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progressista e dissidente

11 Setembro, 2018



entrevista > é apenas fumaça

Eleições e violência no Brasil

Cecília Olliveira: “O futuro não está tão bom. O Bolsonaro de hoje são muitos”

Cecília Olliveira, jornalista, editora contribuinte no The Intercept Brasil.
Cecília Olliveira, jornalista, editora contribuinte no The Intercept Brasil.

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

Os Legião Urbana, banda punk-rock brasileira dos anos 80 e 90 do século XX, lançaram em 1987 um dos seus maiores sucessos: Que país é este? É diretamente do centro do poder, em Brasília, onde a banda foi fundada, que estarão ao mesmo tempo a resposta e a grande causa do desnorte que grassa na República Federativa do Brasil: corrupção endémica que envolve a classe política de forma generalizada – do Mensalão à Lava Jato.

As eleições de 2018, onde se escolhem novos presidente e vice-presidente da República e membros do Congresso – 513 deputados federais e 54 senadores, além dos vinte e sete governadores dos Estados e do Distrito Federal -, talvez possam mudar algo. Mas a verdade é que muitos dos candidatos são acusados ou estão a ser investigados e, até se medirem forças, “as pautas estão travadas”, como nos explica Cecília Olliveira, editora contribuinte no The Intercept Brasil: “a briga entre correntes políticas nunca esteve tão latente. O país está imobilizado, desde 2016”. Para a jornalista, “os congressistas estão ocupados em fazer lobby para poder garantir a vitória da sua corrente políticas nas eleições deste ano”. Não é apenas por ideologia ou projeto político que muitos se submetem a votos. Ir a votos é uma forma de perpetuar o poder de famílias inteiras, autênticas dinastias, que se servem da República, e não olham a meios para manter os privilégios.

No Amazonas, no Araguaia iá, iá
Na Baixada Fluminense
Mato Grosso, Minas Gerais
E no Nordeste tudo em paz
Na morte eu descanso
Mas o sangue anda solto
Manchando os papéis, documentos fiéis
Ao descanso do patrão

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

Não é expetável que a 7 de outubro, data da primeira volta, o país deixe de estar em suspenso. Afinal, há 12 pessoas no boletim de voto para a Presidência – 10 homens, duas mulheres – e um “fantasma”, Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente está preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, capital do estado do Paraná, condenado a 12 anos e um mês de prisão por corrupção e branqueamento de capitais e foi impedido, por maioria (seis votos contra um), de se apresentar a eleições pelo Tribunal Superior Eleitoral do Brasil, no início do mês. Lula nega as acusações e aguarda a decisão dos recursos que tem apresentado, clamando inocência. Por isso mesmo, por haver lugar a recurso, a 17 de agosto, a Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU) saiu em defesa do ex-presidente e pediu que fossem tomadas “as medidas necessárias para garantir que Luiz Inácio Lula da Silva possa exercer seus direitos políticos enquanto estiver na prisão, como candidato às eleições presidenciais de 2018”. Dia 10, segunda-feira, o órgão da ONU voltou a insistir.

O que vai acontecer? Quem tomará o lugar de Lula da Silva que o Partido dos Trabalhadores (PT) continua a usar como trunfo eleitoral? Terça-feira, 11 de setembro, marca a data limite imposta pelo Tribunal Superior Eleitoral para que o PT substitua Lula como candidato presidencial. Mas há ainda um recurso no Supremo Tribunal Federal que pode eventualmente adiar a decisão. Porque não confirma o partido o nome de Fernando Haddad, número dois, candidato a vice?

