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Jornalismo independente
progressista e dissidente

16 Março, 2018

Reportagem
Ricardo Esteves Ribeiro
Maria Almeida

Edição
Frederico Raposo
Maria Almeida
Pedro Miguel Santos

Montagem e mistura de som
Bernardo Afonso

Texto
Ricardo Esteves Ribeiro

reportagem

Discriminação

Chelas City, a capital de Lisboa

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Fotografia: BAGABAGA STUDIOS/ Dá-te ao Condado e6g

Notícias de tiroteios, perseguições de última hora, agressões à polícia e nas escolas. É assim que Chelas é apresentada nos telejornais e nas manchetes dos jornais portugueses. Um antro de violência a menos de dez estações de metro ou 15 minutos de carro da Praça do Comércio, onde turistas queimados pelo sol bebem gins tónicos e comem petiscos “portugueses” de óculos escuros na cara. Para muita gente, Chelas é só mais um “bairro periférico”. Mas o estatuto de periferia é uma decisão política – Chelas não é mais longe da Praça do Comércio do que as Amoreiras, o Areeiro, Campo de Ourique, Campolide, Parque das Nações ou Alcântara. Ainda assim, taxistas não conduzem para o bairro, pizzarias recusam-se a levar lá comida.

“Esta zona não tem entregas.”, disse-me a Telepizza quando tentava encomendar uma pizza para Chelas. “Porquê?”, perguntei. “Estas zonas geralmente são consideradas zonas… perigosas (…) Na Zona J têm de ir buscar na esquadra”. “Zonas perigosas”.

Quem lá vive sente esta ou outras discriminações, todos os dias. Em entrevistas de trabalho, há quem esconda onde mora para não ficar de fora. Na escola, segundo o Sandro Santos, quem é do bairro também fica de fora : “Se no meio de 20 alunos tens três ou quatro do bairro social, esquece, esses já foram.”. O Carlos, ou MC Bambam, conta-nos como, para as autoridades, é suspeito quem vive no bairro: “Para eles [a polícia], somos sempre a mesma coisa, somos todos iguais. Por isso, não vale a pena. Branco, cigano ou preto, não interessa. Se és de um bairro social, (estão) em cima de ti…”.

As discriminações constantes geram a frustração de quem se sente suspeito por tudo e por nada e destrói sonhos, vidas. Mas será a violência que faz as manchetes. Ou são as manchetes que fazem a violência?

O MC Bambam e o Sandro Santos fazem parte do Bataclan 1950, um grupo de jovens, alguns MC’s [Mestre de Cerimónias, designação dada aos cantores de rap que escrevem e cantam as suas próprias letras], que têm vindo a denunciar através através do rap a discriminação e a violência policial de que sofrem no bairro. Foi com eles que conversámos nesta reportagem gravada no Bairro do Condado, em Chelas. Ouve a reportagem aqui:

Música: MC Bambam e Bataclan 1950

 

Agradecimentos aos BAGABAGA STUDIOS, sem os quais esta reportagem não seria possível.

 

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