“Os pássaros de Masafer Yatta”, por Joana Batista

O despertar do passado 18 de maio foi na camarata do centro de operações do coletivo Youth of Sumud, em Twani, Masafer Yatta, Palestina. Acordou-me o cantar dos passáros. Consigo lembrar-me de alguns sons mais canoros, de outros que me estimularam a saltar da cama, como alarmes, sirenes. Ainda está por desvendar com certeza, mas é possível que os pássaros tenham a capacidade de transformar o ritmo e frequência do seu cante, adaptando-se às mudanças de ambiente. Foram obrigados a aumentar as frequências sonoras e repetições que usam para conseguirem comunicar em locais onde a poluição sonora aumentou. O ruído aumenta, eles adaptam-se e ficam. 

A manhã segue com horas e horas de histórias sobre como tudo corre nas aldeias de Masafer Yatta, especificamente depois do 7 de outubro. A presente carta serve como uma atualização à peça “O que é normal em Masafer Yatta”, que recomendo ouvires para poderes ter contexto sobre o que se passa nos montes a Sul de Hebron desde o início da nakba (há mais de 75 anos).

Fadel Rabaee e a sua família recebem-nos em Twani com café (sempre com café). Não tira os olhos do horizonte, do topo de um monte em frente à sua casa. Na tentativa de perceber o que lá havia, segui-lhe o olhar. Só fui capaz de reparar quando nos explicou que, mesmo ali à frente, os colonos tinham construído mais um posto de vigília.

Desde 7 de outubro, o que mais sente que mudou foi o movimento. Os colonatos, que crescem como cogumelos em torno das casas das pessoas palestinianas, fazem por esmagar as famílias que dizem não se conseguir mover para lá de 50 metros em torno de suas casas. É um confinamento de tortura — é sabido que, se se movimentarem para lá desta linha imaginária, inexistente e ilegal, são, cada vez mais, alvo de violência por parte de colonos israelitas. Levar as suas ovelhas a pastar as suas próprias terras pode significar uma tarde inteira de violência. Para Fadel Rabaee, “oferecer chá ou café a alguém aqui é sinónimo de amizade, unha com carne. Eu ofereci-lhes chá, eles puseram-me na prisão”. 

Muhammad Qasim, residente em Mufaqarah, sente que, nos últimos sete meses, “todos os dias são o mesmo dia”. Acorda, leva o gado a pastar, os colonos atacam, os colonos vão embora, volta para casa depois de vários confrontos; à noite os colonos voltam, volta a violência. Mal se dorme, para proteger o que resta e quem resta. Os colonos vêm armados e disfarçados de soldados, às vezes cinco para encher um carro, outras 15 ou 20. Alguns são menores, dizem, parecem ter 15 anos. Os ataques são diferentes de dia para dia, e acontecem todos os dias. Muhammad Qasim convida-nos a ficar mais um bocado porque “se ficarem mais um bocado, podem de certeza assistir a um”. Afugentam o gado, matam animais, invadem e queimam casas, rasgam tanques de água, ameaçam as pessoas com armas, espancam-nas. O máximo a fazer é chamar a polícia para reportar. A polícia é a polícia israelita — estamos na Área C. E o que a polícia diz, conta Muhammad, é que, “a bem da segurança”, a zona está sob comando dos soldados e, agora, dos “soldados”, os tais civis que se disfarçam de militares — estamos numa zona de treino militar “e estamos em guerra, as regras são diferentes. Têm que lidar com isso”.

Sami Huraini, de Twani, conta-nos que, há um mês, raptaram Naeem Hamamda, espancaram-no e deixaram-no despedaçado, com os ossos partidos e gás pimenta a queimar-lhe os olhos. Chamar uma ambulância ou levar alguém para o hospital depois de um ataque pode demorar mais de uma hora. A mudança na capacidade de movimento das pessoas é também sobre deslocações para serviços de cuidados de saúde ou para as escolas. Os quilómetros e o tempo quadruplicam. Os caminhos estão fechados, dá-se a volta, os checkpoints têm fila de espera, e assim se espera mais uns minutos, umas horas, uns dias, para sempre.

E é assim que Ali Awad passa o seu tempo. À espera para passar. Em Tuba, onde vive, apanha as crianças nas suas casas para as levar a Twani à escola. Ao fim da tarde, volta a levá-las de volta a Tuba. Esse mesmo era o caminho que antes se fazia pelos pés das próprias crianças com ritmo marcado pela escolta de um jeep militar do Estado de apartheid, com ativistas à espera de um lado e do outro do percurso. Nos últimos meses, não existe jeep e quase não há ativistas — pouco mais para além de Ali Awad: “Se eu morrer, as crianças deixam de ir à escola.”  E são poucas as que consegue levar na sua carrinha — as que frequentam o jardim de infância e o primeiro ciclo deixaram de poder ir. Se Ali Awad conseguisse usar a estrada por onde só colonos passam, em vez de fazer 15 quilómetros, faria apenas um. 

A comunidade de Khallet ad-Dabe’ é o epicentro de uma roda de torres de espionagem que servem tanto para controlar os movimentos como para interferir com o sinal de rede, diz quem lá vive. Às vezes, usam também carrinhas e caravanas como pontos de vigília. São tanto utilizadas por colonos militares como por civis. Surgem pela noite. Jaber Dababsi sente que hoje, depois de 7 de outubro, existe mais medo de resistir aos ataques, que as pessoas estão cada vez mais deprimidas. Há um sofá na colina onde estamos que podia servir para apreciar a vista para o deserto, é bonita. Em vez disso, serve para vigiar quem vigia e esperar o próximo ataque.

No final da tarde, o pôr do sol transforma a cor da erva seca. Ao lado do centro de operações dos Youth of Sumud vê-se uma bandeira com a estrela de David que desperta movimentos quando o vento lhe dá mais forte. Está espetada numa árvore que está sozinha. As árvores do ano passado, as que foram plantadas à volta, deviam fazer-lhe companhia, mas nada consegue crescer com pedras em cima ou facas que lhes tiram a vida durante a noite. Existe calma. Os pássaros continuam a chilrear.

Quando penso em sumud, em perseverança constante, penso em todas estas histórias, e penso nos pássaros que me acordaram. Em Rafah, na Faixa de Gaza, Palestina, os pássaros que cantam estão a acalmar as crianças, distraindo-as do ruído dos drones. Um bando não é suficiente para camuflar as explosões, mas chega para distrair e trazer conforto. O ambiente transforma-se, o ruído aumenta, eles adaptam-se e ficam.

“Para que eu possa escrever poesia que não seja política
tenho de ouvir os pássaros
e para que possa ouvir os pássaros
os aviões de guerra têm de estar em silêncio.”
― Marwan Makhoul

Até já,

Joana

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