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Brasil

Bolsonaro: um mito em crise permanente (1/2)

4 Abril 2019
07:36

[Este episódio foi produzido para ser ouvido, não apenas lido. O que se segue abaixo é a transcrição integral de toda a peça áudio.]

I – BOLSONARO LÁ

Desde a fundação da Primeira República do Brasil, em 15 de novembro de 1889, 16 militares comandaram o país, seja no exercício da presidência da República ou por meio de duas juntas* governamentais provisórias que contaram com três militares cada, em 1930 e 1969. Sete militares que ocuparam a presidência de maneira direta ascenderam ao poder por golpes ou eleições indiretas. Três foram eleitos pelo voto popular: o marechal Hermes da Fonseca, que governou entre 1910 e 1914; o general Eurico Gaspar Dutra, que chefiou de janeiro 1946 a janeiro 1951 e o capitão da reserva e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, Jair Messias Bolsonaro, o 38º presidente da República Federativa do Brasil, eleito no último dia 28 de outubro com 57,7 milhões de votos, a segunda maior votação da história do país.

Com uma agenda que agrega o nacionalismo e o liberalismo econômico, a facilitação da posse de armas e o endurecimento no combate à criminalidade, a valorização de um idealizado tipo de família e a perseguição à chamada “ideologia de gênero”, o que poderia se esperar da posse do primeiro militar eleito desde o final da ditadura civil-militar, em 1985?

Se o caro ou a cara ouvinte não acompanhou  o evento em Brasília deve imaginar que a capital brasileira,nos dias 31 de dezembro de 2018 e 1º de janeiro de 2019, era uma cidade austera, no passo duro dos militares. Ledo engano.

Ao desembarcar em Brasília, na noite chuvosa de 31 de dezembro, chamei um táxi e encaminhei-me ao hotel em que me hospedaria na Asa Norte, próximo à Esplanada dos Ministérios, avenida onde se localizam os edifícios-sede de cada ministério do Governo Federal. Eram pouco mais de 21 horas. Assim que as portas do saguão se abriram, deparei-me com uma imagem que sabia histórica: por todo hotel, via, no lugar da roupa branca, tradicional nas festas de Ano Novo do Brasil, homens com camisetas com o retrato de Bolsonaro reproduzido em decalque, mulheres de macacão verde, ou combinando o verde e amarelo. O presidente eleito, que em poucas horas tomaria posse, havia mudado até mesmo a paleta do figurino da virada do ano. E imposto uma regra: o vermelho estava vetado. Não é difícil imaginar o motivo.

No dia seguinte, 1º do novo ano, os militantes que haviam viajado a Brasília para assistir à posse – muitos deles de ônibus, em caravanas organizadas para a ocasião – seguiam o figurino da noite de Réveillon. Alguns carregavam bandeiras do Brasil ou vestiam camisetas confeccionadas para a ocasião da posse. O comércio ambulante – traço característico da desigualdade brasileira nos grandes centros urbanos – era todo verde, amarelo e Bolsonaro. De camisetas com fotos e frases a bonequinhos de plástico, tudo dizia respeito ao “mito”, como é chamado Bolsonaro por seus seguidores. Dois bonecos infláveis gigantes, que imitavam Bolsonaro, cortavam o horizonte da capital federal.

Durante todo o evento de posse, os gritos de guerra alternavam-se. Era comum os cidadãos gritarem “Mito!” e “O Lula tá preso, babaca”, em referência a uma declaração dada pelo senador eleito Cid Gomes, eleito pelo PDT do Ceará. A frase tornou-se famosa porque Cid Gomes é irmão do ex-candidato presidencial Ciro Gomes, que ficou em 3.º lugar na primeira-volta das eleições, e foi dirigida a um militante petista do alto de um palanque, num comício de apoio ao candidato do PT, Fernando Haddad, que perderia para Bolsonaro, na segunda volta.

Foi o carnaval da direita e da extrema-direita brasileira. Até mesmo o Hino Nacional – sempre cantado com pompa militar – foi carnavalizado.

