I República

Maria Alice Samara: “Esperava-se da I República uma nova aurora, que não veio”

Nas vésperas do 5 de outubro de 1910, sentavam-se nas últimas cortes constitucionais monárquicas 14 deputados do Partido Republicano Português. Pouco mais de um mês depois da sua eleição, o regime caía pela força. Desde então, a I República portuguesa viveu “breve, patriótica, conturbada e instável” até 1926. Viveu sob 45 governos, seis presidentes, eleições parlamentares em média de dois em dois anos, sobreviveu a 25 revoltas e motins

Entre os governos que se contavam por dias, Francisco Fernandes Costa deteve o recordista: nomeado a 15 de agosto de 1920, demitiu-se no mesmo dia. Exemplo dessa instabilidade governativa foi também o Ministério da Instrução Pública, criado em 1913 e essencial para as reformas educativas prometidas pelos republicanos, teve 40 ministros, em média um a cada quatro meses, sem contar com os interinos.

A historiadora Maria Alice Samara não acredita que esta República sozinha possa arcar todas as culpas da sua instabilidade. “A República, em si, não tem nenhuma característica que a transforme num regime instável ou violento.” Tem, sim, vários inimigos – “quem não a apoia, quem a persegue, quem a tenta fazer cair” – entre a oposição monárquica, católica, e revoltosos armados dentro das próprias fileiras. A Noite Sangrenta, em que a “I República devora os seus filhos”, é disso exemplo.

A I República foi à I Guerra Mundial (1914-1918), viu a Revolução Soviética (a partir de 1917), passou pela gripe pneumónica (1918-1919) e chegou aos loucos anos 20. Defendeu o ensino laico  e a educação cívica, ao sabor de uma modernidade que se vinha a aprofundar nos últimos anos da monarquia. Há uma ética republicana de culto da pátria, da bandeira, e dos “heróis nacionais”, que se ergue nas ausências da religião. O corte com a Igreja Católica, especialmente vincado até 1918, há-de ajudar a fazer cair a república, diz Maria Alice Samara.

Neste regime – interrompido pela ditadura de Sidónio Pais (1917-1918), ameaçado pela intentona monárquica do Norte (1919) –, não estão ausentes as políticas sociais e laborais, mas estas “são claramente menos do que as expectativas”. “Esperava-se a nova aurora, que não veio. Os trabalhadores são bastante reprimidos pela I República”, sublinha a historiadora. Em 1919, ainda sobem Monsanto armados para a defender, mas há uma erosão das relações depois da Grande Guerra, para onde, especialmente nas frentes africanas, muitos soldados foram morrer de doença, fora de combate.

Perante a “relação difícil com os pedidos e exigências do movimento operário” organizado, os republicanos tentam, a certa altura, governar para as chamadas “forças vivas”, as classes altas e industriais. Mas quando a República quis governar para “os de cima”, eles também pensaram, conta: “Não precisamos dela, podemos fazê-lo nós.”

Episódios como estes são tratados na entrevista “A queda de uma República: como começou a ditadura?”, gravada a 22 de abril, ao vivo no Teatro São Luiz, em Lisboa. Foi a primeira de duas conversas Fumaça integradas na programação “Mais um Dia”, com a proposta de entender a ditadura além dos estritos dias em que esta existiu.

Maria Alice Samara nasceu em Lisboa, em abril de 1974. É doutorada em História Institucional e Política pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, professora e investigadora do Instituto de História Contemporânea. Escreveu, entre outros, os livros “Operárias e Burguesas: Mulheres no Tempo da República” e “Ministério do Trabalho 100 Anos (1916-2016)”. Tem-se dedicado em particular à investigação sobre a I República e a ditadura de Salazar e Caetano e, mais recentemente, às questões do espaço e memória. 

Acredita que a I República teve os seus “princípios interessantes” e não foi apenas a “balbúrdia sanguinolenta” que a ditadura propagandeou. “Se foi um regime perfeito? Não. Democratizou? Não. Foi bom para os trabalhadores? Não totalmente. Nem para as mulheres.” Mas, mesmo assim, “apesar do que pudesse fazer um governo central, muita gente achou que podia falar de política e tinha direito a ter uma voz”.

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