquilo simplesmente passava de unidade em unidade. Da parte da Ordem dos Enfermeiros, nunca houve nenhuma ação. Aliás, quando eu liguei, não era uma situação desconhecida para eles. De tudo o que eu contei, eles já tinham conhecimento.

Margarida David Cardoso: Uma pergunta como a que lhe fizemos – sobre o que é que acontece quando dois utentes descompensam ao mesmo tempo, em particular durante a noite – não é, de todo, uma pergunta inocente. Vem da documentada relação entre a falta de recursos humanos – e o receio de que não haja mãos para tudo – e o recurso mais rápido e mais frequente às diversas formas de contenção de doentes. Pode ser uma escalada.

Rita Mendes: Bastava um doente descompensar para que o turno todo descarrilasse. E não podíamos deixar 39 utentes pendurados com um a descompensar também. Portanto, sim, recorre-se muito à contenção física e também à terapêutica para que o trabalho fique feito.

Nuno Viegas: E dirias que, neste momento, há uma prática – não regulamentada, mas que acontece pelas circunstâncias atuais da profissão – de sobremedicação dos utentes e de recurso excessivo à contenção química?

Rita Mendes: Sim, sim, sem dúvida.

Nuno Viegas: Consideras que é excessiva a forma como se sedam os utentes neste momento?

Rita Mendes: Sim, considero. Não tanto com a terapêutica indutora do sono, mas sim com os tranquilizantes, com os relaxantes. Sim.

Nuno Viegas: Que impacto é que achas que isso tem quer nos utentes, quer na forma como podem trabalhar com os utentes depois?

Rita Mendes: Os doentes perdem a capacidade motora e até intelectual e, por vezes, é muito difícil recuperá-la com o excesso de medicação.

Nuno Viegas: Como é que caracterizarias a toma de benzodiazepinas entre as populações que viste internadas? Quão prevalente é?

Rita Mendes: Praticamente todos utilizam. E a questão não é ser administrada. A questão é não haver uma revisão terapêutica mais vezes, durante aquele internamento. Ou seja, aquele doente é medicado com aquilo e fica a tomar aquilo até surtar outra vez, até ter uma outra crise e poder haver uma alteração terapêutica. E aí é que está a questão.

Margarida David Cardoso: Ao longo de dias, repetimos e repetimos as mesmas perguntas. E, com as devidas nuances, vários profissionais de saúde coincidiam num diagnóstico. 
Francisco Sampaio, da Ordem dos Enfermeiros.

Francisco Sampaio: Se houvesse mais recursos humanos, se calhar poder-se-ia poupar a administração de alguma medicação em SOS. Eu acho que nenhum enfermeiro gosta que os seus utentes estejam sedeados. Não tem sentido. Agora, muitas vezes, a falta de recursos humanos leva à necessidade de quando eu poderia resolver um problema por via da comunicação, que demora muito mais tempo e que tenho que ficar ali com aquele utente, como tenho mais não sei quantos utentes para atender lá fora, então tenho que resolver da forma mais simples, que é com recurso à medicação. Isto acontece muitas vezes, infelizmente. E penso que não é bom para ninguém.

Margarida David Cardoso: Enfermeiro Jorge Pereira, que trabalhou no Hospital de Magalhães Lemos.

Jorge Pereira: Se o enfermeiro está com medo, está com receio, mesmo que o doente não tenha medicação SOS, a pressão que ele depois também põe sobre o médico que está a acompanhar o doente é enorme, e ele vai sentir necessidade de pôr medicação aquele doente, porque realmente é… Todo o sistema fica… Há situações em que fica tudo desestabilizado.

“Eles que estejam sossegadinhos, por favor. Portanto, tenho que os ter sossegadinhos, porque senão as coisas correm mal.” Eu não sei se é isto que é a realidade, mas teoricamente é assim que a gente inconscientemente acaba por sobreviver. Queremos que as coisas corram bem, eu estou sozinho e há que usar a forma que nós temos, que muitas vezes é a fórmula química.

Margarida David Cardoso: Lais Ferreira, terapeuta ocupacional numa unidade de cuidados continuados.

Lais Ferreira: Sendo os profissionais escassos nesses períodos, o que acaba por acontecer é que a contenção química é mais utilizada para garantir também o descanso dos outros utentes e o bom funcionamento, que não haja agitação de outros utentes que prejudique…

Nuno Viegas: É uma forma de garantir que a noite corre bem.