Mas como é possível, deve-se perguntar quem está desse lado, que a posse de um militar da reserva que tem em sua agenda a restauração da ordem – ou aquilo que ele entende como ordem – tenha sido algo tão semelhante a um dia de carnaval de rua no Brasil? Seria uma peculiaridade brasileira ou efeito da relação que Bolsonaro foi capaz de estabelecer junto aqueles que vieram a tornar-se seus eleitores? O que fez um capitão da reserva e deputado federal pouco expressivo na maior parte dos seus sete mandatos tornar-se uma figura pop? De que forma o estilo Bolsonaro, calcado no confronto moral e na divisão maniqueísta entre os ditos cidadãos de bem e os chamados comunistas, deve influenciar no futuro de seu governo e na manutenção de sua base de militantes? De que maneira o embate moral – ou guerra cultural – de Bolsonaro se encontra com a sua inexperiência e limitações para os assuntos de Estado? Como um fenômeno pop irá reagir à crise política, econômica e – por que não? – democrática do Brasil?

São estas as perguntas que norteiam a peça “Bolsonaro: um mito em crise permanente”.

Seja toda a gente bem vinda ao Dois Pontos: um programa Fumaça de histórias contadas com tempo.

Eu sou Danilo Thomaz e falo-vos do Rio de Janeiro, no Brasil.  

II – A ASCENSÃO E QUEDA DO BRASIL

A posse de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil marca a primeira mudança de grupo político no comando do país desde o 1º de janeiro de 2003, ano em que o operário e sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, tomou posse em seu primeiro mandato.

Lula da Silva
Mudança, essa é a palavra-chave. Esta foi a grande mensagem da sociedade brasileira nas eleições de outubro. A esperança finalmente venceu o medo e a sociedade decidiu que estava na hora de trilhar novos caminhos.

Em 2003, o Brasil completaria 15 anos da Constituição de 1988, que encerra formalmente o período da ditadura civil-militar, de 1964 a 1985. A eleição de Lula marcava também a primeira alternância de poder no período da redemocratização. O momento da troca da faixa presidencial, em 2003, carregava outro simbolismo, tão ou mais importante que a própria sucessão de poder: em 1º de janeiro daquele ano um opositor da ditadura civil-militar, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB, entregava o poder a outro opositor do regime ditatorial. Do total de 33 ministros de Lula 12 estiveram ligados à luta armada no período da ditadura e 11 haviam sido dirigentes sindicais. O presidente recém-empossado prometia enfrentar a desigualdade e a fome no país, depois de conquistada a estabilidade monetária no governo FHC. A democracia brasileira parecia haver chegado a um nível de maturidade que a tornava imune das crises do século XX.

Nos oito anos seguintes, o Brasil cresceria a uma taxa média de 4% ao ano. A pujança econômica, aliada a políticas como a valorização do salário mínimo, tirariam 30 milhões de pessoas da pobreza e da miséria, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas. O país seria o primeiro do mundo a superar a recessão causada pela crise de setembro de 2008. Na capa de 14 de novembro de 2009 da revista inglesa The Economist o Cristo Redentor se despregava do Corcovado, como se fosse um foguetão, simbolizando a arrancada do país. Antes, na reunião do G-20, em abril desse ano, o presidente dos Estados Unidos da América Barack Obama diria ao então presidente Lula.

Barack Obama:
I love this guy, the most popular politician on Earth!

Não era exagero: Lula, ao final do seu governo, em dezembro de 2010, tinha 87% de aprovação pessoal. Elegera sua sucessora, Dilma Rousseff, sem grandes dificuldades – ainda que apenas no segundo turno, no final de outubro de 2010. Pela primeira vez, uma mulher era eleita presidente do Brasil.

Dilma Rousseff:
A minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso registro aqui outro compromisso com meu país: valorizar a democracia em toda a sua dimensão, desde de o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais, básicos, da alimentação, do emprego, da renda, da moradia digna e da paz social. Eu vou zelar pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa. Vou zelar pela mais ampla liberdade religiosa e de culto. Vou zelar pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados na nossa própria constituição. Zelarei enfim pela nossa constituição, dever maior da presidência da República.