Conhecedora da realidade brasileira, Cecília só sabe que não há certezas: “Essas eleições no Brasil estão nebulosas a um nível que a gente não via… É um nível de incerteza que fica difícil de opinar, porque tanto as movimentações políticas são muito surpreendentes, quanto a questão judiciária envolvida é também surpreendente. Você espera uma situação e acontece outra. A gente não está conseguindo trabalhar com nenhum nível de previsão”. Uma hora depois da entrevista ter sido gravada, no passado dia 4 de setembro, uma nova “bomba” rebentava nas mãos do PT – Fernando Haddad era acusado pelo Ministério Público de São Paulo, pelos crimes de corrupção, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Se Lula não (?) pode estar oficialmente na corrida, também não sai de jogo. Nas sondagens em que ainda aparece o seu nome, ganha sempre. Naquelas em que isso não acontece, é Jair Messias Bolsonaro, ex-militar, que figura como número um. Conhecido como “o Trump brasileiro”, o capitão reformado está no Congresso desde 1991. Foi militar durante a ditadura, que ainda hoje defende – e recusa que tenha sido uma ditadura. É homofóbico, defensor da tortura, nacionalista e xenófobo, racista. E, neste momento, é também uma vítima. Em mais uma reviravolta dramática na campanha eleitoral, o candidato do Partido Social Liberal (PSL) foi vítima de um gravíssimo atentado, tendo sido esfaqueado na barriga enquanto fazia campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais, na última quinta-feira (6 de setembro). Foi rapidamente socorrido, mas o seu estado de saúde continua a ser considerado grave.

O atacante foi identificado e detido imediatamente. Chama-se Adélio Bispo de Oliveira e diz ter agido “a mando de deus”. Deus é também o grande inspirador da lista de Bolsonaro “Brasil acima de Tudo, Deus acima de Todos”.

Terceiro mundo, se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão

Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

O Brasil comemorou, a 7 de setembro, 196 anos como país independente. Uma comemoração festejada com o amargo de boca do grande incêndio que cinco dias antes destruiu o Palácio de São Cristóvão, sede do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Fundado por Dom João VI, festeja este ano dois séculos: é o mais antigo do país, a mais antiga instituição científica brasileira e o maior museu de história natural da América Latina – tinha um acervo de 20 milhões de peças, muitas delas perdidas para sempre. Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista brasileira, resumiu a tragédia num título: “O Brasil queimou – e não tinha água para apagar o fogo”.

A corrupção e as medidas de austeridade queimam a sociedade brasileira, mas nada faz tanto dano como a violência. E ela está umbilicalmente ligada a um modo velho de fazer política. As milícias, o tráfico de droga e o papel das forças de segurança trazem tudo menos paz. Em 2018, uma em cada cinco mortes violentas no estado do Rio – que está militarmente ocupado desde 16 de fevereiro – aconteceu pelas mãos da polícia. Marielle Franco, vereadora na cidade, foi morta no dia 14 de Março, com 38 anos, enquanto seguia de carro depois de vir de uma conferência chamada “Jovens Negras Movendo as Estruturas”. Pelo menos nove tiros foram disparados, quatro atingiram-na no crânio. O seu motorista, Anderson Pedro Gomes, foi morto também. Marielle era favelada – do Complexo da Maré – negra, mulher, lésbica, feminista. Há vários políticos implicados ou sob suspeita, a investigação prolonga-se mais do que seria de esperar e ainda não há resposta à pergunta “Quem matou Marielle?

Cecília Olliveira, que é também fundadora do Fogo Cruzado, um laboratório de dados digital e colaborativo cujo objetivo é registar a ocorrência de tiroteios e violência armada no Rio e no Recife, diz que Marielle “era como se fosse uma infiltrada na forma convencional de fazer política (…) vinha lutando pela garantia de direitos, pela consolidação do estado democrático há muitos anos”. Nas eleições deste ano, ainda sob a tragédia e a dor que foi a execução da vereadora do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), estão a multiplicar-se as “Marielles”, diz: “É um alento saber que, apesar de Marielle não estar mais entre nós, as suas ideias fizeram eco. Tem mais pessoas se candidatando com o perfil de Marielle, carregando as bandeiras que Marielle carregava”.

Que país é esse?

 

 

NOTA: Na entrevista, aos 00h15m, acerca da subida da Taxa de Mortalidade Infantil, é feita uma simplificação incorreta deste conceito estatístico. A fórmula para definir a taxa obtém-se dividindo o número de crianças que morre antes de completar um ano de idade por cada 1000 crianças nascidas com vida, nesse ano. As nossas desculpas a quem nos ouve, pela imprecisão.

 

Texto e entrevista: Pedro Miguel Santos
Preparação: Pedro Miguel Santos e Ricardo Esteves Ribeiro
Som: Bernardo Afonso

 

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