Lais Ferreira: É, exato. Infelizmente. E sim, é verdade que quando há necessidade de recorrer à contenção química, os resultados não se verificam. Por muito que nós queiramos trabalhar com o utente, muitas vezes, na manhã é que a contenção química acaba por estar a fazer mais efeito e ele acaba por não participar devidamente no processo de reabilitação.

Margarida David Cardoso: Enfermeiro, sob anonimato, que trabalhou na Casa de Saúde do Telhal entre 2017 e 2018, que nos faz um retrato repetido por outros profissionais.

Profissional de saúde: Eu acho que isso me levou a estados de ansiedade brutais, que me fizeram sair do Telhal e da enfermagem, basicamente. Eu acredito que, muitas vezes, por enfermeiros estarem cansados ou até por terem mau caráter, que se excedam naquilo que deve ser uma contenção e a implementem como quase um castigo, uma punição. E, de facto, é muito fácil a nossa frustração ser descarregada fora, ser descarregada nas pessoas com quem trabalhamos. Isto não é bonito. Eu não o fiz, não sinto que o tenha feito. Mas é fácil ver essa porta aberta.

Margarida David Cardoso: O enfermeiro Jorge Correia trabalhou nos hospitais de Arnes, Lorvão e agora Sobral Cid, em Coimbra.

Jorge Correia: Eu não vou administrar a medicação ao utente para ele estar mais calmo, ou… Não. O que vai acontecer é que eu não vou… Tendo aquele utente, não podendo sinalizar, não podendo estar mais próximo, porque estou com outros, a situação dele clínica vai-se degradar e chega ao ponto em que não há outra maneira de fazer. É mais neste sentido que acontece. Mas muitas delas, as vezes, poderia ser menos se houvessem mais recursos humanos. Isso não tenha absolutamente a mínima dúvida, está a perceber?

Margarida David Cardoso:  Rui Paixão, enfermeiro da Unidade Local de Saúde da Guarda.

Rui Paixão: Se eu estiver focado em dois ou três doentes mais facilmente consigo identificar sinais de alerta e definir uma estratégia para não deixar aumentar a tensão e as coisas depois desenrolarem-se de uma forma mais negativa do que se estiver com atenção a sinais produzidos por 12 doentes, como às vezes acontece.

Margarida David Cardoso: A boia de salvação, diz Rui Paixão, tem sido o aumento das competências, da formação e especialização de enfermeiros e auxiliares do serviço nos últimos anos. E também a disponibilidade para a autoavaliação, para discutir intervenções e analisar o que correu mal em equipa. Para Nuno Correia, enfermeiro especialista em saúde mental, também foi a formação a fazer a verdadeira diferença num dos serviços de psiquiatria mais novos do país, no hospital de Beja.

Nuno Correia: Abriu em 2015 e abriu como uma equipa jovem. Não tínhamos experiência em psiquiatria. E nós já fizemos essa análise e, do início, é notório a diminuição de medicação em SOS e necessidade de contenção mecânica comparando, por exemplo, o primeiro ano aos restantes anos de funcionamento do serviço. Neste momento, nós utilizamos muito menos medicação e muito menos contenção física do que aquilo que usávamos inicialmente – quer pela insegurança que tínhamos, quer pelo medo, quer pelo desconhecimento noutro tipo de estratégias para poder comunicar com os doentes e baixar a agressividade ou a ansiedade deles.

Margarida David Cardoso: Pedimos, mas a equipa já não tinha os dados desta análise. Entretanto, todos fizeram um longo percurso de formação, diz Nuno Correia.

Nuno Correia: E sem dúvida que isso foi uma mais valia para o doente.

Nuno Viegas: E isso foi uma conversa que tiveram explicitamente?

Nuno Correia: Sim, sim. Com a análise dos dados, a chefe fez esse levantamento. Este serviço é novo. E, então, trabalhamos mais em função daquilo que são as guidelines atuais e não há vícios na forma de trabalhar.

Margarida David Cardoso: Todas as pessoas com quem falamos explicam que só dão medicação SOS ou aplicam outra forma de contenção como o último recurso, a última linha. O que é variável é onde é que esta linha está. E quão rápido se chega a ela devido às condições dos serviços. Nuno Correia não viu hábitos dessa sobremedicação intencional de doentes, mas sabe que acontece.

Nuno Correia: Mas sim: eu sei de alguns casos em que isso acontece. Ou então, no início da noite, acabam logo por fazer a medicação toda aos doentes, tudo o que tem SOS, mesmo que o doente ainda não precise e se calhar não iria precisar. Mas sim, sim.

Nuno Viegas: E por que é que achas que fazem isso?