Na ocasião, o futuro parecia à nossa espera. E, de fato, em um primeiro momento, o governo de Dilma Rousseff parecia seguir nessa direção. Já em 2011, ano em que tomou posse, a presidente demitiu seis ministros acusados de corrupção, mau uso de dinheiro público e tráfico de influência. O crescimento, em 2011, foi de 4% e o Brasil superou a Inglaterra, tornando-se a sexta maior economia do mundo . Sua popularidade chegou a 79% em março de 2013, superando FHC e Lula no mesmo período de governo.

A presidente conseguiria, ainda, implementar aquele que era seu principal objetivo: a redução da taxa básica de juros do Brasil, a Selic, que baliza toda economia brasileira. O seu intuito, com a medida, era diminuir o capital especulativo, direcionando-o aos investimentos, de forma a manter o ritmo de crescimento econômico do Brasil. Em agosto de 2011,  a Selic era de 12,5%. Chegaria, em abril de 2013, a 7,25%. A taxa de juros real – a Selic descontada a inflação de doze meses – chegaria a menos de 2%, dentro dos padrões internacionais. A economista Laura Carvalho, professora da Universidade de São Paulo e autora do livro “Valsa Brasileira – do boom ao caos econômico”, lançado em maio de 2018, analisa a estratégia:  

Laura Carvalho:
A  ideia de reduzir os juros era, ao mesmo tempo, facilitar ainda mais o crédito, mas também retirar retorno do capital financeiro e devolver alguma competitividade para a indústria nacional. Junto da política de redução de juros também foi feita uma política que tinha o mesmo objetivo, de redução de custos, por exemplos, tarifa de energia elétrica e outros custos para a indústria.

Mas o impacto da política de juros, no início do governo Dilma, não teve os efeitos pretendidos.

Laura Carvalho:
A gente nem chegou a ver o resultado. O Banco Central baixou os juros muito rápido. Isso vem junto, ao mesmo tempo, com uma crise europeia, em 2012, que traz uma segunda rodada de contração pro comércio mundial, o comércio mundial é muito prejudicado, dificultando que essa indústria convertesse essa alta do dólar que vem como consequência dos juros baixos em ganhos de potencial exportador. Então, na verdade, isso não ocorre, a indústria brasileira não exporta mais do que antes. Tampouco aumenta a produção industrial. E, por outro lado, esse dólar mais alto, ele vem muito rápido. Então você tem uma desvalorização da moeda brasileira relativamente rápida, com impactos inflacionários disso. Então, rapidinho você começa a ver a inflação que vinha sendo mantida sob controle – até com a ajuda desse real valorizado – saindo um pouco de controle, sendo controlada artificialmente de outras formas, o que faz com que o Banco Central altere a política. Então quando a inflação começa a sair do teto da meta de inflação o Banco Central começa a subir os juros  já em abril de 2013.

A pressão inflacionária levou a um pedido insólito por parte do Governo Federal ao prefeito [equivalente ao cargo de presidente de câmara] de São Paulo, Fernando Haddad, também ele do PT, logo no início do seu mandato. Segundo relato do próprio Haddad, o governo pediu a ele que segurasse o aumento das passagens de ônibus na cidade [ou autocarros, como se diz em Portugal], que tradicionalmente sobem em janeiro, de modo a conter os índices de inflação no primeiro semestre de 2013. Haddad, como bom soldado, acatou o pedido. Mas a decisão seria inócua.Uma seca prolongada levou ao aumento dos preços de um dos principais alimentos do dia a dia do brasileiro,o tomate, que, de janeiro a abril de 2013, teve uma subida superior a 100% no preço do quilo, chegando a custar mais de 10 reais, algo em torno de 3 euros, em valores da época.

O aumento da inflação é um dos maiores medos do brasileiro, em razão da crise inflacionária que durou do início dos anos 1980 até a implementação do Plano Real, um projeto de estabilização monetária concebido em 1993, durante o governo de Itamar Franco, e coordenado pelo então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Implantado a partir de fevereiro de 1994, o Real foi o sétimo pacote econômico em oito anos. Ao contrário de outros planos – como o Cruzado – o projeto de estabilização da moeda foi bem sucedido em encerrar a crise inflacionária e, mais tarde, garantiu a Fernando Henrique Cardoso a dupla eleição e oito anos na presidência da República.

