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Palestina

Le Trio Joubran: o oud é uma arma

[Este episódio foi produzido para ser ouvido, não apenas lido. O que se segue abaixo é a transcrição e tradução integral de toda a peça áudio.]

Há quase um ano publicámos o primeiro episódio da série documental “Palestina, histórias de um país ocupado”. Quem a ouviu sabe que uma grande parte da banda sonora é composta por músicas da banda Le Trio Joubran. O grupo veio a Portugal a semana passada para dois concertos em Lisboa e Évora e falámos com eles.

Para perceberes melhor as referências e o contexto histórico desta conversa ouve primeiro os seis episódios da série “Palestina, histórias de um país ocupado”.

TRANSCRIÇÃO

Em 1948, mais de 800 mil palestinianas e palestinianos foram expulsas das suas casas. Durante a Nakba – ou catástrofe, em português -, mais de 500 vilas desapareceram do mapa, destruídas pelas forças militares do recém-criado Estado de Israel. Nazaré, uma das maiores cidades do norte da Palestina, foi das únicas a manter-se de pé. Resistiu à limpeza étnica e albergou milhares de famílias que fugiam da morte. A família Joubran foi umas delas.

Samir Joubran:
Acho que foi um caos, um desastre. Um desastre para todo o povo Palestiniano, para a nossa história.

Samir, Wissam e Adnan Joubran nasceram em Nazaré. Para Samir, o mais velho dos três, a palavra “ocupação” tem mais do que um sentido. Há a ocupação da Palestina, que existia há já mais de duas décadas, ainda ele não era nascido. E há uma outra, mais bonita, diz: foi ocupado pelo oud, um instrumento de cordas criado há milhares de anos.

O oud é um dos mais importantes instrumentos do mundo árabe e Hatem Joubran, pai dos irmãos, um dos seus mais reconhecidos luthiers, o nome dado aos artesãos que fabricam ou reparam instrumentos de corda com caixa-de-ressonância. Os irmãos Joubran são a quarta geração de luthiers e tocadores de oud desta família. Em 2004, formaram a banda Le Trio Joubran e, no final do ano passado, lançaram o seu sexto álbum, “The Long March”, que serve de homenagem a Mahmoud Darwish, talvez o maior poeta palestiniano do último século, falecido em 2008. O nome do álbum, tal como o título de todas as músicas que o compõe, são citações do seu poema “O Penúltimo discurso do ‘Índio Vermelho’ ao homem branco”.

Samir Joubran recebeu-nos no Salão Nobre do Teatro da Trindade, em Lisboa, depois dos testes de som de mais de três horas e cinco antes de um de dois concertos que deram na semana passada em Portugal. A conversa foi dura, difícil, mas nunca tão dura quanto a realidade de quem sofre uma ocupação que se perpetua no tempo e que parece não ter fim.

Seja toda a gente bem-vinda ao Dois Pontos: um programa Fumaça de histórias contadas com tempo. Eu sou o Ricardo Esteves Ribeiro.

Samir Joubran:
Para mim, a Palestina é a semente que a minha avó me ofereceu da sua terra, antes de 1948. Ela veio em 1948 para Nazaré e esta pequena semente é a esperança que eu vivo hoje. Se lhe juntares água e ar, pode crescer. Para mim, a Palestina não é uma bandeira ou uma geografia. É uma noçãodo que é ser humano, de que merecemos viver sem ocupação. Nós merecemos viver sem qualquer violência, nós merecemos viver num sítio onde possamos cheirar as árvores e cheirar as flores sem ter de cheirar o gás das bombas; sem ódio. Nós não podemos viver hoje em paz enquanto a ocupação estiver deitada na nossa cama.

Ricardo Esteves Ribeiro:
Nazaré é amplamente considerada como uma das poucas cidades ou vilas que não se renderam à ocupação, expropriação de terras e limpeza étnica durante a Nakba, em 1948. Podes explicar essa história

Samir Joubran:
Eu não tinha ainda nascido para poder explicar isso, mas a história conta que Nazaré era a maior cidade do Norte da Palestina. E muitas pessoas abandonaram as suas casas durante a Nakba, em 1948, vieram de pequenas vilas para a cidade Nazaré. Penso que por causa do medo de tudo o que acontecia nos arredores da cidade de Nazaré. As pessoas fugiram do medo e da matança desses sítios e vieram para a cidade de Nazaré.

