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Eleições Europeias 2019

Guilherme Serôdio: “Se os governos têm um inação criminosa em relação ao clima, temos o direito de rebelar-nos”

[Nesta entrevista, a propósito do movimento Primavera Europeia, há uma referência ao partido político Livre. A bem da transparência, relembramos que o Tomás Pereira, fundador e membro do Fumaça, é militante do Livre e dado seu envolvimento nas eleições europeias e legislativas deste ano está afastado das decisões editoriais do Fumaça]

Antes de se começar a queimar combustíveis fósseis a um ritmo industrial no século XIX, a temperatura média à superfície da Terra era mais fria do que hoje, em cerca de um grau Celsius. Eventos extremos como secas, chuvas prolongadas, e ondas de calor eram menos intensos e menos frequentes. Não pairava sobre zonas de costa e pequenas ilhas o risco de ficarem submersas devido ao aumento do nível médio do mar, provocado pelo degelo das calotes do Ártico.

Sabemos que se ou quando a temperatura média à superfície da Terra ultrapassar um grau e meio face ao período pré-industrial, quase tudo será mais extremo.

Tentando evitar que isso aconteça, há duas semanas, milhares de pessoas em mais de 80 cidades de 33 países deram corpo a uma “rebelião climática” para sublinhar a urgência de cidadãos e governos agirem perante as alterações do clima. Organizaram-se com o selo da Extinction Rebellion. Bloquearam estradas e pontes, ocuparam a entrada de petrolíferas, interromperam eventos políticos. Só na capital britânica, mais de mil manifestantes foram detidos em dez dias. Em Portugal, o primeiro-ministro António Costa e o ministro do Ambiente João Matos Fernandes viram, um no início, outro no final da semana, os seus discursos serem interrompidos; entre outras ações de protesto, os ativistas entraram pelas manhãs da CMTV adentro, invadiram a sede da EDP e montaram uma rede de plásticos à porta da Nestlé, em Lisboa.

Mas isto não começou aqui. Começou em Outubro do ano passado quando mil e quinhentas pessoas – números da Extinction Rebellion – se juntaram numa acção de desobediência civil não violenta em frente ao parlamento britânico e anunciaram uma declaração de rebelião contra o governo. Desde então, o movimento não parou de crescer.

Quebram a lei de forma não violenta para exigir mudanças. Pedem aos governos que sejam honestos sobre as verdadeiras implicações das alterações climáticas – e o fim da complacência da comunicação social. Que não ignorem o alerta dos cientistas do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas sobre os 12 anos que nos restam para travar uma avalanche de efeitos catastróficos. Dizem aos governos que é urgente declarar um estado de emergência climática e criar assembleias de cidadãos para tomar decisões; que é urgente travar a perda de biodiversidade – depois da população de vertebrados, para dar um exemplo, ter encolhido mais de 60% desde 1970. Dizem que é urgente reduzir as emissões de gases com efeito de estufa para que em seis anos as economias sejam neutras em carbono – ou seja, só emitam aquilo que têm capacidade de absorver. Colocam este cenário, por causa do risco de já em 2030 os termómetros registarem mais um grau e meio face ao período pré-industrial se nada mudar na forma como vivemos.

Guilherme Serôdio, fundador da Extinction Rebellion em Bruxelas, diz que o objetivo final é que a sociedade meça o sucesso de maneira diferente. Ele, que percebeu que com marchas e petições não era ouvido, faz parte um grupo de “pessoas normais dispostas a perder a sua liberdade problema muito maior do que elas”. E que gritam: isto é uma emergência.

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