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Resistência Antifascista

Margarida Tengarrinha: “Enquanto houver exploradores e explorados, temos que ter revolução”

 

“Amados pelo povo, os clandestinos e comunistas são o sustentáculo mais firme da resistência ao fascismo”, lê-se no livro “A resistência em Portugal”, escrito por Margarida Tengarrinha e José Dias Coelho, seu companheiro. A clandestinidade era uma missão pelo povo. Quem a aceitava, mergulhava numa vida de contradição. Longe da família, das filhas, que aos cinco anos tinham de abandonar os pais, dos amigos, do emprego e, mais profundamente, longe de si próprio. O primeiro passo era criar uma identidade nova, totalmente diferente da anterior. Mudar o aspeto visual, o sotaque, a história de vida, a profissão imaginada, e a estória a contar aos vizinhos e às vizinhas. E quando tudo parecia mais real, tudo mudava novamente.

“Fui quantas pessoas foram necessárias”, disse-nos Margarida Tengarrinha, militante anti-fascista de 90 anos, que esteve na clandestinidade cerca de 20. Em conjunto com o seu companheiro, o artista José Dias Coelho, criou uma oficina de falsificação de documentos para os camaradas do partido, incluindo Álvaro Cunhal, dirigente do Partido Comunista Português, já fugido da prisão de Peniche. Durante a década de 1950, as casas de Margarida e José foram dos mais importantes núcleos de resistência ao Estado Novo.

Mas a 19 de dezembro de 1961, “a morte saiu à rua” e “o pintor morreu”. José Dias Coelho foi assassinado a tiro pela PIDE, em Lisboa, enquanto fazia uma tarefa para o Partido Comunista Português. No ano seguinte, Margarida exilou-se em Moscovo, capital da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS, para trabalhar com Álvaro Cunhal e, mais tarde, mudou-se para Bucareste, na Roménia, onde foi redatora na Rádio Portugal Livre.

Durante a vida, foi Teresa, Leonor, Marta, e mais tarde, Beatriz. Só depois do 25 de Abril voltou a ser quem era: “O 25 de Abril para mim foi o César Príncipe [jornalista] puxar por mim e dizer “Margarida Tengarrinha”. É o meu nome!”.

No dia 21 de Julho, sábado, estivemos na Casa da Imprensa em conjunto com mais de 100 pessoas, para celebrar, ao vivo, o lançamento da nossa nova identidade: Fumaça. A Margarida esteve também connosco. Conversámos sobre os anos da clandestinidade, como foi criar as suas filhas Teresa e Guida, a morte do seu companheiro, a impunidade dos assassinos da PIDE e o 25 de Abril.

 

Acreditamos que o papel do jornalismo é escrutinar a democracia: questionar as decisões tomadas, responsabilizar os representantes. Falar dos temas de que poucos falam, ouvir quem tem menos voz, contas as histórias que não são contadas.
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