Nuno Correia: Tem a ver com essa questão dos hábitos, com o receio também de que o doente descompense. Porque todas estas estratégias que nós fomos desenvolvendo e todo este caminho que nós fomos fazendo… Nesses serviços mais velhos, mais antigos, as pessoas estão um bocadinho estagnadas e estão muito presas ainda a esse modo de funcionamento – o que interessa é que o doente esteja a dormir e não chateie. Às vezes, numa queixa de ansiedade, bastava estar cinco ou dez minutos a falar com o doente e perceber o que é que realmente o está a preocupar, ao invés de lhe estar a dar uma medicação qualquer para reduzir a ansiedade. E, pronto, nem sempre isto é feito.

Margarida David Cardoso: Marta Crespo e Joana Leal são as únicas, entre este pessoal de enfermagem, que trabalham fora da psiquiatria, embora em contacto com ela. Marta Crespo trabalhou numa unidade para pessoas com demência, depois nos internamentos de medicina interna e nos cuidados paliativos do Centro Hospitalar de Leiria.

Marta Crespo: Imagina: uma agitação, e nós estamos a tentar aguentar, não dá, não dá  (isto já aconteceu comigo), vamos gerir, vamos gerir, vamos gerir – uma queda. E tu pensas: “Porra, isto é uma balança.” Tu preferes uma queda em que te parta uma perna ou preferes realmente dar alguma coisa que acalme até se conseguir chegar a um comportamento estável? Acho que é um bocadinho por esta balança que eu sigo a minha prática. Agora, se me disseres se eu à minha volta já reparei quando, se calhar, os turnos estão piores, quando há mais stress, a gente tenta agarrar o turno e dar, se calhar, por prevenção? Sim, já aconteceu.

Margarida David Cardoso: Joana Leal é enfermeira no internamento de medicina interna do Hospital de Leiria, por onde passam várias pessoas idosas com demência ou estados de confusão mental.

Nuno Viegas: Se tivessem mais recursos humanos, mais pessoas presentes ali, teriam de recorrer menos vezes à contenção química e à contenção mecânica?

Joana Leal: Provavelmente, sim. Porque às vezes não há tempo para estar com essas “coisas”, entre aspas. Se calhar é rápido demais, é a nossa primeira opção antes de qualquer outra. Mas também, também lá está, vai de encontro a esse problema de não haver recursos humanos para fazer de outra forma. Durante a minha prática, nunca vi isto a ser de outra maneira. Então, para mim, isto já é uma, vá, situação normal. Apesar de não ser o ideal, é a situação normal.

Margarida David Cardoso: A prescrição de qualquer tratamento farmacológico tem que ser feita por um médico, dispensada pela farmácia hospitalar, e é depois gerida e administrada de forma autónoma por enfermeiros, à responsabilidade da chefia de enfermagem. No SNS, as benzodiazepinas têm um controlo acrescido como parte dos esforços para reduzir o seu consumo. Nas últimas décadas, a digitalização dos processos clínicos tornou possível um maior controlo e escrutínio dos registos de prescrição e de administração de todo o tipo de fármacos. Há hospitais com mecanismos mais avançados do que outros, em que os medicamentos saem da farmácia já embalados para cada doente, na dose certa, e o registo da administração é feito eletronicamente. Por isso, vários enfermeiros em contexto hospitalar descrevem esta contenção química excessiva, e o seu subregisto, como uma má prática deixada no passado.

Joana Leal: Eu lembro-me que no início do meu trabalho havia elementos que davam medicação que não estava prescrita, em SOS. Eu acho que atualmente nós temos mais o cuidado em nos proteger de possíveis problemas, possíveis queixas. Eu acho que essa mudança tem a ver com atualmente haver muitas queixas de familiares. Antes, os familiares achavam os médicos e os enfermeiros os suprassumos e tratavam-nos super bem – tanto que davam-lhes prendas, não sei se já ouviste falar…

Nuno Viegas: A minha mãe é enfermeira.

Joana Leal: E agora não. Agora desconfiam de nós de tudo e mais alguma coisa, somos sempre incompetentes. E há montes de queixas relativamente ao nosso trabalho. E nessas queixas vão rever tudo – os registos todos, as coisas todas. E claro que ninguém de nós quer estar em cheque. Ou seja, se vamos dar uma medicação, é porque ela está prescrita. Eu acho que tem mais a ver com isso. Essa mudança tem a ver com a mudança da sociedade em geral, a opinião em relação a nós e a facilidade que há em fazer queixas e em consultar todos os registos informáticos de tudo, de tudo.