No começo de 2013 o aumento do custo de vida estava muito distante dos anos de hiperinflação, quando chegou a superar a marca de 1.000% ao ano. No entanto, a elevação dos preços somada ao baixo crescimento do ano anterior e a geração de receitas atípicas para cumprir a meta fiscal de 2012, começou a causar incômodo e desconfiança em alguns setores, como os empresários e parte da classe média. O processo ainda não era captado pelas pesquisas de opinião. Mas os partidos que compunham a heterogênea base de apoio ao governo Dilma – como o Movimento Democrático Brasileiro**, de seu vice, Michel Temer – estavam atentos ao custo político de suas decisões econômicas.

O sociólogo e escritor Sérgio Abranches, autor do livro “Presidencialismo de Coalizão” [coligação, em Portugal], termo cunhado pelo próprio Abranches e que sintetiza a necessidade, por parte da Presidência, de chegar a acordos com vários partidos, para poder ver os projetos aprovados no Congresso, explica:  

Sérgio Abranches:
O Congresso, o sistema político é um pouco como o mercado econômico: quando ele vê que uma política do governo não vai dar certo, que ele vai perder popularidade em algum momento, ele traz isso ao longo do presente, ele torna mais difícil, ele encarece, ele aumenta o custo de demanda política ao presidente para poder manter o apoio. Foi isso que aconteceu com Dilma:eles aumentaram o custo de apoio de apoiá-la porque começaram a ver que ela estava cada vez mais para à esquerda e implementando uma política econômica que não daria certo.

E o preço a pagar pode ser fazer exatamente o contrário daquilo que se defendia e prometeu ao povo.

Danilo Thomaz:
Que era coordenado pela Dilma…
Laura Carvalho:
O que é esse programa ou essa ‘agenda FIESP’ que a Dilma estabelece em 2011? Ela foi um pouco o contrário. Você até manteve os programas sociais, mas você acabou retirando o peso que você tinha dos investimentos públicos – então aquela expansão que a gente observou dos investimentos públicos em mais de 25% ao ano, em termos reais – durante o segundo governo Lula, com o PAC, que era o Programa de Aceleração do Crescimento…
Laura Carvalho:
Coordenado pela Dilma. Dá lugar a uma semi-estagnação. Os investimentos federais que cresciam mais de 20%, ao ano, passam a crescer menos de 1%, ao ano. (…) Aquele pilar dos investimentos públicos foi abandonado e o que veio no lugar foi um programa de incentivos aos setores industriais, privados etc, não só industriais, no início eram industriais, mas esse programa de redução de impostos acabou estendido para quase toda economia, e aí não é só culpa do governo. Boa parte disso veio pelo Congresso. O próprio Congresso Nacional, que sofre influência de setores com alta concentração de poder econômico, político acabou estendendo esses benefícios para muitos outros setores da economia. (…) Na prática isso contribuiu substancialmente para piorar a situação fiscal, não foi o único fator, é claro que a própria desaceleração da economia, que veio em 2011, por razões internas e externas, contribui também para diminuir a arrecadação de impostos, mas as duas coisas juntas acabaram criando, deixando bem mais vulnerável aos olhos da opinião pública, sobretudo da oposição, o governo. Você começa a ter um problema de desequilíbrio que é crescente e aí você tem as tais manobras fiscais, que são tentativas de esconder o déficit crescentes, que acabam sendo usados como pretexto até para o processo de impeachment.

Além disso, naquele momento, o país experienciava uma série de protestos, ligados tanto às causas progressistas – como o direito ao aborto, a descriminalização da maconha e os direitos LGBTI – mas também em pautas mais ligadas à direita, como o combate à corrupção e à moralização da política.

Em 1º de junho, os prefeitos das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro aumentaram em vinte centavos os preços das passagens de ônibus nas duas cidades. O, na época,  governador do estado de São Paulo – Geraldo Alckmin, do Partido da Social Democracia Brasileira, PSDB, também ele concorrente derrotado às presidenciais do ano passado – aumentou ainda em vinte centavos a tarifa de metro e trem – comboio, em Portugal. Foi o gatilho de uma série de movimentos que entrariam para a história com as manifestações de junho de 2013 – e mudariam a história da política brasileira.

