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Saúde e Emergência Climática

Christovam Barcellos: “O Brasil pode se tornar o epicentro de uma nova pandemia mundial”

18 Março 2021
06:29

Segundo a médica espanhola María Neira, diretora de Saúde Pública e Meio Ambiente da Organização Mundial de Saúde, “cerca de 70% dos últimos surtos epidêmicos que sofremos têm sua origem no desmatamento e nessa ruptura violenta com os ecossistemas e suas espécies”.  

Com os altos índices de desmatamento na região Amazônica e no Sudeste Asiático (que detém 15% do total da área de floresta tropical do mundo e perdeu, em 30 anos, uma área de florestas equivalente à Alemanha) as consequências da emergência climática encontram-se com a eclosão de grandes pandemias.  Superando as quatro pandemias identificadas durante todo o século XX, de 2009 para cá, cinco doenças já foram classificadas desta forma: Sars (2002-03),  Gripe Suína (2009), Ébola (2014-16), Mers (2015) e, agora, Covid-19. Isso sem contar com outras graves epidemias, como a de Zika, no Brasil, em 2015-16.  

Mas qual a relação entre desmatamento e outras ações que têm levado ao agravamento da crise climática e ao surgimento de doenças infeciosas?  

Para responder a esta e outras perguntas entrevistamos o geógrafo e engenheiro Christovam Barcellos, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, uma das mais importantes instituições sanitárias do Brasil. Em seus estudos, Barcellos tem buscado compreender a relação entre os problemas causados pela emergência climática e as doenças infeciosas em regiões como a Amazônia brasileira. De acordo com o cientista, a intensificação dos desmatamentos e queimadas, somada à alta circulação de pessoas na região, pode tornar o Brasil o epicentro de uma nova pandemia. “A gente não tem muito domínio sobre o que está acontecendo na Amazônia e [sobre] a quantidade de animais e microorganismos que existem na Amazônia. Alguns desses microrganismos podem fazer esse salto ecológico e alcançar as populações humanas.” 

O alerta, porém, estende-se a outras regiões do globo, como em parte da Sibéria. “A Sibéria é uma região muito delicada. Foi, durante alguns milhares de anos, um lugar com muita vida animal. Depois aquilo sofreu um processo de soterramento pelo gelo, que a gente chama de permafrost, que quer dizer permanentemente congelado. Não é à toa que, com o aquecimento global, estão se descobrindo fósseis interessantíssimos na Sibéria. Fósseis humanos e fósseis animais. Há pouco tempo se viu um mamute quase intacto na Sibéria. Imagina a quantidade de bactérias e de vírus que tem ali naquele animal que há milhares de anos não circula?” 


Foto: Raquel Portugal

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