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Refugiados

Miguel Duarte: “Esta investigação é absolutamente política. O objetivo não é prender-nos, é parar o resgate marítimo”

13 Dezembro 2018
08:41


A 2 de setembro de 2015, foi publicada a fotografia onde aparece Alan Kurdi. O miúdo curdo, nascido no norte da Síria, tinha três anos quando morreu afogado numa praia perto da turística cidade de Bodrum, na Turquia. A fotografia mostra-o deitado de barriga para baixo e braços estendidos, sem vida. As ondas do mar tocam-lhe na cabeça enquanto o resto do seu corpo está encharcado.

Milhões de pessoas viram a fotografia que chocou o mundo ocidental. Nessa altura, milhares de refugiados arriscavam, todos os dias, atravessar o Mar Mediterrâneo em barcos de borracha madeira ou de borracha má qualidade, numa viagem que pode durar dias. Para Alan Kurdi, a sua mãe, e o seu irmão, de 5 anos, não durou nem um.

Fugiam da morte na Síria onde, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), neste momento, existem mais de 6,6 milhões de refugiados internos. 5,6 milhões de pessoas tiveram de abandonar o país. No total, 13,5 milhões de pessoas sírias precisam de ajuda humanitária, das quais 6 milhões são crianças.

As imagens como a de Alan Kurdi e os vídeos de barcos sobrecarregados com refugiados desesperados deixaram de aparecer nos media e nas redes sociais, mas continuam a existir. Segundo a ONU, em 2015, no pico da catástrofe, mais de 1 milhão de pessoas lançou-se ao mar para chegar à Europa; em 2016, foram cerca de 360 mil; em 2017, 172 mil; em 2018, até agora, foram já 110 mil a chegar e mais de 2 mil aqueles que a organização estima terem-se perdido na viagem, para nunca mais voltar.

Miguel Duarte juntou-se à Jugend Rettet, uma rede de ativistas com o objetivo de resgatar pessoas refugiadas no Mar Mediterrâneo, no verão de 2016, para fazer parte da solução da “ grande crise da [sua] geração”. Em outubro desse ano, embarcou no Iuventa, o navio da organização, para a sua primeira missão: “ao fim de duas semanas, participámos no resgate de 423 pessoas”, conta. No total, a Jugend Rettet participou no resgate de mais de 14 mil pessoas.

Mas, a 2 de agosto de 2017, tudo mudou. O Ministério Público italiano arrestou o Iuventa e acusou a Jugend Rettet de ajuda à imigração ilegal, apreendendo o barco até hoje. Um ano mais tarde, em junho de 2018, 10 dos tripulantes, incluindo Miguel Duarte, foram acusados do mesmo. Hoje, estão a ser investigados por um crime que os pode levar a 15 anos de prisão.

A Jugend Rettet não foi a única organização não-governamental de assistência a refugiados que viu as suas operações travadas por ordem judicial: a Médicos Sem Fronteiras decidiu, no passado dia 6, abandonar as suas missões de busca e salvamento, depois do seu navio, Aquarius, que resgatou já mais de 30 mil pessoas, ter sido impedido de sair para o mar durante mais de dois meses, acusado de produção de lixo tóxico; a Sea-Watch, foi travada pelo governo maltês; entre outros casos.

Para Miguel Duarte, agora fundador da HuBB – Humans Before Borders, uma plataforma que luta pelos direitos de migrantes e pessoas refugiadas, trata-se de uma estratégia concertada por parte da europa: “esta investigação é absolutamente política. O objetivo não é prender-nos, é parar o resgate marítimo”.

A menos de seis meses das eleições Europeias, falamos também sobre como a União Europeia tem lidado com a crise de refugiados.

 

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Edição
  1. Bernardo Afonso
Entrevista
  1. Ricardo Esteves Ribeiro
Fotografia
  1. Bernardo Afonso
Preparação
  1. Ricardo Esteves Ribeiro
  2. Maria Almeida
Som
  1. Bernardo Afonso
Texto
  1. Ricardo Esteves Ribeiro
Vídeo
  1. Bernardo Afonso
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