Samir Joubran:
Algumas pessoas fugiram de Nazaré para o norte, até ao Líbano ou à Síria, e hoje são refugiados. Estes são os refugiados que estão no Líbano. A maior parte deles são do norte da Palestina e, quando fugiram, acharam que iriam voltar passadas uma ou duas semanas. Ainda hoje têm as chaves com eles.

A família de Mahmoud Darwish é uma das que mantém a chave da casa que foi forçada a abandonar, em 1948. Numa carta escrita 40 anos depois, Darwish descreve como o exílio parecia ser apenas temporário: “Deixámos tudo como estava: o cavalo, ovelhas, o boi, portas abertas, jantar quente, o chamamento para a reza da tarde e o rádio sozinho – talvez tenha ficado ligado até hoje para transmitir as notícias das nossas vitórias”.

Samir Joubran nasceu e cresceu na cidade de Nazaré que, hoje, integra o território a que a maioria dos países do ocidente chama Israel. Ao contrário das pessoas que vivem do outro lado do muro da separação que Israel construiu, Samir pode viajar para qualquer parte Palestina.

Ricardo Esteves Ribeiro:
Como é viver com um cartão de cidadão ou passaporte israelita?

Samir Joubran:
Hum… tantas perguntas difíceis. Bem, é esquizofrénico. Tens um passaporte, que és obrigado a ter porque nasceste ali, mas estás sempre a lutar para dizer que és palestiniano. E, para os israelitas, ser Palestiano é algo negro, algo que não existe.

Ricardo Esteves Ribeiro:
Do you have Israeli friends?

Samir Joubran:
O que queres dizer com “amigos israelitas”? Amigos israelitas judeus? Sim, claro. Eu cresci em Nazaré, estudei hebraico nas aulas e, claro, tinha amigos. O nosso problema não é com seres humanos. O nosso problema é com políticos, com a política da ocupação. O nosso problema é com os nossos direitos enquanto palestinianos a viver dentro de Israel, para que tenhamos os mesmos direitos que toda a gente que detém o passaporte [israelita]. Agora vamos ter eleições e vês o Netanyahu [primeiro-ministro de Israel], como nas últimas eleições, a dizer: “Tenham cuidado, há uma corrida ao voto por parte dos árabes”. Isto cria separação.

Samir Joubran:
Eu vivo em Ramallah porque a minha mulher também é de Ramallah. A minha mulher tem um passaporte palestiniano e eu, apesar de ser Palestiniano, tenho um passaporte israelita.

Ricardo Esteves Ribeiro:
Então ela não pode entrar em Nazaré.

Samir Joubran:
Não, claro que não! A minha mulher não pode ir a Nazaré, não pode ir a Jerusalém. Consegues imaginar? A minha mulher nasceu em Jerusalém; é esposa de alguém com um passaporte israelita – filho de Palestinianos de antes de 1948; é mãe de duas meninas que têm passaporte israelita, ainda que sejam palestinianas; tem passaporte americano… Tu podes visitar Jerusalém e ela não.

Samir Joubran:
Eu gostava que a minha música, ou a nossa música, não fosse política, mas não podemos dizer que não seja política. Enquanto a Palestina estiver ocupada, sim, a nossa identidade musical continuará sob ocupação. Mas também é verdade acreditarmos que queremos ser livres a fazer a nossa música, porque quando te estás a libertar, quando és livre de ti próprio, podes fazer parte de um projeto de uma terra livre.

Samir Joubran:
Um longo tempo tem de passar
Antes de o presente se tornar história
Tal como nós
Vamos encarar uma longa marcha
Mas primeiro
Defenderemos as árvores que vestimos
Defenderemos o sino da noite e a lua suspensa sobre as nossas cabanas
Defenderemos o veado que salta
E as penas da águia nas asas das nossas últimas canções

Roger Waters:
Mas, em breve, irás erguer o teu mundo sobre as nossas ruínas
Irás pavimentar os nossos locais sagrados
Para criar um caminho até à lua satélite
Esta é a era da indústria
A era do carvão
Fósseis para alimentar a tua sede por bom vinho
Há os mortos e os colonatos
Os mortos e os buldózeres
Os mortos e os hospitais
Há ecrãs de radares para captar os mortos
Que morrem mais do que uma vez nesta vida
Para captar os mortos que andam depois da morte
Os mortos que geram a besta da civilização
Os mortos que morrem para carregar a Terra
Depois de todas as relíquias terem desaparecido
Para onde, oh mestre branco, estás a levar o meu povo… e o teu?