III – AS REVOLTAS DE JUNHO

As revoltas de junho de 2013 tiveram três momentos distintos. Os atos que aconteceram entre os dias 7 e 13 de junho, em São Paulo, tiveram como foco a redução da tarifa para três reais e foram liderados pelo Movimento Passe Livre, um movimento social que se autodefine como autônomo, horizontal e apartidário e defende o fim das tarifas de transporte público e seu controle estatal.

A repressão da Polícia Militar contra os manifestantes na quinta-feira, treze de junho, com bombas de efeito moral e balas de borracha, levou a um novo capítulo do movimento: na segunda-feira, 17 de junho, mais de 200 mil pessoas em todo o Brasil foram para as ruas. Na saída do metro Faria Lima, em São Paulo, de onde saí para a manifestação, o povo gritava em coro o lema daqueles dias: “O povo acordou!”. Pelas ruas, a ordem era: “Sem violência”.

Em Brasília, os manifestantes alcançaram a cobertura do prédio do Congresso Nacional, na Praça dos Três Poderes.

Sérgio Abranches:
É devastador. Para entender a eleição de Bolsonaro a gente tem que entender 2013. Nós tínhamos três rios enchendo demais, se tornando muito caudalosos e ameaçando uma enchente à jusante. Lá embaixo, no vale da política, você tem um rio que corre e irriga uma parte dele com a corrupção. Você tem um rio que irriga uma parte dele com a insatisfação econômica crescente por causa da inflação alta e a taxa decrescente de crescimento. E você tem um rio crescendo de forma menos perceptível, esse é um rio de águas menos visíveis, de indignação com as liberalidades comportamentais que o Brasil foi aderindo, porque é um processo mundial de liberação dos costumes, dos comportamentos, de defesa das minorias, de proteção às identidades diversas, e esse rio também começou a encher. No começo de 2013 havia apenas um movimento de insatisfação econômica, era o primeiro vazando um pouco de água com a insatisfação econômica que aparecia na tarifa de ônibus e tal. Mas olhado amplamente já era um movimento com um certo conjunto de fusos de demandas que levavam as pessoas pra rua. Era mais comum o desejo de ir para a rua, do que ir para a rua para demandar o que. Havia uma certa diversidade de demandas, mas havia uma convergência no sentido de que temos que ir pra rua. Esse movimento foi muito forte, muito importante e muito pouco compreendido, tanto pelas forças políticas, quanto pelos intelectuais e acadêmicos.

Na quarta-feira, 19 de junho, os prefeitos do Rio e de São Paulo, assim como o governador do estado de São Paulo, revogaram o aumento das passagens. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, do PT, contrário à revogação, não escondeu sua insatisfação no anúncio da medida, quando dividiu o palanque com o governador do estado, Geraldo Alckmin, do PSDB.

Ainda assim, o povo voltou às ruas na quinta-feira, 20 de junho. A avenida Paulista, principal via da cidade de São Paulo, dividiu-se em duas: de um lado, os manifestantes vestidos de verde-e-amarelo; do outro, os manifestantes com camisetas e bandeiras vermelhas.

Sérgio Abranches:
E, na verdade, lá no seu bojo, começava a aparecer a polarização. A polarização dos black blocks e a polarização também no momento da saída das pessoas da rua, quando aqueles movimentos mais organizados ligados ao PT vão para a rua. Quando eles descobrem que o movimento tinha uma inspiração mais política e que o confronto era entre forças políticas organizadas, eles voltam para casa. Esse retorno já devia ter sido entendido como uma rejeição à política como um todo. Houve outras manifestações e no processo de impeachment da Dilma esses rios todos produziram uma enchente só. Então havia ali a rejeição à coalizão, à política, à corrupção e havia a insatisfação econômica. Houve uma rejeição do modelo econômico, da política e dos políticos em geral, uma descrença de que aquele tipo de democracia fosse capaz de dar solução aos gravíssimos problemas nos quais a população se via envolvida. Ao mesmo tempo, havia a crescente polarização, essas águas enchendo o mesmo vale, mas em confronto.