IV

Margarida David Cardoso: Num internamento psiquiátrico, as situações de agressividade, quer verbal, quer física, não são de menosprezar. Acontecem e implicam dos profissionais de saúde capacidade para as compreender: “Ok, esta pessoa que me está a chamar nomes, está a chamar-me nomes numa condição de doença que a motiva a agir assim.”

Explica-nos um enfermeiro especialista em saúde mental que é preciso “dar sentido à zanga”. Se não, o profissional de saúde passa a ser um cidadão comum que pode dizer “Não estou para ouvir nomes, nem estou para ser insultado, nem estou para levar porrada”. E isto aprende-se a gerir com formação, com experiência própria e com tempo para aprender com a experiência dos outros. É também por isso que a lei reconhece aos enfermeiros do internamento de psiquiatria uma compensação “pelo exercício de funções em condições particularmente penosas”. Têm mais cinco dias de férias por ano e possibilidade de redução de horário sem contrapartidas.

Entre dezenas de entrevistas com profissionais de saúde, são comuns as reflexões sobre como a abordagem a um utente que está descompensado afeta essa descompensação. Como a linha resvala quando a comunicação não está certa. Quando a paciência se perde, o toque e a postura mudam. E quando o doente não tem condições para compreender o que está a acontecer, entra numa escalada. Comportamento gera comportamento. Associa-se à falta de profissionais, à exaustão e formações débeis. Dentro destas descrições, que dependem sempre do lado por onde se puxa a questão, há enfermeiros que observam a linha que justifica intervenções mais duras a ser colocada bastante cedo.

Este profissional de saúde que vais ouvir de seguida concordou inicialmente em falar sem qualquer constrangimento. Trabalha no Hospital de Santo Espírito, na ilha Terceira, nos Açores, administrado pelos serviços de saúde regionais, independentes do SNS. No entanto, depois de contactarmos a instituição em que trabalha para contraditório, este trabalhador sentiu-se intimidado pela reação do hospital. Foi convocada uma reunião para esclarecer quem teria falado à imprensa. Esta pessoa acabou a pedir-nos para não a identificar com medo de sofrer represálias. Atendendo às circunstâncias, reescrevemos a sua história sob anonimato.

Ao longo da entrevista com o Nuno Viegas, navega entre histórias de inspiração e desilusão com a psiquiatria. Fascina-se por modelos de serviços que funcionam de forma diametralmente diferente do seu. Com espaços que, em si mesmos, são terapêuticos, que ajudam a conter a agitação e evitar intervenções mecânicas e químicas sobre os doentes.

Profissional de saúde: É o espaço em si que está preparado para que a pessoa possa lá estar sem qualquer tipo de contenção química. Como é que poderia ser possível um doente agitado entrar e até ele aceitar efetivamente a medicação, ele poderia estar ali no seu estado puro, e eu tinha era um espaço físico que me permitiria regular aquilo sem necessidade de intervenção mecânica ou necessidade de intervenção química? Isto, para mim, é perfeitamente inconcebível, porque o espaço não é um espaço preparado para isso, segundo porque a nossa mentalidade não está preparada para isto. 

Margarida David Cardoso: É natural que a agitação de um doente perturbe o profissional também. E por isso é que se pressupõe de quem trabalha em psiquiatria uma grande capacidade de relação com os outros, um enorme controlo das emoções, e, acima de tudo, muito autoconhecimento e consciência de si mesmo.

Profissional de saúde: Mas nós, como técnicos, é que temos que regular o nosso comportamento para que seja o utente a vir sincronicamente ao nosso tipo de comportamento e não contrário. E não sermos nós a sermos levados por aquela agitação.

Margarida David Cardoso: Recorda uma intervenção em particular que o traumatizou, por ter sido incapaz de agir nesse sentido. Nesse dia, vinha da urgência um utente com um mandado de condução acompanhado pela polícia. O internamento é avisado de que estaria agitado. Mas não o vê tão agitado quanto isso.

Profissional de saúde: É claro que como qualquer outro ser humano que se vê encurralado, rodeado de quatro ou cinco polícias, rodeado de um médico, rodeado de dois enfermeiros, e rodeado de um auxiliar, ele está em minoria, num quarto encurralado. Portanto, é normal que ele esteja na defensiva, não é?

