VIH/SIDA

Ricardo Sobhie Diaz: “A minha geração vai ver o desaparecimento da epidemia de VIH”

Em 1982, o estudante de medicina Ricardo Sobhie Diaz examinou as lâminas do corpo de um fotógrafo brasileiro que vivia entre São Paulo e Nova York que viria a ser a primeira vítima brasileira do HIV/AIDS (VIH/SIDA, na sigla em Portugal). Este seria apenas o início de uma trajetória pessoal e profissional que, ao longo de 40 anos, se confunde com a busca científica por tratamentos mais eficazes e a luta pelo direito ao acesso universal a esses medicamentos. 

“Os médicos naquela época [1980] eram espectadores de uma catástrofe”, afirma o médico infectologista, professor e investigador da Escola Paulista de Medicina (EPM), ligada à Universidade Federal de São Paulo. “A gente tinha a epidemia do adoecimento. A gente conseguia prolongar a vida das pessoas por um período muito curto de tempo. Se o paciente precisasse ser colocado num ventilador, a chance de sair era zero. Os médicos simplesmente desistiam. Davam sedativos. Não existia mais volta. Não é mais assim. A medicina avançou.”

Tanto avançou que Diaz conduz hoje um estudo brasileiro que está para completar dez anos e já tem um resultado inédito: o único paciente no mundo a ter o vírus HIV eliminado de seu corpo por meio da combinação de medicamentos. “Esse estudo deu muito certo. Na hora em que a gente combina as estratégias, o número de células [infetadas] diminui bastante. A gente está no caminho certo”, afirma. A investigação está agora numa segunda fase.

No entanto, segundo o infectologista, alguns problemas persistem. Ele vê o aumento ao acesso aos medicamentos preventivos – como a PEP (Profilaxia Pós-Exposição, na sigla, em inglês) e a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição, na sigla, em inglês) – como um desafio para a diminuição de novos casos, sobretudo junto às populações marginalizadas, como a população transgênero, profissionais do sexo e homens que fazem sexo com homens de menores faixas de renda. “Isso foi a única coisa que mudou a incidência da epidemia.  Especialmente a PrEP. Mas a gente precisa melhorar o acesso e a percepção de risco das pessoas.”

Outro problema que persiste é em relação ao estigma e ao preconceito, que vem desde o início da pandemia de HIV/AIDS. “Ela [a AIDS, na década de 1980] vinha com o estigma do sexo, da droga, da morte. Era plenamente estigmatizada”, afirma. “A gente não se livrou do estigma, nem do preconceito. A própria pessoa que é portadora do vírus tem um preconceito, um auto-estigma pelo preconceito. Ele se revela no momento em que a pessoa se recusa ou fica muito relutante a tomar o medicamento. Na hora em que você discrimina o medicamento, você está discriminando o diagnóstico.”

Isso pode ser visto, segundo o médico, diante da alta demanda de pacientes em busca da cura do HIV/AIDS. “No momento em que esse estudo teve um resultado favorável, sem a gente solicitar, a gente recebeu 600 pedidos de pessoas para participar do estudo. O que leva uma pessoa hoje em dia a querer se livrar do HIV, já que ela toma o medicamento e o medicamento é muito amistoso, comparado ao que era antes? Pode ser pelo fato da pessoa discriminar a presença do vírus no corpo dela. Viver com HIV não é fácil. Mas hoje você consegue viver mais do que quem não tem o HIV.”

Em 2020, entre 480 mil e 1 milhão de pessoas morreram de doenças relacionadas com a  AIDS e entre 30,2 milhões e 45 milhões viviam com HIV, segundo dados da UNAIDS, o programa das Nações Unidas de combate à AIDS. É uma epidemia que continua a infetar e a matar mas cujos progressos na prevenção e tratamento permitiram reduzir tanto o número de novas infeções (desde o auge, em 1998, diminuíram 47%), quanto de mortes (desde o auge, em 2004, reduziram-se em mais de 61%). A ciência avança na investigação e trabalhos como o de Ricardo Sobhie Diaz provam uma coisa: há esperança.


Foto gentilmente cedida por Ricardo Sobhie Diaz.

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