IV – A POLARIZAÇÃO E O INÍCIO DA CRISE

De junho de 2013 em diante o Brasil não foi mais o mesmo. A polarização vista nas ruas voltou com força no segundo turno das eleições presidenciais de 2014, que opôs a presidente Dilma Rousseff, do PT, ao candidato Aécio Neves, do PSDB.

O segundo turno, porém, terminou com a vitória de Dilma Rousseff com 51,6% dos votos. O PSDB, partido de Aécio Neves, pediu ao Tribunal Superior Eleitoral uma auditoria das urnas eletrônicas para verificar se tinha havido fraude nas eleições. Em dezembro de 2014, o partido exigiria a cassação da chapa de Dilma e Temer alegando que a campanha havia sido bancada com dinheiro de corrupção. No Brasil, “chapa” é a lista de pessoas que se apresenta a eleições e a “cassação” da mesma seria a retirada do direito de ocupar um cargo público ou a ser eleito para uma determinada função, por um determinada tempo. O PSDB foi derrotado nos dois casos. Ainda assim, a crise política estava iniciada e, quatro anos depois, terminaria com a eleição de Jair Bolsonaro.

V – CRISE BRASILEIRA

Em 2014, o Brasil teve o primeiro déficit de sua história, de 0,63% do PIB. Dilma Rousseff assumiu seu segundo mandato, em 1º de janeiro de 2015, disposta a sinalizar aos mercados que reverteria a política econômica de seu primeiro governo, responsável pelo aumento da dívida pública do país de 51% para 57% do PIB e pelo início da recessão econômica, já no segundo semestre de 2014.

Para tanto, o governo federal cortou gastos públicos e investimentos. Preços que estavam congelados – como os da gasolina e da energia elétrica – foram aumentados. A inflação, em 2015, superou a marca de 10%, pela primeira vez desde 2002. Os juros chegaram a 14,25%, em maio de 2016, a maior taxa desde outubro de 2006. O desemprego, após chegar à mínima histórica de 4,3% em dezembro de 2014, estava em 11,2%, em maio de 2016, quando a presidente é afastada do cargo.

Na Câmara dos Deputados, comandada pelo deputado Eduardo Cunha, do partido MDB – Movimento Democrático Brasileiro – do Rio de Janeiro, foram colocadas em votação uma sucessão de chamadas “pautas bomba”, medidas que elevariam os gastos do governo federal em mais de 200 bilhões de reais até 2022, justamente em um momento no qual o Executivo buscava cortar gastos para recompor as finanças públicas e o crescimento econômico. Entre 2015 e 2016, o Brasil viveu a segunda maior recessão de sua história, com uma queda acumulada de 7,2% do PIB. A crise econômica se encontra com a crise política, estimulada por diferentes fatores que levariam ao impeachment de Dilma Rousseff em agosto de 2016.

O principal é a Operação Lava Jato. Iniciada em março de 2014, a Lava Jato investiga uma rede de corrupção que envolve políticos, acionistas e executivos de construtoras com negócios junto à Petrobras, empresa pública do setor de petróleo e gás, fundada em 1953, com ações na bolsa de valores. A operação – comandada pelo Ministério Público Federal de Curitiba – prendeu, entre 2014 e 2018, 255 pessoas – entre empresários, executivos e políticos – e colocou a classe política brasileira em xeque. Para a maior parte dos brasileiros, o país, pela primeira vez, enfrenta um de seus principais males – a corrupção e a impunidade de grandes empresários e políticos.

Sérgio Abranches:
O impeachment já é uma demonstração da falência do governo e da possibilidade das outras instituições encontrarem uma saída remediadora do processo que não fosse traumática.

Sérgio Abranches tem razão. Todo o edifício político tradicional parecia estar em erosão. Um dos alvos da operação Lava Jato é o presidente da Câmara dos Deputados – a câmara baixa do Congresso Nacional do Brasil – Eduardo Cunha. Em março de 2015, Cunha havia negado, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras, ser titular de contas no exterior.