Mas a agitação maior era do próprio técnico, neste caso da médica. E, portanto, aquele paciente que estava relativamente calmo, que estava a tentar compreender porque é que estava em plena via pública e tinha sido chamado para comparecer no serviço de psiquiatria sem entender o motivo… Ele queria conversar sobre esse assunto, e a médica como queria despachar… Ou se o próprio potencial de agitação do doente a colocava nervosa… E ela começou em altos gritos a dizer: “Injetem, injetem, injetem! Amarrem-no à cama! Amarrem-no à cama!” Portanto, foi uma situação em que eu acho que não cumpri com o meu código deontológico. Porque eu tenho que cumprir as indicações, não é? Mas eu, na minha verdade e na minha consciência, o que me apeteceu naquele momento foi dizer a cada um daqueles indivíduos: “Façam favor de sair desta unidade. Vocês estão mais desestabilizados do que o próprio doente. Saiam todos.”

Margarida David Cardoso: Saindo todos, imagina-se com condições e tempo para falar com o doente – o serviço é pequeno. Poderia explicar-lhe o que aconteceu, o que era aquilo do mandado de condução, que poderia consentir com o tratamento ou, então, seria provavelmente internado involuntariamente.

Profissional de saúde: E não haveria necessidade de acontecer aquilo que efetivamente aconteceu, que foi uma contenção química forçada, que foi uma contenção fisicomecânica forçada, com um doente a chorar.

Margarida David Cardoso: Mas diz que não fez nada, ficou a ver. E aí é que acha que está a sua culpa. O Hospital de Santo Espírito diz que não teve conhecimento deste incidente, “nem tão pouco foi reportada nenhuma situação desta natureza formal ou informalmente”.

Nuno Viegas: Isto dificulta depois o processo terapêutico?

Profissional de saúde: O tratamento vai acontecer. Ele vai ser sedado, ele vai ser medicado durante aquelas duas, três semanas. Ele vai ter alguma indução química sobre o seu comportamento. Agora dizer que isto é terapêutico? Duvido. Duvido porque aquele doente sai da porta para fora e deixa de tomar a medicação. Porque ele não entende as vantagens. Pronto, porque ele não entende as vantagens.

Margarida David Cardoso: Retrata uma relação às vezes tensa entre médicos e enfermeiros, que dificulta comunicações francas.

Profissional de saúde: E depois uma primazia ou uma sobrevalorização do regime medicamentoso que faz com que os médicos não reconheçam ou não tenham tempo de observação para perceberem que há outras técnicas ou há outras maneiras de atuar que podem ser igualmente eficazes.

Margarida David Cardoso:  É um retrato comum. De enfermeiros que não conseguem transmitir as nuances daquilo que conhecem e observam nos doentes e poderia influenciar o seu tratamento. As suas “intervenções são autónomas e independentes”, por regulamento da profissão, mas o seu poder de decisão, na prática, é muitas vezes dependente dos médicos que passam de visita. Uma enfermeira reformada contava-nos como ressente na saúde física os dias de trabalho sucessivos sem ir à casa de banho ou beber água; como comia à mesa com os doentes, pois todos os momentos eram de pedagogia; como o burnout é uma consequência frequente deste “ter de estar a 100%” e ser quem dá a cara no internamento. Ouvimos, várias vezes, traços desta tensão de um lado e do outro. De médicos o ressentimento da pressão para medicar mais ou aumentar a dose mais depressa, porque “o doente está agitadíssimo”. Ouvimos de alguns a inquietação quando o doente lhes parece demasiado prostrado, excessivamente medicado em relação ao que estaria prescrito. Há relações de confiança que se perdem, responsabilidades que se cobram, e conversas frontais que ficam por fazer.

Esta é a tirada deste profissional sobre a realidade que conhece.

Profissional de saúde: Ah, é verdade. É verdade. É. Ninguém diz, mas é verdade. O que é que acaba por acontecer: os enfermeiros depois têm a mania de que são espertos, têm mania que são espertos, porque isto tem a ver com a mentalidade e como as pessoas funcionam em grupo, não é? Portanto, os enfermeiros depois fazem prescrições, ou suprimem tomas que estão prescritas, dão tomas que não estão prescritas, e fazemos todo este jogo de cintura. É assim: de uma forma geral, o esquema é cumprido. Pronto. Agora que existe uma gestão por parte dos enfermeiros que, muitas vezes, não é de conhecimento médico, existe.

Margarida David Cardoso: Relaciona-o também com falta de formação para o contexto específico da psiquiatria, com consequências na gestão das situações mais complicadas e das noites agitadas.

Profissional de saúde: E a excessos medicamentosos. E a excessos medicamentosos. Portanto, prescrevem para tornar este turno calmo. É preciso tornar o turno calmo. Isto nota-se. Eu às vezes… Eu solto o doente. O doente fica solto o turno todo. Depois eu chego a casa com a cabeça moída, não é? Tenho que ir dormir, tenho que ir ao mar, tenho que ir fazer qualquer coisa para me regenerar, porque aquele doente lixou-me a cabeça toda, não é? Porque está verborreico, porque fala, fala, fala, fala, fala, fala, fala e eu tenho que ser ouvidora daquilo, porque ele está agitado psiquicamente. E tenho que ter a santa paciência de o ouvir. Há pessoas que não têm a santa paciência para os ouvir.

