Menu
Jornalismo independente
progressista e dissidente

20 Novembro, 2018

Preparação
Pedro Miguel Santos
Ricardo Esteves Ribeiro

Texto
Ricardo Esteves Ribeiro

Vídeo
Bernardo Afonso
Frederico Raposo

Edição de texto
Pedro Miguel Santos

Entrevista
Ricardo Esteves Ribeiro

Fotografia
Frederico Raposo

Som
Bernardo Afonso

entrevista > é apenas fumaça

Brutalidade policial na Cova da Moura

José Semedo Fernandes: “As nossas forças policiais agem como agia a PIDE”

 

5 de fevereiro de 2015. A CMTV dava o alerta numa emissão em diretoà frente da Polícia de Segurança Pública (PSP) de Alfragide: “Invasão em Esquadra: um polícia ferido em Alfragide”. Segundo a peça, “um grupo com cerca de duas dezenas” deslocou-se desde o Bairro da Cova da Moura, na Amadora, até ao posto policial, para forçar a libertação de um detido.

A história é parecida com a que, ainda hoje, conta a PSP: depois de uma rusga no bairro, um dos residentes, Bruno Lopes, foi detido e levado para as instalações da Polícia por ter atirado pedras a uma carrinha das forças de segurança. Mais tarde, na versão da autoridade, amigos do detido invadem a esquadra onde este se encontra, com o objetivo de o libertar à força. Instala-se a confusão e um dos agentes é obrigado a disparar “para o ar”. Cinco outros residentes da Cova da Moura ficam detidos e são constituídos arguidos, acusados de invasão e do crime de “tirada de preso”.

Mas a história que contavam os arguidos, entretanto ilibados, pouco tempo depois, era bem diferente. Os cinco residentes, entre os quais dois membros da Associação Moinho da Juventude – Flávio Almada (LBC) e Celso Lopes -, vencedora, em 2007, do prémio de Direitos Humanos da Assembleia da República, tinham ido à esquadra de Alfragide procurar saber porque Bruno Lopes tinha sido detido. Era uma prática comum, aliás – dado o historial de violência policial no bairro da Cova da Moura -, sempre que um conflito acontecia entre a PSP e algum vizinho, contou-nos LBC, em novembro de 2016: “Antigamente nós pensávamos que a polícia batia aqui na malta porque nós não conhecíamos os nossos direitos. Fomos estudar as leis. Quando nós falávamos das leis, aí é que levávamos porrada mesmo”. À chegada, os cinco foram confrontados agressivamente pela Polícia, contam, e detidos durante dois dias, agredidos física e verbalmente e torturados. Celso Lopes foi atingido a tiro numa perna.

Depois de ouvir os seis jovens, o Ministério Público (MP) decidiu pedir à Unidade Nacional de Contraterrorismo da Polícia Judiciária que investigasse o caso. Em julho de 2017, numa imputação sem precedentes, 18 agentes da PSP foram acusados pelo MP dos crimes de falsificação de documento agravado e denúncia caluniosa e de tortura, sequestro, injúria e ofensa à integridade física qualificada, agravados pelo ódio e discriminação racial. O despacho do Ministério Público sobre o caso revela que a investigação concluiu “de forma inequívoca e sem sombra de dúvida”, que a história relatada nos autos da polícia não era verdadeira.

O julgamento de 17 dos 18 agentes (uma subcomissária fora, entretanto, ilibada) começou no passado maio. Enquanto todos os agentes da polícia mantêm a história, os seis ofendidos descrevem pormenorizadamente as cenas de horror que alegam ter acontecido, como relatou Valentina Marcelino, jornalista do Diário de Notícias, que tem acompanhado o caso:

LBC: “Disseram ‘lixo é para o chão’ e fomos atirados para o chão algemados, depois bateram, bateram e pisavam-nos, diziam ‘pretos do caralho’, levei um pontapé na cara e fiquei cheio de sangue, pisavam e insultavam”

LBC: “Estávamos do chão e eles pisavam e insultavam, Eles estavam a gostar aquilo. Ficaram felizes”

LBC: “Sempre que tentávamos levantar a cabeça éramos pisados. Ouvia o Paulo e o Rui a gritar”

LBC: “[Disseram-nos:] “Não sabem o quanto vos odeio, raça do caralho. Se pudesse eram todos exterminados”; “Deviam era alistar-se no Estado Islâmico” e “Se eu mandasse fazia uma lei para os mandar esterilizar a todos”.

Nesta entrevista, conversamos com José Semedo Fernandes, um dos elementos da equipa de advogados dos ofendidos. Falou-nos sobre o que se passou a 5 de fevereiro de 2015, da brutalidade policial em vários bairros da periferia de Lisboa – que os torna “zonas de exceção”, defende – e de racismo institucional.

 

Acreditamos que o papel do jornalismo é escrutinar a democracia: questionar as decisões tomadas, responsabilizar os representantes. Falar dos temas de que poucos falam, ouvir quem tem menos voz, contas as histórias que não são contadas. Se acreditas no mesmo e queres continuar a ouvir as nossas entrevistas, reportagens e séries documentais podes contribuir aqui.