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Tempo

André Barata: “A maior transformação que podemos produzir é começar a desacelerar”

24 Maio 2018
02:19

Como se entrevista um filósofo? Divaga-se sobre questões existenciais? Discute-se o sentido da vida? Percorrem-se os conceitos filosóficos?
Talvez isto tudo e o seu contrário, partindo de uma palavra que toda gente percebe, mas que temos dificuldade em definir: o tempo.

Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei…”. Santo Agostinho, “Confissões, Livro XI”.

André Barata é professor na Universidade da Beira Interior e fez toda a sua carreira académica na área da filosofia. Coordena também o doutoramento em Ciência Política e é com estas lentes que tem publicado textos em jornais como o Público ou o Jornal Económico. Muitos destes seus escritos unem-se agora sob benção de Chronos. O pensador desenvolve a tese de que “vivemos uma ditadura do tempo” e é esse o tema do seu próximo livro, quase no prelo: “E se parássemos de sobreviver? Pequeno livro para pensar e agir contra a ditadura do tempo”.

Barata nada em contra-corrente e questiona uma sociedade em piloto-automático: “Justifica-se estarmos neste estado de permanente e perpétua condição de sobrevivência? Não nos temos garantido condições de desenvolvimento social e tecnológico que nos permitam viver um pouco mais e sobreviver um pouco menos? Designadamente não andando tão acelerados, tão submersos no tempo e conseguindo, de algum modo, recuperar tempo. Para parar, vaguear, para passear, para pensar, para não ser produtivo.

A radicalidade expressa nesta nova publicação bebe doutros teóricos, mas submete-se sempre à ideia de que tudo se organiza pela velocidade do tiquetaque que dá ritmo à nossa existência. Essa “ditadura” tem, segundo o autor, efeitos sobre tudo:

O sistema económico
A aceleração do tempo social serve um propósito muito objectivo de industrialização do acontecimento, tornando-o estruturalmente rentável, comercializável, unidade de troca e, uma vez isso, já assimilado ao sistema produtivo, tornando-o uma necessidade produtiva, a que os mecanismos de pressão social através dos media e da cultura hão-de atender. Não como quem diz tempo é dinheiro, com um sentido de urgência, mas com um sentido extractivista de exploração de todo o capital de medida e troca de acontecimentos existente numa porção de tempo.”

O trabalho
O que vivemos hoje é realmente uma esquizofrenia. De um lado, a necessidade de trabalhar, compulsória; do outro, a inacessibilidade crescente a oportunidades de trabalho. O que seria razoável e justo era o trabalho ser mais livremente escolhido, por um lado, e mais acessível, por outro. Paradoxalmente, passa-se exatamente o oposto. Tornado tão inacessível e tão necessário ao mesmo tempo, as pessoas são pressionadas a aceitar qualquer trabalho e a não fazerem caso da diferença estimável entre trabalho desejável e trabalho indesejável, comprando uma competição absurda, e depressa perdida, com máquinas.

A propriedade
São, cada vez mais, bens cujo estatuto de realidade é mais resultado de uma delimitação jurídica do que de uma existência material. São bens com tempo de existência mas sem espaço, ou com informação mas sem corpo. Compramos experiências, uma estadia num airbnb por exemplo, compramos licenças de leitura de um livro ou de audição de uma música. Mas à conta de minuciosas interdições urdidas nas licenças de utilização, deixamos de poder dá-los, emprestá-los, ou largá-los num café para quem os quiser ler. Não somos proprietários dos livros que trazemos no Kindle como somos dos livros que guardamos na estante de casa.

Enquanto proprietários, deixamos de ter o direito — e a possibilidade — de mobilizar a nossa propriedade contra a lógica de mercado desenhada. Os quadros jurídicos não o autorizam, as plataformas não o permitem.

O Planeta
Não será altura de nos perguntarmos o que nos empurra colectivamente para uma crescimento imparável e, assumindo que o sistema capitalista não se sustenta de outra forma, de nos perguntarmos sobre mexer nele alguma coisa?
Não é só estarmos a levar ao limite a capacidade do planeta, sentados nele com um peso muito acima do que recomendaria o Ikea que o tivesse construído. É a necessidade permanente de crescimento ser em si mesma fortemente anti-ecológica.

As redes sociais
Há uma aceleração da relação social com o tempo que se verifica de duas maneiras — por um lado, as durações encurtam, desde logo com bens e artefactos consumíveis submetidos à obsolescência programada; por outro, as mudanças multiplicam-se, desde logo com uma intensificação de estímulos que, no limite, procura preencher todos os momentos da existência, dando uma nova actualidade à velha ideia aristotélica de que a natureza tem horror ao vazio. Só não será tanto a natureza, mas uma natureza humana fabricada, de pessoas condicionadas a abominar o vazio quando a todo o instante têm de dar notícia de si numa rede social.

Serão estas ideias anarquistas, comunistas, revolucionárias, marxistas, socialistas, libertárias, liberais? Haja tempo para as questionar e discutir. Foi o que fizemos.

Fotografia: Heather Zabriskie/Unsplash

Entrevista
  1. Pedro Miguel Santos
Preparação
  1. Pedro Miguel Santos
Som
  1. Bernardo Afonso
Texto
  1. Pedro Miguel Santos
Vídeo
  1. Bernardo Afonso
  2. Frederico Raposo
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