Nuno Viegas: Há pouco disse-me, quando estava a falar do caso da médica que gritava “Injeta! injeta!”, disse-me “Senti que nessa altura não cumpri o meu código deontológico”. Alguma vez fez queixa?

Profissional de saúde: Ai, eu agora vou-me sentar. Olhe, senhor, eu estou numa fase da minha vida que eu até já começo a considerar fazer uma objeção de consciência. Estou nessa etapa. Mais do que fazer queixa, fazer uma objeção de consciência. E, se calhar, olhe, despeço-me e vou trabalhar para um restaurante, servir à mesa, fazer outra coisa qualquer, porque aquilo que está a ser feito – desculpa, vou chorar um bocadinho – magoa-me. Acho que se poderia fazer de outras maneiras. E principalmente em localidades como nos Açores, pequenas regiões, nós poderíamos ser um exemplo. Eu acredito que no continente as coisas sejam mais difíceis de gerir. E as pessoas vêm de distintas regiões e cada região tem a sua cultura, tem a sua maneira de ser. E, portanto, nós, pelo isolamento, poderíamos ser laboratórios de excelência nos cuidados de saúde mental. E acaba por ser o contrário.

Margarida David Cardoso: Tenho agora que ser sincera: o relato desta experiência deu-nos uma porrada. Vínhamos de uma série de entrevistas, muitas delas duras, pelo sofrimento ético que transparecia em várias pessoas; outras foram algo surreais, diria, por profissionais parecerem chocados, defensivos, ou resignados, ao serem levados a questionar nestes termos a sua prática. Dias depois, ainda a gerir uma certa confusão mental, quisemos correr algumas destas questões pelo enfermeiro António Nabais, do hospital D. Estefânia, em Lisboa. Como professor universitário, orienta regularmente estágios de enfermagem em psiquiatria, e esteve, entre outros cargos, no Conselho de Enfermagem da Ordem dos Enfermeiros [2008-2011]. Ouviste-o bastante no episódio 8, numa primeira entrevista. Mas houve uma ideia, nesta nova entrevista que começou por ser uma chamada, que fez com que ligássemos vários pontos nesta história.

António Nabais: Claro que o risco de poder abusar ou usar mal a contenção química aumenta quanto maior… Se diminui as horas de cuidados – quer de enfermagem, quer de pessoal auxiliar (técnico auxiliar de saúde, que também existe pouco e com pouca formação. E, portanto, recorrer a outras estratégias que estão integradas numa cultura ainda muito asilar (que existe em muitos contextos)… Claro que essas culturas asilares e institucionais são sempre muito despersonalizadas, muitos desumanizadas. E temos que acabar com elas definitivamente. E espero que quanto mais recursos existam… Mas não sei. Às vezes tenho muitas dúvidas…

Margarida David Cardoso:  António Nabais admite as muitas dúvidas que tem de que seja apenas uma questão de falta de profissionais, por si só.

António Nabais: Há pessoas com doença mental grave, com doença de evolução prolongada, que vivem em enfermarias com 40, 50 e 60 camas, completamente despersonalizadas, descaracterizadas, nada humanizadas, onde as pessoas ainda nem a própria roupa que vestem é uma roupa que seja individualizada. E, portanto, é isto que tem que se acabar. Não adianta, muitas vezes, nestes contextos meter lá mais profissionais porque o meio em si não permite que se desenvolva práticas muito diferentes.
Como é que nós conseguimos promover o autocuidado e a autoestima em alguém que vive no espaço destes? Eu vou-me vestir, hoje, bonito para quem e para quê? As pessoas não fazem nada. Portanto, estão ali, andam ali para trás e para a frente. E, às vezes, se eu criar algumas tensões ou se eu me zangar, pelo menos têm alguma dinâmica, acontece alguma coisa aqui. 

Margarida David Cardoso: O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, nome atual do antigo hospital Júlio de Matos, tem exemplos disso. Quando se abriram as portas do hospital psiquiátrico e outras entidades públicas se albergaram em pavilhões vagos, cada instituição fez obras. Foi o caso da Administração Central do Sistema de Saúde, a ACSS.

