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Opinião

Ainda vivo às custas dos escravizados pela minha família

20 Agosto 2020
05:30

Dormi mal este fim-de-semana. Quando tenho insónias vejo o debate de 1975 entre Mário Soares e Álvaro Cunhal. É apaixonante, longo, democrático, e ajuda-me a relaxar. Portanto, vi-o na íntegra, duas vezes. Estava particularmente irritado, nervoso, amedontrado, porque há semanas que ando de volta da mesma ideia: a ditadura, a guerra colonial, a monarquia, a colonização, foi tudo há tão pouco tempo.

A fotografia horrenda de racistas, de caras tapadas e tochas apagadas, em frente à sede do SOS Racismo, em Lisboa, ficou-me gravada como um retrato do pior que temos para dar. A Resistência Nacional mostrou nessa noite, como se restassem dúvidas, ser um grupo de ódio racista, xenófobo e decidido a reunir em si a supremacia branca portuguesa, até agora fragmentada por diversos grupos extremistas. Envergonha-me ver aquilo. Assusta-me saber que me cruzo com aquelas pessoas no dia-a-dia. Enoja-me saber que partilho com elas uma nação.

Já as ameaças de quinta e sexta-feira a deputadas, sindicalistas e ativistas são a encarnação do ódio ideológico, do espírito antidemocrático, da vontade declarada de intervir socialmente pela força, pela opressão e pelo medo. De uma assentada, em nome da Resistência Nacional e da Nova Ordem de Avis, deu-se ordem de expulsão a Beatriz Gomes Dias, Mariana Mortágua, Joacine Katar Moreira, Mamadou Ba, Danilo Moreira, Jonathan da Costa Ferreira, Rita Osório, Vasco Santos, Luís Lisboa e Melissa Rodrigues.

Isto não foi só racismo. Foi totalitarismo. O fator comum a estes nomes não é a cor de pele: é a defesa aberta das liberdades individuais, da Justiça, da Democracia e da Igualdade. A Resistência Nacional e a Nova Ordem de Avis são, mais do que racistas, saudosistas. São ultranacionalistas antidemocráticos, com saudades dos tempos do lápis azul e da “Índia Portuguesa”. São monstros apaixonados pelo monstro de Santa Comba, roubando a formulação de Henrique Monteiro. Os fascistas – cedo ao uso do termo – envergonham-me, assustam-me e, repito, metem-me nojo.

O que mais me irrita, o que me faz não dormir, não são as ameaças a deputadas. É a absoluta demonização dos democratas, e – o diagnóstico não é difícil – dos democratas de esquerda. “Para cada cidadão morto, dez estrangeiros serão eliminados” é uma ameaça racista. “Para cada nacionalista preso, um antifa será enterrado” é uma declaração de guerrilha política. Não é o desejo de institucionalizar o nacionalismo num regime democrático. É a vontade de abolir a própria democracia, de garantir o domínio ideológico pelo medo. É merecedor, lembrou-me este fim-de-semana Mário Soares, de receber uma Medalha Lenine.

A culpa é minha

Discutir os protofascistas modernos é impossível quando ainda não pensámos os ditadores do nosso passado. Perceber o espírito autoritário da extrema-direita, compreender o racismo estrutural da sociedade portuguesa, solucionar a polarização irracional do espectro político, é impossível sem aceitarmos plenamente a nossa História.

Para mim, este processo é pessoal tanto quanto é coletivo. A História portuguesa – e do mundo, diga-se – é o retrato de pirâmides fluídas de opressão. O monarca sobre o burguês citadino, sobre o remediado rural, sobre o agricultor pobre, sobre a esposa silenciada, sobre o negro livre, sobre o negro escravo. Todos entramos neste sistema, umas vezes como opressores, outras como oprimidos. Aceitar ambos os papéis não implica, não pode implicar, ignorar o outro. O astrolábio moderno não compensa o tráfico negreiro. O dia na fábrica não justifica a violência doméstica.

Costumo usar a minha ascendência como uma punchline. Há muito que acho graça ao cruzamento cliché do novo riquismo do lado do meu pai, os Viegas, com a aristocracia decadente do lado da minha mãe, os Gago da Câmara. Em todas as relações que tenho, mais cedo ou mais tarde, faço referência em tom de gozo aos três volumes da Nobreza de Portugal e do Brasil expostos na sala de estar do meu avô. Correndo a genealogia desenhada por Afonso Zúquete, digo, frequentemente, encontra-se o meu nome do meio como segundo Conde de Fenais, terceiro Barão e segundo Conde da Fonte Bela. Recuando um par de séculos vai-se ter ao topo da árvore: o meu mais antigo antepassado documentado é João Gonçalves Zarco, cavaleiro fidalgo, primeiro Capitão Donatório do Funchal, e parte do Padrão dos Descobrimentos.

