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14 Agosto, 2018




entrevista > é apenas fumaça

Joana Gorjão Henriques sobre racismo à Portuguesa

“Estarei a exagerar ou foi mesmo racismo?” A pergunta ficou no ar.

Espadaúdo, cabelo curtinho, sorriso traquina quanto baste, os olhares viram-se para ele, quando passa. Do alto dos seus mais de 1,80 metros, é um verdadeiro vencedor, ídolo desportivo internacional. Faz capas de revistas, desfila nas passerelles, aparece em publicidades, tornou-se um sex symbol.

Depois da meia noite fazia trinta anos e os amigos e as amigas levaram-no a uma discoteca da moda, para festejarem. Jovens, atléticos, eram um grupo grande.

Mas não seria ali o lugar dos festejos. Por mais dignos que estivessem, os seguranças barraram-lhes a entrada: “Demasiados pretos no grupo!!!”.

Assim, Nelson Évora, à data campeão mundial (Osaka, Japão, 2007) e olímpico (Pequim, China, 2008) de triplo salto, entre tantas outras medalhas, vitórias e recordes, era barrado à porta da discoteca Urban Beach, em Lisboa, mal-afamada pelas mais variadas situações de violência e discriminação racial ao longo dos anos. Aconteceu em 2014 e o desportista denunciou a situação na sua página de Facebook. 

 

Passaram quatro anos. Recuperado das várias lesões, depois de ter mudado de clube e de treinador, este domingo, 12 de agosto, Évora elevou-se 17,10 metros e assegurou o primeiro lugar do pódio do triplo salto, nos Campeonatos Europeus de atletismo, realizados na Alemanha. Içou-se a bandeira e ouviu-se o hino nacional no Estádio Olímpico de Berlim. “Feito heróico”, qualificou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa; “Mais uma vez, o Ouro tem as cores nacionais”, celebrou o primeiro-ministro, António Costa.

Mas este garboso “herói”, agraciado pelo Estado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, ocupava Cavaco Silva o Palácio de Belém, é negro. E isso, em Portugal, é quanto baste para que até beber um copo e dar um pé de dança não seja assim tão simples.

Joana Gorjão Henriques é jornalista no Público há quase 18 anos. Escreveu sobre muitos áreas mas, ultimamente, trabalha sobre Direitos Humanos. No mês passado, fomos conversar com ela. Não tem dúvidas de que as pessoas negras, por cá, partem sempre em desvantagem, ainda que a linha de partida seja a mesma: “As pessoas não brancas ficam sempre para trás”.

É autora dos livros “Racismo em Português – O lado esquecido do colonialismo” (junho de 2016) e “Racismo no País dos Brancos Costumes” (maio 2018), editados pela Tinta da China. Os dois resultam de séries publicadas no Público. “Racismo em Português”, sobre o lado africano da história colonial, e “Racismo à Portuguesa”, uma abordagem às desigualdades raciais em Portugal.

Trabalhos que a levaram a conclusões bem fortes: “Portugal tem uma história absolutamente atroz no tráfico transatlântico de escravos (…) foi o país que mais traficou pessoas de África para as Américas”; “Institucionalmente e estruturalmente há racismo na sociedade portuguesa, há racismo na Justiça” ou “O colonialismo foi uma ocupação, foi expropriação, foi violência”.

Em junho deste ano, foi-lhe atribuído o Prémio Gazeta de Imprensa 2017, o mais importante galardão de jornalismo em Portugal, premiando a sua investigação sobre racismo estrutural e institucional, em que demonstrou como o preconceito mina os sistemas de Justiça e Educação nacionais e trava direitos constitucionais como à habitação ou ao trabalho a pessoas negras.

Da brutalidade policial na Cova da Moura ao Museu das Descobertas, do privilégio branco à Lei da Nacionalidade, Joana Gorjão Henriques não deixa perguntas no ar: “O racismo não pode ser uma opinião. É condenável. Tem de ser punido”.

 

Texto e entrevista: Pedro Miguel Santos
Preparação: Pedro Miguel Santos e Ricardo Esteves Ribeiro
Captação de som e imagem: Bernardo Afonso
Edição de som: Bernardo Afonso
Edição de imagem: Frederico Raposo

 

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