Samir Joubran:
Porque o Roger [Waters] é uma das lendas… É a lenda da música no mundo, em primeiro lugar, como músico. Estamos a falar do fundador dos Pink Floyd. Este tipo está ao lado da causa Palestiniana há muito tempo. Ele luta por nós há muito tempo. Ele luta por justiça, não apenas para a Palestina, mas para outras causas no mundo, e nós, por acaso, soubemos que ele conhecia a nossa música. Então contactámo-lo, ele recebeu-nos em sua casa e depois dissemos-lhe “porque é que não fazemos este projeto juntos”? E isto foi uma resposta ao [Donald] Trump, depois de ele ter declarado Jerusalém a capital de Israel. Foi a nossa resposta e a de Roger Waters, com este grande poema escrito por Mahmoud Darwish.

Samir Joubran:
Bem, Mahmoud Darwish é o maior poeta do último século. No mundo, não apenas para os Palestinianos, não apenas no mundo Árabe. E nós fomos tão privilegiados por tê-lo conhecido durante 13 anos, por termos tocado com ele em tantos lugares, em todo o mundo. Para mim, Mahmoud Darwish é a identidade da Palestina, é o símbolo da nossa cultura, é o símbolo da identidade educacional pura, e daquele sonho que um dia se tornará real. É a metáfora de todos os políticos estúpidos e as suas decisões políticas. Mahmoud Darwish é o ritmo do mar em que podemos sempre nadar e sonhar com isso.

Ricardo Esteves Ribeiro:
O Roger Waters está também muito envolvido no movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), uma resistência contra a ocupação israelita. Ele pede também um boicote cultural a Israel e é por isso que ele se recusa a tocar lá. Apoias o BDS e o boicote cultural?

Samir Joubran:
Claro.

Ricardo Esteves Ribeiro:
E isso não significa que vocês não podem tocar em Nazaré?

Samir Joubran:
Não.

Ricardo Esteves Ribeiro:
Já tocaram em Nazaré?

Samir Joubran:
Claro.

Ricardo Esteves Ribeiro:
Como foi?

Samir Joubran:
Incrível. Tocámos em Nazaré, tocámos em Haifa, tocámos em todo o lado e temos uma audiência enorme em toda a parte. Este é o sítio onde eu nasci. Claro que ninguém no mundo e nenhum político nem nenhuma decisão me pode proibir de tocar no sítio onde eu nasci. Mas quando fazemos estes concertos produzimo-los nós próprios. Nunca aceitaremos qualquer convite. Nem de festivais israelitas, nem de promotores israelitas, nem… Não aceitamos qualquer patrocínio, nem parceria com o governo israelita ou o Ministério da Cultura. Produzimos tudo nós próprios, pagamos tudo nós próprios, e depois controlamos a sala e o espaço e toda a identidade.

No dia 16 de março, Roger Waters escreveu uma carta aberta ao artista Conan Osiris, que representará Portugal no Festival Eurovisão da Canção do próximo maio, pedindo que se recuse a atuar em território ocupado, boicotando o evento.

Ricardo Esteves Ribeiro:
A edição deste ano do Festival Eurovisão da Canção será em Tel Aviv. Os músicos devem boicotar a Eurovisão?

Samir Joubran:
Sim. Eu acho que Arte deve ser uma mensagem e uma mensagem muito poderosa. Boicotar alguma coisa artisticamente é a mensagem mais forte que se pode dar a políticos, porque os artistas são apaixonados pela  vida. Eles adorariam poder viver com outras pessoas, são muito sensíveis. Acho que através da arte podemos fazer passar uma mensagem muito importante. Nós não carregamos tanques, nós não carregamos bombas e não carregamos armas. Carregamos apenas a nossa cultura. Dizer não quando é tempo de dizer não. E isto é a coisa mais elementar que podemos fazer.

Ricardo Esteves Ribeiro:
Obrigado.

Samir Joubran:
Muito obrigado. Bem, isto foi duro.

Ricardo Esteves Ribeiro:
Muito obrigado.

A entrevista que fizemos a Samir Joubran e Wissam Joubran pode ser ouvida na totalidade no nosso podcast de extras. Vai à tua aplicação de podcasts e procura Extras, do Fumaça, para ouvires estas e outras entrevistas em bruto.

Nesta peça, foram utilizadas as músicas “The Trees We Wear”, “Supremacy”, “Carry the Earth” e “Time Must Go By”, do álbum “The Long March”, de Le Trio Joubran.

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