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Brasil

Eliana Sousa: “É grave que a família de Bolsonaro tenha uma relação tão próxima com o crime bárbaro da Marielle”

5 Março 2020
06:30

O assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido em 14 de março de 2018, está para completar dois anos. A elucidação do crime que tornou Marielle um símbolo internacional dos Direitos Humanos é, hoje, um fato político fundamental para o restabelecimento da ordem democrática brasileira.

Em março de 2019, o Ministério Público prendeu o Polícia Militar (PM) reformado Ronnie Lessa, apontado como o autor dos 14 disparos que mataram a vereadora e o motorista Anderson Gomes, e o ex-PM Élcio Queiroz, apontado como o motorista do veículo de Ronnie Lessa. Lessa vivia em uma casa próxima a do presidente Jair Bolsonaro, no condomínio Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade. O filho caçula (mais novo) de Bolsonaro, Jair Renan Bolsonaro, namorou a filha de Ronnie.

Em outubro, uma reportagem do Jornal Nacional mostrou que Queiroz esteve no condomínio Vivendas da Barra, horas antes do assassinato de Marielle. Lá, encontrou-se com Lessa, com quem saiu do condomínio. Segundo depoimento do porteiro, Queiroz foi autorizado pelo presidente – então deputado – a entrar no condomínio. Bolsonaro estava em Brasília na ocasião, dia em que havia pedido dispensa da Câmara dos Deputados por motivos de saúde, mas pode ter autorizado a entrada pelo telefone celular. Há suspeita de que o tenha feito. O porteiro depois negaria seu depoimento. 

No início de fevereiro de 2020, o ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, suspeito de envolvimento no assassinato de Marielle, foi morto no interior da Bahia, estado do Nordeste brasileiro. Nóbrega é suspeito de chefiar o Escritório do Crime, falange da milícia que comanda a favela de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, à qual, suspeita-se, pertencia Ronnie Lessa. Nóbrega estava foragido desde janeiro do ano passado, quando uma operação do MPE-RJ em parceria com a Polícia Civil prendeu membros da milícia e do Escritório do Crime.

O ex-capitão já tinha estado preso entre 2004 e 2006 e, segundo um depoimento, foi visitado pelo hoje senador da República Flávio Bolsonaro. Este o tinha homenageado, em 2003, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A homenagem foi feita a pedido do próprio Jair Bolsonaro, então deputado federal. A mãe e a ex-mulher de Nóbrega trabalharam no gabinete de Flávio na Assembleia do Rio de Janeiro e são suspeitas de terem participado da “rachadinha” do gabinete, ou seja, a transferência de parte dos salários para o então deputado estadual.

Enquanto a trajetória política da família Bolsonaro passa, a partir dos anos 2000, a conectar-se com a ascensão das milícias do Rio de Janeiro, a da vereadora Marielle Franco se dá por meio do combate às milícias. Em 2008, Marielle integrou a Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou as milícias no Rio de Janeiro. Era, então, assessora parlamentar de Marcelo Freixo (PSOL) – na época deputado estadual.

Quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro em 2016, com 46.502 mil votos, a jovem nascida na Maré em pouco tempo tornou-se uma das principais lideranças políticas da capital fluminense. Para membros do seu partido, o PSOL, seria uma das principais lideranças políticas do país. Com menos de 15 meses de mandato como vereadora, teve a trajetória interrompida. Morta, tornou-se símbolo mundial na luta pelos Direitos Humanos e da ameaça autoritária que paira sobre o Brasil.

Esta semana, falamos com a ativista Eliana Sousa, da Redes da Maré, ONG que funciona no Complexo de Favelas da Maré, onde nasceu e se criou Marielle Franco. Na entrevista, ela nos conta sobre a trajetória de Marielle, o significado político de sua morte na Maré e o contexto político e social do complexo de favelas que sintetiza o estado de crise do Brasil e do Rio de Janeiro.

Fotografia: Redes da Maré

Edição
  1. Pedro Miguel Santos
  2. Nuno Viegas
Entrevista
  1. Danilo Thomaz
Preparação
  1. Danilo Thomaz
Som
  1. Bernardo Afonso
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