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Legislativas 2019

Manuel Margarido Tão: “O Ferrovia 2020 é uma coleção de remendos”

19 Setembro 2019
08:01

No assunto ferrovia, se Manuel Margarido Tão, especialista em transportes da Universidade do Algarve, tivesse, por acaso, um frente-a-frente com o primeiro-Ministro, António Costa, grande parte das proclamações do chefe de Governo em matéria de comboios ficariam apeadas. 

A 5 de março de 2018, para o lançamento do novo troço da linha ferroviária Évora-Caia, juntou-se na Estação de Elvas uma comitiva de peso: o primeiro-ministro português; o Presidente do Governo de Espanha, Mariano Rajoy; a comissária europeia para os Transportes, Violeta Bulc, e o (à data) ministro do Planeamento e das Infraestruturas, Pedro Marques.

Anunciava-se um feito raro no país, o da construção de novos quilómetros de caminho-de-ferro, sobretudo quando a tendência das últimas três décadas tem sido a de os encerrar. De tal forma que o chefe de governo nacional anunciou o feito como “a maior obra de linha ferroviária nova dos últimos 100 anos”. Manuel Tão diz que não é verdade: isso aconteceu com a Linha do Sado, em 1925. 

No passado julho, na inauguração da eletrificação de um troço de 44 quilómetros na Linha do Minho, entre Nine (Vila Nova de Famalicão) e Viana do Castelo, Costa elogiou a obra, parte de um programa mais vasto que o seu governo lançou para os caminhos-de-ferro: “Esta não é uma obra isolada. É uma das peças importantes do grande programa Ferrovia 2020, que é o maior programa ferroviário, seguramente das últimas décadas e do último século, com dois mil milhões de euros de investimento”. Tão discorda. Olha para o Ferrovia 2020 como “uma coleção de remendos que nada de substancial vai alterar na ferrovia portuguesa”. 

Já no início de agosto, numa entrevista ao Canal 11, o canal de televisão da Federação Portuguesa de Futebol, António Costa disse, a propósito do ‘TVG’ (como ficou conhecido o projeto de comboio de alta velocidade português) – já meses antes tinha classificado como assunto “tabu na política portuguesa” – , não haver “condições económicas, nem condições financeiras no próximo quadro comunitário para que esse tema surja”.

Ora, o doutorado em economia dos transportes pelo Instituto de Estudos dos Transportes da Universidade de Leeds, no Reino Unido, desmente e atira: “Portugal tem direito, tal como Espanha, a 80% a fundo perdido de Fundo de Coesão para construir as suas linhas de alta velocidade [ferroviária]. Portugal não está interessado em receber esses fundos de Bruxelas. É uma opção política não avançar, porque Portugal tem direito a esses fundos comunitários.”

Talvez esta diferença de visões sobre o setor ferroviário, os seus problemas e necessidades seja a razão que faz este professor de transportes e planeamento regional não acreditar nas intenções dos governantes para a ferrovia nacional: “Houve, deliberadamente, uma vontade de distorcer a mobilidade e focalizá-la no transporte rodoviário para que depois essa mobilidade ficasse cativa de grupos económicos apoiados pelo Poder e pelas direções dos partidos políticos”, acusa.

Defende a construção de uma nova Linha do Norte, critica o abandono do projeto de alta velocidade pelos sucessivos governos e acha uma “aberração” a ponte aérea Lisboa-Porto, bem como a falta de ligações de caminhos-de-ferro a Espanha. Para o investigador, só o investimento estrangeiro, com a entrada de operadores europeus, fruto da liberalização do transporte ferroviário de passageiros, poderá salvar a ferrovia em Portugal. 

Até ao dia 6 de outubro, vamos estar focados no escrutínio de alguns dos assuntos que consideramos mais importantes à medida que se aproxima a votação que definirá a composição da próxima Assembleia da República e do próximo Governo. Vê toda a nossa cobertura das Eleições Legislativas 2019 aqui.

Edição
  1. Ricardo Esteves Ribeiro
Entrevista
  1. Pedro Miguel Santos
Fotografia
  1. Joana Batista
Preparação
  1. Pedro Miguel Santos
  2. Ricardo Esteves Ribeiro
Som
  1. Bernardo Afonso
Texto
  1. Pedro Miguel Santos
Vídeo
  1. Joana Batista
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