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Especial 25 de Abril – Zillah Branco, a mulher que viveu todas as Revoluções

24 Abril 2018
15:56

“Na minha vida só tive derrotas”. Com um leve sorriso na cara, do alto dos seus 81 anos, Zillah Branco atirou a lapidar frase. Conversámos pela primeira vez há duas semanas e percebemos logo a singularidade da pessoa e do seu percurso de vida.

Foi o alfarrabista que tem vendido os muitos livros da biblioteca do É Apenas Fumaça que nos falou dela. Que tínhamos de a ouvir. Que a história de vida era incrível. Que tinha vivido por dentro três golpes militares, em três países diferentes. Marcámos um encontro.

Zillah abriu-nos a porta de casa, em Massamá, Sintra, por duas vezes. Primeiro para conversarmos sobre as histórias da sua vida e depois para podermos gravar esses relatos. Da ditadura militar no Brasil ao Chile socialista de Allende, do nosso 25 de Abril à eleição do brasileiro Lula, a vida de Zillah é uma vida em Revolução.

Nasceu no Brasil, em 1936, um ano antes da instauração da ditadura de Getúlio Vargas, também chamada de Estado Novo, entre 1937-1945. Com o fim da chamada “Era Vargas”, aos 11 anos, envolve-se pela primeira vez na política. Entra para o Partido Comunista Brasileiro pela mão de um tio candidato a deputado e envolve-se na campanha. Desde então, milita com a foice e o martelo ao peito.

A coleção de derrotas a que Zillah Branco alude neste episódio “Especial 25 de Abril” é longa e cheia de percalços. Não é para menos. Em oito décadas, viveu por dentro acontecimentos que apenas conhecemos dos livros. A História, escreve-a quem a ganha, e os ideais que inspiram Zillah nunca fizeram parte das narrativas vencedoras.

Testemunha o golpe de 1964, no Brasil, que instaurou a ditadura militar. Ajudou muitas pessoas perseguidas pelo regime a fugirem do país, até ao dia em que ela própria teve de fazer as malas. Refugia-se com os três filhos no Chile e, seis meses depois, vê Salvador Allende ser eleito presidente.

Na sua nova “pátria”, trabalha na reforma agrária e junta-se à luta dos trabalhadores. No entanto, numa espécie de déjà-vu, vê tudo a ruir novamente. Vive a poucos quilómetros de distância, em Santiago do Chile, o golpe militar liderado por Augusto Pinochet, a 11 de Setembro de 1973.

De sua casa, Zillah ouve os bombardeamentos no Palácio de La Moneda – sede da Presidência da República do Chile – e pouco tempo depois descobre que Salvador Allende estava morto. A versão oficial confirma o suicídio.

O golpe foi cozinhado e apoiado pelos Estados Unidos da América e, nos últimos anos, o investigador americano Peter Kornbluh, tem revelado muitos desses detalhes, após a desclassificação de milhares de documentos da época.

Volta a fugir. Com alguma sorte, consegue escapar à ditadura do facínora Pinochet e regressa ao Brasil da ditadura militar. Não por muito tempo.

O filho fala-lhe da Revolução de Abril e decidem atravessar o atlântico, até Portugal. Chegam em pleno Processo Revolucionário em Curso (PREC), a tempo de viver um dos períodos mais efervescentes e excitantes da história recente do país. Trabalhou no processo de Reforma Agrária, nos governos de Vasco Gonçalves, e fez-se militante do Partido Comunista Português.

Décadas depois, regressa ao Brasil, para ver Luís Inácio Lula da Silva ser eleito presidente. Hoje, já em Portugal, olha para o país que a viu nascer com preocupação, apontando o dedo ao sistema judicial, à pressão internacional e a Jair Bolsonaro, candidato presidencial às eleições de outubro próximo, que foi militar durante a ditadura, e que é assumidamente defensor da tortura, nacionalista, xenófobo, e racista.

Viverá Zillah mais uma derrota?

Fotografia: Estúdio Horácio Novais/Biblioteca de Arte Fundação Calouste Gulbenkian

Entrevista
  1. Maria Almeida
  2. Ricardo Esteves Ribeiro
Preparação
  1. Maria Almeida
  2. Ricardo Esteves Ribeiro
  3. Tomás Pereira
Som
  1. Bernardo Afonso
Texto
  1. Maria Almeida
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