António Nabais: E nós entramos nesses pavilhões da ACSS e são hotéis de cinco estrelas. E entramos nos pavilhões idênticos onde estão pessoas internadas, doentes e são… Nem uma estrela têm. Para mim isto é pornográfico. Eu até tenho dificuldade em adjetivar o que é que é isto. Mas isto é muito agressivo. É muito agressivo, quando um profissional de saúde frequenta os dois contextos e sai de uma reunião numa instituição de uma enfermaria que está transformada num centro de trabalho e de escritórios altamente luxuoso, e, a seguir, entra numa enfermaria onde as pessoas vivem 24 horas por dia em que é tudo horrível: é frio, é gelado, cheira mal, está degradado, não tem nada.

Margarida David Cardoso: Em 2022, cerca de 120 pessoas viviam nas quatro unidades residenciais para doentes de evolução prolongada, que o hospital mantêm por ausência de respostas comunitárias adequadas. Nos últimos anos, a direção fechou dois pavilhões para doentes crónicos por falta de obras [pavilhão 30, em 2013; pavilhão 16-A, em 2019]. Esta enfermeira trabalhou no primeiro a fechar, em 2013, o pavilhão 30.

Profissional de saúde: E quando entrava lá só me apetecia chorar quase, porque aquilo era terrível. Parecia saído de um filme de terror. Aliás, aquilo parecia… Eu não sei como é que era possível existir um serviço daquelas nessa altura, em 2011/2012.

Margarida David Cardoso: O segundo pavilhão fechou em 2019. O conselho diretivo do Júlio de Matos diz ter pedido, dois anos antes, autorização e financiamento à tutela para fazer obras. Descreve um edifício degradado “com pouca luz natural e com 57 camas dispostas em dois andares”, onde não se usava a lotação completa, por “escassez de profissionais que pudessem apoiar dois andares em simultâneo”. Em 2019, sem sinais de obras, estes doentes foram transferidos para a atual Residência Psiquiátrica I. Lá uma estudante de enfermagem compara a sua experiência, em 2021, ao trabalho numa prisão: dar medicação, gerir o tabaco, fechar todas as portas que se abre. Chamava-lhe a “ala dos esquecidos”, onde via as pessoas com comportamentos mais difíceis passarem o dia fechadas num dos corredores, companheiras do chão e algumas cadeiras. Descrevia como tudo encaixava numa rotina com pouca liberdade para desvios ou qualquer ideia de reabilitação.

Profissional de saúde: Estás despida, literalmente, em todos os sentidos. Tu estás à mercê de quem tiver.

Margarida David Cardoso: O hospital diz que neste pavilhão têm sido feitas obras. Mas refere o que citamos no início deste episódio: que embora haja o pressuposto de que “todo o cidadão tem direito à reabilitação psicossocial”, o hospital tem problemas por falta de enfermeiros e assistentes operacionais. 
De novo, António Nabais.

António Nabais: A doença mental coloca as pessoas numa condição, muitas vezes, em que ficam subjugadas a determinados poderes e práticas completamente desumanizadas. São pessoas que estão institucionalizadas há anos, que não têm uma família que reivindique também direitos e cuidados e, portanto, acabam por estar muito esquecidas. E sempre assim viveram. E, portanto, muitas vezes… Há profissionais com quem nós falamos sobre isso que, às vezes, até acham estranho o nosso… Pronto, “sempre assim foi”…

Margarida David Cardoso: Desde de que começamos a trabalhar nesta série que não nos sai da cabeça uma pergunta: como podem persistir estruturas fundadas nestas lógicas asilares, onde ainda se segrega a psiquiatria de tudo o resto? É aqui que nos encontramos de novo com a história dos hospitais psiquiátricos. Os projetos de construção do hospital psiquiátrico Júlio de Matos, em Lisboa, atravessaram uma e outra guerra mundial até à inauguração em 1942. No Porto, o Magalhães Lemos foi projetado nos anos 50. As suas funções mudaram muito desde então, mas nunca se fizeram extinguir. Quase tudo nestes hospitais psiquiátricos deveria ter sido progressivamente transferido para hospitais gerais até 2016, dizia o Plano Nacional de Saúde Mental. Mas há uma relação de dependência que tarda em quebrar-se.

Durante meses, quisemos focar-nos numa dessas instituições. Falamos com atuais e antigos trabalhadores, alguns doentes e famílias. Ouvimos repetidas vezes os mesmos retratos sobre precárias condições de internamento e de trabalho. Encontramos serviços de portas abertas ao lado de outros perfeitamente opacos. De quase todas as pessoas, veio um pedido de anonimato, por receio de represálias. No próximo episódio, vamos ao Magalhães Lemos.