Eduardo Cunha:
Não tenho qualquer tipo de conta, em qualquer lugar, que não seja conta que está declarada no importado de renda. E não não recebi qualquer vantagem ilícita ou qualquer vantagem com relação a qualquer natureza vinda desse processo.

Meses mais tarde, no início de outubro, o Ministério Público da Suíça enviou documentos à justiça brasileira que atribuíam a Eduardo Cunha quatro contas bancárias nesse país europeu. Em uma das contas havia recursos recebidos por um lobista ligado ao MDB e preso pela operação Lava Jato, João Augusto Henriques. O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e a Rede – partido da ex-ministra do Meio Ambiente no governo de Lula da Silva e ex-candidata presidencial às três últimas eleições – Marina Silva, entraram com uma representação contra Cunha por quebra de decoro parlamentar, uma vez que o deputado mentiu à CPI.

A denúncia contra Cunha vem num momento em que o governo Dilma Rousseff busca reagir à crise política e recompor a unidade e a estabilidade. Para tanto, a presidente sela um acordo com o deputado estadual Leonardo Picciani, do MDB do Rio de Janeiro, e realiza a primeira reforma ministerial em seu segundo governo. Reduz o número de ministérios de 39 para 31. Para simbolizar o recomeço, Dilma veste a mesma roupa que usou na posse de seu primeiro mandato, em 2011. O então ministro-chefe da Casa Civil, Jacques Wagner, falou em nome da presidente logo após a primeira reunião com o novo ministério.

Jaques Wagner:
Eu pessoalmente considero que a reunião foi extremamente positiva. Senti um clima de muita unidade nos ministros que já estavam, nos ministros que estão chegando, e reafirmo essa palavra da presidente exatamente no sentido de que a reforma foi pra otimizar a operação do governo.

A disputa chega ao seu desenlace no início de dezembro de 2015. Segundo noticiado na época, o presidente da Câmara havia proposto um acordo com o PT para encerrar a crise política: arquivar os pedidos de impeachment enviados à Câmara dos Deputados contra Dilma Rousseff em troca de três votos para encerrar seu processo no Conselho de Ética. Diante da negativa do Partido dos Trabalhadores em selar o acordo, o presidente da Câmara acatou o pedido de impeachment – destituição, em português –  da presidente Dilma Rousseff protocolado pelos advogados Hélio Bicudo – ex-petista, falecido em julho de 2018 –, Miguel Reale Júnior, ligado ao PSDB, e Janaina Paschoal, professora de Direito da Universidade de São Paulo. Em 2018, seria eleita deputada estadual, em São Paulo, com mais de 2 milhões de votos, a maior votação obtida por um parlamentar na história do país.

A presidente Dilma reagiu de imediato, em uma declaração ao vivo, para todo o Brasil:

Dilma Rousseff:
Ainda hoje eu recebi com indignação a decisão do senhor presidente da Câmara dos Deputados de processar pedido de impeachment contra mandato democraticamente conferido a mim pelo povo brasileiro. São inconsistentes e improcedentes as razões que fundamentam este pedido. Não existe nenhum ato ilícito praticado por mim. Não paira contra mim nenhuma suspeita de desvio de dinheiro público. Não possuo conta no exterior, nem ocultei do conhecimento público a existência de bens pessoais. Nunca coagi ou tentei coagir instituições ou pessoas na busca de satisfazer meus interesses. Meu passado e meu presente atestam a minha idoneidade e meu inquestionável compromisso com as leis e a coisa pública. Nos últimos tempos, em especial nos últimos dias, a imprensa noticiou que haveria interesse na barganha dos votos de membros da base governista no conselho de ética da Câmara dos Deputados. Em troca haveria o arquivamento dos pedidos de impeachment. Eu jamais aceitaria ou concordaria com quaisquer tipos de barganha. Muito menos aquelas que atentam contra o livre funcionamento das instituições democráticas do meu país, bloqueiam a justiça ou ofendam os princípios morais e éticos que devem governar a vida pública. Tenho convicção e absoluta tranquilidade quanto a improcedência desse pedido, bem como quanto ao seu justo arquivamento.

