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Jornalismo independente
progressista e dissidente

29 Novembro, 2018

Edição
Pedro Miguel Santos

Entrevista
Ricardo Esteves Ribeiro

Fotografia
Bernardo Afonso
Frederico Raposo

Preparação
Ricardo Esteves Ribeiro
Pedro Miguel Santos

Som
Bernardo Afonso

Texto
Ricardo Esteves Ribeiro

Vídeo
Bernardo Afonso
Frederico Raposo

entrevista > é apenas fumaça

Exame de Acesso à Especialidade Médica

João Costa Pedro: “Há muita gente em ansiolíticos. Cafeína é o mínimo que se faz.”

No dia 15 de novembro, milhares de médicos recém licenciados fizeram a Prova Nacional de Avaliação e Seriação (PNAS), depois de seis anos de curso de medicina (para quem o completou sem atrasos). As notas que resultam do exame – a que a classe médica e os seus alunos chamam de Harrison, por ser baseado no livro “Harrison’s Principles of Internal Medicine”, originalmente editado por Tinsley Harrison, cardiologista americano -, servem de seriação para milhares de concorrentes às especialidades médicas, o passo seguinte na carreira. As notas de todos os exames a nível nacional criam uma lista dos candidatos e, a partir dela, quem teve melhor classificação, escolhe primeiro em que especialidade se irá formar e em que estabelecimento do Serviço Nacional de Saúde (SNS) trabalhará durante os anos seguintes. Depois de centenas de aulas, dezenas de testes, trabalhos científicos e um estágio num hospital ou centro de saúde, é a resposta a uma avaliação com 100 perguntas de escolha múltipla que define os seus destinos.

Contudo, as vagas são limitadas. Em 2015, pela primeira vez nas últimas duas décadas, houve menos vagas para a especialidade do que candidatos: cerca de 100 pessoas ficaram de fora. A partir daí, foi sempre a subir. Em 2016, foram 317. Em 2017, foram  640. Este ano, foram publicadas pela Administração Central do Sistema de Saúde 1665 vagas para 2341 candidatos: 676 pessoas que ficaram de fora.

É por isso que a nota do Harrison é tão importante. Menos um ponto na nota final, pode significar ter de escolher um hospital longe de casa ou, nos casos mais extremos, ter de repetir o exame no ano seguinte. Para João Costa Pedro, médico interno num hospital do SNS, em Lisboa, ter de submeter-se novamente à prova seria um pesadelo: “São doze horas [a estudar] por dia, durante meses. É acordar e é aquilo a tua vida. Não há mais nada”. O Harrison, diz, é um exame de memória: “de raciocínio clínico, existe muito pouco”. O que importa é decorar as cerca de 1000 páginas do livro – a única referência bibliográfica sugerida para o exame. Para isso, os sacrifícios são enormes e há vários relatos de médicos que tomam antidepressivos durante a preparação: “Há muita gente em ansiolíticos. Cafeína é o mínimo que se faz, infelizmente”, conta-nos.

Este foi o último ano em que alunos tiveram de realizar o esgotante teste. A partir de novembro de 2019, a prova terá um modelo diferente. Serão 150 perguntas, em vez de 100 (ainda assim, de escolha múltipla); terá mais tempo, 240 minutos (dividido em duas partes); e deixará de ter como referência bibliográfica apenas o “Harrison’s Principles of Internal Medicine”, com a inclusão de cinco outros livros. Para João Costa Pedro, o problema não fica resolvido: apesar de estar prometido que o exame passará a ser de raciocínio clínico, e não tanto de memória, em vez de 1000 páginas para estudar, serão 5000.

Na entrevista que lançamos hoje, conversamos sobre como é estudar para o exame mais temido da formação em Medicina e sobre o que muda com o novo exame. Falamos também do internato médico, do que acontece a quem fica de fora da especialidade e de como vê o Serviço Nacional de Saúde um médico que aí chegou há menos de um ano.

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