Teaser do próximo episódio

Ana Cerqueira: Nós chegamos a ter 53 doentes num espaço vocacionado para 16, programados estruturalmente para 16, chegamos a ter 53 doentes. 

Profissional de saúde: Houve uma altura crítica de fim de verão de 2018, em que realmente as coisas estavam totalmente descontroladas.

Rosa Encarnação: Eu tenho alguma dificuldade em entender. Acho que as pessoas não sabem muito bem o que é uma catástrofe.

António Leuschner: O Magalhães Lemos dá o que pode, que é ir enchendo o balão na medida em que aumenta a procura e diminui a válvula de escape. Diz-me assim: “Mas o balão estava mesmo, mesmo, mesmo…” Se calhar esteve, várias vezes. 

Profissional de saúde: O que é que os doentes fazem durante o dia? Nada. Os doentes estão nos cadeirões, ou a fumar na sala de fumo, ou a andar de um lado para o outro tipo zombies. Sobrecarregadíssimos de benzodiazepinas.

Margarida David Cardoso: Sentes que isto é algo que se discute entre médicos, entre profissionais de saúde?

Profissional de saúde: Não é, não é. Não só não é, como é possivelmente, é capaz de ser dos piores assuntos que se pode colocar na mesa numa reunião de serviço.

Ana Cerqueira: A pandemia, achei que aquilo era uma nesga de oportunidade para mim, uma nesga de oportunidade de pôr as regras, pôr as regras.

Sofia Gomes: A questão é: não pode voltar atrás. É que é muito fácil isto voltar atrás. Muito fácil.

Ana Cerqueira: Agora a luta é essa, sim.

V

Bernardo Afonso: “Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere, a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, porém, senão a monotonia de mim. Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem, é outro hoje, pois que hoje não é ontem. Cada dia é o dia que é, e nunca houve outro igual no mundo. Só em nossa alma está a identidade – a identidade sentida, embora falsa, consigo mesma – pela qual tudo se assemelha e se simplifica. O mundo é coisas destacadas e arestas diferentes; mas, se somos míopes, é uma névoa insuficiente e contínua. O meu desejo é fugir. Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir […]. Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias. Quero repousar, alheio, do meu fingimento orgânico. Quero sentir o sono chegar como vida, e não como repouso. […] Infelizmente, só a minha vontade mo não pode dar.”
Citação do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares

CRÉDITOS

Nuno Viegas: Acabaste de ouvir Pregos e martelos, o décimo episódio da série Desassossego. Se quiseres ouvir já o próximo episódio e todos os seguintes basta fazeres uma contribuição mensal para o Fumaça. Quem nos apoia já tem acesso à série completa de 13 episódios. Vai a fumaca.pt/contribuir e ajuda-nos a ter a primeira redação profissional portuguesa totalmente financiada pelo público. Quem apoia o Fumaça também tem acesso a várias entrevistas extra para explorar mais esta história.

Este episódio foi escrito pela Margarida David Cardoso que fez a reportagem e investigação da série. O Bernardo Afonso editou o episódio e ainda fez investigação, compôs e interpretou a banda sonora original, fez a edição de som e sound design. É também ele que lê os excertos do Livro do Desassossego de Bernardo Soares. O Pedro Miguel Santos fez revisão de texto e reportagem tal como eu, Nuno Viegas, que fiquei também com a verificação de factos. A Joana Batista criou a identidade visual. A Maria Almeida e o Ricardo Esteves Ribeiro, a estratégia de marketing. O Fred Rocha fez o desenvolvimento web. Todas estas pessoas participaram na construção coletiva da série. Podes encontrar em fumaca.pt a transcrição de todos os episódios, fontes, documentos e imagens relacionadas. Fazem ainda parte da equipa Fumaça: Danilo Thomaz e Luís Marquez.

A produção desta série foi parcialmente financiada por bolsas de apoio ao jornalismo de investigação da ARIS da Planície – Associação para a Promoção da Saúde Mental, do Sindicato dos Jornalistas, em parceria com a Roche e da Fundação Rosa Luxemburgo. Podes ver os contratos em fumaca.pt/transparencia.

Até já.

DOCUMENTAÇÃO EXTRA

Respostas do Conselho Diretivo do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa ao Fumaça, julho de 2022Respostas do Conselho Diretivo do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa ao Fumaça, outubro de 2022
Intervenções de Enfermagem na Prevenção e Gestão de Comportamentos Agressivos em Contexto Psiquiátrico.
Tese de mestrado.
Contenção mecânica: perceção dos enfermeiros.
Artigo de investigação publicado na Revista de Investigação & Inovação em Saúde

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