Eis o que nunca refiro: a minha família materna teve escravizados. Nos Açores, onde a escravatura só foi banida em 1832, a prática dos meus antepassados está documentada pelo menos na ilha de São Miguel. No Brasil, para onde emigraram primos meus a partir do século XVIII, condenámos dezenas de pessoas ao trabalho forçado, principalmente no estado de São Paulo. Sobre Santa Maria, a ilha onde nasci, não encontro registos. Conto continuar a procurar. Temos pastos, matos, casas, uma capela, e cabeças de gado. É impossível estimar quanto disso veio, de uma forma ou de outra, de trabalho escravo.

Não sei disto por mito familiar. Fui eu que procurei os estudos, os censos, os levantamentos de património. Nos longos almoços de domingo, com vinte pessoas à mesa, isto nunca foi tema. Em momento algum se discutiu o nosso papel opressor, o que nos permitiu acumular a riqueza, estatuto e propriedade de que ainda hoje beneficio. Já a honra do brasão familiar, e a dor, o flagelo dos títulos perdidos com a República e a Democracia, eram o adoçante dos cafés.

Quando 87% dos açorianos nunca pôs os pés numa universidade, quando 28% saem do sistema de ensino sem a escolaridade mínima obrigatória, eu cresci rodeado de médicos e enfermeiros. Licenciei-me, claro. Era impensável não me licenciar. O meu contexto moldou-me, como nos molda a todos. Percebermos a nossa história pessoal, o nosso lugar na pirâmide, não é um exercício de auto-flagelação nem é redentor. É necessário para se compreender como chegamos ao presente, que vantagens tivemos, que desvantagens ultrapassámos e quem pisámos no passado – quem ainda agora pisamos – para chegar aqui.

A culpa é nossa

Perceber o nosso papel opressor é a pedra basilar da empatia. Não podemos ser antirracistas sem perceber o quão racistas somos, o quanto beneficiamos de um sistema criado para abusar do outro. Dizer que Portugal não é racista não é uma opinião, é um exercício de negacionismo histórico racionalmente indefensável.

Mas, compreendo como é possível pensá-lo. Porque depois de refletirmos sobre nós, sobre a nossa família, temos de refletir sobre o nosso país, sobre a forma como financiamos a expansão da escravatura em África, criando um incentivo económico para a sistematização de uma prática antes reservada à guerra; sobre como fomos os pioneiros do tráfico negreiro transatlântico, e garantimos o monopólio da escravização na África Ocidental por bula papal; sobre como raptámos, vendemos e transportámos de um lado ao outro do Oceano Atlântico 5,8 milhões de africanos, mais do que qualquer outro país; sobre como criámos, no Brasil, o principal mercado para esses escravizados no continente americano; sobre como violámos repetidamente mulheres negras, escravizando os filhos que nasciam dessas relações; sobre como é um embuste histórico a abolição da escravatura de Marquês do Pombal; sobre como foi preciso recebermos 750 mil libras do Estado Britânico para ilegalizarmos o tráfico de pessoas escravizadas a norte do Atlântico; e sobre como há relatos de trabalho escravo em plantações de cacau nas colónias portuguesas até ao século XX.

E essa reflexão é inexistente. Nenhuma criança sai da escola com noção das barbaridades, dos abusos, da violência horrenda que Portugal levou a cabo sobre povos e nações inteiras, durante séculos. A História que aprendemos é de Portugal Oprimido, nunca Portugal Opressor. Somos o país do eterno potencial, à espera de São Sebastião, pronto para voltar a dar novos mundos ao mundo. Somos o colonizador suave e benigno do lusotropicalismo, o pequeno rebelde da Península Ibérica, desperto para combater franceses e espanhóis. Somos, numa bengala política, os melhores do mundo.

Na realidade, temo que sejamos perfeitamente banais. Caricatos, engraçados, interessantes. Belos à nossa maneira, na mesma medida em que todos os países, todos os povos, todas as pessoas, o são. Mas banais. É nessa banalidade que está instalado o racismo estrutural da sociedade portuguesa. Porque não é possível ter um passado colonial tão próximo e não ter um presente racista. Também é nessa banalidade que se esconde, dormente, a semente do totalitarismo. Porque vai sempre haver um opressor que se sente oprimido, e quer encontrar forma de exercer o seu poder, de subir na pirâmide.

Compreender a História portuguesa não é aplicar ao país o selo cego da vergonha. É reconhecer que há coisas de que devíamos ter vergonha. Não temos de nos sentir culpados pelo que fizeram os nossos antepassados. Mas precisamos de, pelo menos, ter noção do que eles andaram a fazer.

É absurdo pensar que os feitos de um país anulam os seus pecados. Nunca vamos apagar o que fizemos. Precisamos é de nos decidir a tomar a herança completa. Se queremos reclamar o astrolábio, temos de admitir que o usamos para guiar os navios negreiros. Se nos apetece celebrar o Euro, temos de reconhecer que foi um desejo económico, uma vontade de expansão violenta, que nos levou à Guiné-Bissau. Para festejarmos a Democracia, temos de encarar o fascismo.

Nunca vivi em ditadura, mas penso muito na nossa. Foi há tão pouco tempo. Não deixemos o monstro voltar à cadeira.

Fotografia: Harvey Barrison

Edição de texto
  1. Ricardo Esteves Ribeiro
  2. Margarida David Cardoso
Texto
  1. Nuno Viegas
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