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Jornalismo independente
progressista e dissidente

6 Novembro, 2018

Entrevista
Ricardo Esteves Ribeiro

Preparação
Ricardo Esteves Ribeiro

Som
Bernardo Afonso
Ricardo Esteves Ribeiro

Texto
Ricardo Esteves Ribeiro

entrevista > é apenas fumaça

Eleições Brasil 2018

Jairo Nicolau: “Pela primeira vez, um candidato foi eleito presidente sem ter ganho entre os mais pobres”

Foi a 7 de março de 2018 que Jair Messias Bolsonaro, deputado federal do Rio de Janeiro, na Câmara dos Deputados desde 1991 – há quase três décadas – se juntou ao Partido Social Liberal (PSL), exatamente um mês antes do fim do prazo. A regra diz que candidatos às eleições gerais brasileiras têm de estar filiados no partido pelo qual pretendem concorrer, pelo menos, durante os seis meses que antecedem a eleição. O agora eleito 38.º presidente da República Federativa do Brasil, Bolsonaro, estava na altura nos primeiros lugares das pesquisas eleitorais. Mas a liderança das intenções de voto pertencia  a Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente eleito duas vezes (2003-2011), pelo Partido dos Trabalhadores (PT), que seria preso a 7 de abril de 2018, exatamente um mês depois da adesão de Bolsonaro ao PSL.

Podia ter sido a qualquer outro partido, diz Jairo Nicolau, cientista político brasileiro, professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que nos fala desde o Rio: “O partido é o que menos importa aqui, neste caso. Ele podia-se ter filiado a qualquer legenda [partido político ou coligação]. Qualquer uma”. Bolsonaro fez já parte de oito partidos diferentes durante a sua vida política. Neste caso, a escolha caiu num dos mais pequenos na Câmara. Na eleição anterior, em 2014, o PSL tinha elegido apenas um deputado, o que fazia da sua legenda, como se diz no Brasil, uma das três mais reduzidas do Congresso: apenas comparável às do Avante (ex-Partido Trabalhista do Brasil-PTdoB) e do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB).

A filiação de Bolsonaro, que apareceu em todos os média, trouxe consigo a vinculação de centenas de novos membros, alguns deles pré-candidatos aos mais variados cargos políticos: deputado federal, senador, governador, entre outros. Pouco mais de 24 horas depois, anunciavam-se mais 500 novas inscrições. O Bolsonarismo avançava como uma avalanche. Durante o primeiro semestre de 2018, o PSL contou mais de 13 mil adesões, quatro vezes mais novas filiações do que teve o PT, de Lula (e de Dilma, também ela ex-presidenta e, mais tarde, de Fernando Haddad) e a Rede Sustentabilidade, de Marina Silva (à data, em terceiro lugar nas pesquisas eleitorais), no mesmo período.

Ainda assim, nada previa o resultado do Partido Social Liberal durante as eleições deste outubro. O partido de Bolsonaro foi o partido mais votado do país nas eleições para a Câmara dos Deputados (mais de 11% de todos os votos para deputados federais foram para candidatos do PSL) e ficou com a segunda maior bancada, elegendo 52 deputados dos 513. Só ficou atrás da bancada do PT, com 56.

Nem o próprio Bolsonaro “tinha a mínima ideia de que elegeria a bancada que elegeu”, diz Jairo Nicolau, doutorado em ciência política no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e investigador no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. “Foi uma avalanche que ninguém imaginava”. E tudo isto foi criado em apenas sete meses: “Não é um movimento estruturado, de anos, que agora chegou ao poder. É uma coisa muito artesanal, montada às pressas, na correria. E teve esse sucesso todo. Impressionante”.

Nesta entrevista, analisamos as eleições gerais de 2018 e o futuro político do Brasil. Agora que está tudo dominado pela direita brasileira – a Câmara dos Deputados, o Senado, os governos estaduais e a presidência da república -, como governará o executivo de Jair Bolsonaro?

 

Fotografia: Alex Petrenko [CC BY-SA 3.0 ], Wikimedia Commons

 

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