Que revolução?

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Piso Beirute pela primeira vez no último dia do ano. As máscaras abaixo do nariz e abaixo da boca e inexistentes, até, mostram que há outros problemas em que pensar. Que tudo é demasiado complexo. Que não é só preto e branco nem sequer só preto e branco e tons de cinzento. Que tudo é demasiado complexo. O sol e o calor parecem desafiar a ciência, que adivinhava chuva e nuvens e chuva outra vez e um sol apenas nos seus intervalos, durante 13 dias. E que, durante 13 dias, tudo foi ao contrário: sol e céu azul e sol outra vez e de chuva nem uma inteira noite. Como que dizendo que aqui tudo é demasiado complexo, que não dá para adivinhar os dias seguintes, o mês seguinte, o ano seguinte.

Ao ano seguinte pedem-se melhores ventos. Mas já se nem tenta adivinhar, que tudo é demasiado complexo. “Essa pergunta é maldosa”, diz-nos uma voluntária do campo de refugiados palestinianos Burj al Barajneh quando lhe perguntamos se tem esperança. E é. Se ao fundo se vê algo, é um buraco, um túnel negro, uma tempestade para onde caminham os que ficam – ou, pelo menos, os que ainda lá não estão.

Os que ficam e os que vão.

“Já não conheço ninguém no Líbano” foi das frases que mais ouvi nas semanas antes de viajar. Quem conseguiu sair, saiu. Quem não conseguiu, tenta ainda, num país sugado por uma crise económica, financeira, política, energética, sanitária, “neste tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo” — diria José Mário Branco —, onde o êxodo é a solução de uma geração. Até que a poeira assente. “Mas a poeira nunca assenta no Líbano”, escreve a jornalista Zahra Hanki, ela própria exilada.

Não pode haver razão para tanto sofrimento.
E se inventássemos o mar de volta,
e se inventássemos partir, para regressar.


Piso Beirute pela primeira vez no último dia do ano. E quero saber tudo, aprender tudo. Mas tudo é demasiado complexo. Falta tempo para entender aquilo que ainda não houve tempo de ser escrito e o que ainda não houve tempo para ser entendido. Porque tudo é demasiado complexo. É para mim — que passo de passagem, com o privilégio na carteira, no passaporte, na cor da pele —, mas, enfim, para toda a gente. É isso que diz a gente com quem falo: que não chega duas semanas, que não chega duas mãos cheias de entrevistas. Que o Líbano de hoje é o Líbano de hoje mais o Líbano de ontem, e o das invasões de Israel, e da divisão do povo em religiões e etnias, e da Guerra Civil mortífera, e dos mesmos de sempre no poder, com os mesmos apelidos e as mesmas famílias, e das avalanches de refugiados e das avalanches de ONG, e da economia da “ajuda ao desenvolvimento”, e do colonialismo… Tudo é demasiado complexo.

O que é claro — para mim, para toda a gente — é o sistema. Não como se produziu, mas o que produziu. Andar a pé por Beirute é caminhar pelos destroços do capitalismo neoliberal, da democracia falhada, do neocolonialismo. Por vezes físicos, os destroços, mais reais que nunca, como quando se pisam os estilhaços de uma explosão que tem mais de um ano — 4 de agosto de 2020 —, mas que vem de lá de trás. Uma explosão que pode bem conter em si tudo isso: a podridão, a injustiça, o açambarcamento, a corrupção, a desigualdade. E que resultou também na repetição disso mesmo: da podridão, da injustiça, do açambarcamento, da desigualdade.

A desigualdade. Atravessa-se Beirute a pé por nem mais do que uma hora, cabeça levantada — não haverá outra maneira de ver o topo dos prédios mais altos — e vê-se de tudo. Da mais impressionante riqueza que o dinheiro pode comprar à mais impressionante decadência das estruturas fundamentais da vida. Casas caídas, crateras que atravessam prédios sem vidros que nunca mais verão gente. Prédios que lá estão há um, dois, 20 anos, daqueles que se sabe, por instinto, não se voltam a pôr de pé. Crianças que ora procuram algo que valha dentro de caixotes de lixo, ora pedem dinheiro para comer uma sanduíche dez vezes mais cara do que há um ano.

Isto, lado a lado com as mais luxuosas habitações que se possa pensar. Não falo do luxo da Quinta da Marinha, Vale do Lobo e das grandes mansões da elite portuguesa. Não, isto é outra coisa. Palácios que são eles próprios obras de arte, condomínios de luxo como os que se vêem nos filmes de Hollywood, com dezenas e dezenas e dezenas de lâmpadas permanentemente acesas à entrada, dançando na cara de quem não tem eletricidade mais do que umas quantas horas por dia. Bairros fechados com betão e militares armados até aos dentes a tapar o caminho até às residências oficiais de alguns dos políticos mais poderosos. Porsches, Mustangs e outros que tais passando às dezenas, às centenas (aos milhares?) por ruas com nomes dos senhores do colonialismo. O francês e o árabe juntam-se como provando que isso tudo ainda não acabou. E continua. Do bairro mais vibrante, com bares abertos fora d’horas, galerias de arte, restaurantes no guia Michelin, até aos bairros construídos com material da Agência das Nações Unidas para os Refugiados.

E foi por isto, também, que milhares saíram às ruas em outubro de 2019 — a thawra ou a revolução. Fecharam estradas e acamparam em praças com gritos de revolta, montras partidas, o povo a tomar os destinos, a raiva, o amor, e a esperança (pela primeira vez?) noutro sistema. Talvez não soubessem qual nem como, mas exigiam outro. Outro sem nenhum dos atuais. “Todos eles significa todos eles”, gritavam

É difícil acreditar que alguma das pessoas que enchiam praças, nesta mesma cidade, e que viram o Governo a cair aos seus pés à segunda semana de protestos, esteja hoje melhor do que há dois anos. O sistema não mudou, nem a injustiça, a desigualdade, a pobreza, a raiva, a tempestade negra ao fundo do túnel, nem eles. Todos eles. Os salários, se já eram poucos, desaparecem a cada dia. A moeda desvaloriza todas as semanas — segunda-feira, um dólar valia 30 mil libras libanesas no mercado paralelo; hoje, vale 32 mil. E eu, jovem, revolucionário q.b., homem, branco, jornalista-intelectual, privilegiado, apaixonado pela Revolução, piso Beirute pela primeira vez no último dia do ano. Conta-me da Revolução, digo. “Que revolução?”, dizem-me. “Uma revolução é uma Revolução se não acontecer realmente?”

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