Segundo a denúncia, aceite por Eduardo Cunha, a presidente Dilma teria cometido crime de responsabilidade – ou seja, um crime que fere a Constituição Federal – em duas ocasiões. A primeira, ao assinar três decretos de crédito suplementar no valor total de 2 bilhões e 329 milhões de reais (o equivalente a cerca de 500 milhões de Euros)que alteraram a meta fiscal do governo sem a autorização do Congresso, como manda a Constituição. A defesa de Dilma afirmou na época que os decretos são elaborados por uma grande cadeia de servidores antes de serem assinados pela presidente, de modo que tiveram aval do corpo técnico da União. Já os peritos do Senado consideraram que a participação direta da presidente no caso dos decretos era “evidente” porque ela que assina sua publicação no Diário Oficial da União.

A segunda acusação feita é a de que ao atrasar, entre janeiro e novembro de 2015, o pagamento para o Banco do Brasil de parcelas que totalizaram 3,5 bilhões de reais (o equivalente a cerca de 850 milhões de euros) referentes aos subsídios do Plano Safra, um programa federal de auxílio a agricultores familiares através de crédito a juros abaixo da média do mercado.O atraso, considerado irregular pelo Tribunal de Contas da União, foi configurado como uma operação de crédito, o que é vetado pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Ou seja: ao não pagar as parcelas, era como se o governo tomasse um empréstimo do banco. Os acusadores afirmaram ainda que a prática mascarou as contas públicas, ou seja, mostrou para o país um dado falso sobre a situação real financeira do Estado. A defesa da presidente negou, na ocasião, que se tratasse de operação de crédito. Uma perícia feita por técnicos do Senado, a pedido da defesa da Presidenta à Comissão Processante do Impeachment, mostrou que não havia indícios de “participação direta ou indireta” da presidente no fato.

Em 4 de março de 2016, o ex-presidente Lula foi levado pela Polícia Federal em condução coercitiva – sem que tenha sido chamado previamente e nem se tendo negado a ir depor – de sua casa, em São Bernardo do Campo, até o aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo. Na ocasião, sua casa foi revistada, à procura de provas de enriquecimento ilícito. O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamoto, e a assessora do presidente, Clara Ant, também tiveram a casa vasculhada naquela manhã. Nessa tarde, o ex-presidente falou ao telefone com a então presidente, Dilma Rousseff.

Lula da Silva:
Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada. Nós temos um Superior Tribunal de Justiça totalmente acovardado. Um Parlamento totalmente acovardado. Somente nos últimos tempos que o PT e o PCdoB começaram a acordar e começaram a brigar. Sabe…nós temos um presidente da câmara fudido, um presidente do senado fudido. Não sei quantos parlamentares ameaçados. E fica todo mundo no compasso de que vai acontecer um milagre e vai todo mundo se salvar. Sinceramente, eu estou assustado é com a república de Curitiba, porque a partir de um juiz da primeira instância tudo pode acontecer nesse país.

A conversa veio a público após ser vazada pelo juiz Sérgio Moro. No diálogo, Lula dá a sua visão sobre a situação política do país em meio à Lava Jato, a crise econômica e a ascensão de forças corporativas como no Judiciário. Entre julho de 2016 e novembro de 2018 o ex-presidente Lula torna-se réu em oito ações penais, acusado por corrupção e corrupção passiva, acusado de ser integrante de organização criminosa, recebimento de suborno, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.

Em 12 de julho de 2017, no Jornal Nacional, da Globo, noticiário de maior audiência do Brasil, o pivô anunciava:

William Bonner:
O juiz Sérgio Moro, da Justiça Federal de Curitiba, tomou nesta quarta-feira (12) sua decisão a respeito da acusação de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o dono oculto de um apartamento triplex no Guarujá, recebido como propina paga pela empreiteira OAS, em troca de benefícios em obras da Petrobras. Em uma longa sentença, de 218 páginas, o juiz Moro resume as acusações que pesam contra Lula, relata os argumentos da defesa e analisa minuciosamente as provas documentais, periciais e testemunhais para concluir: o ex-presidente Lula é culpado dos crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro, e por esses crimes deve cumprir uma pena de nove anos e meio de prisão em regime fechado. É a primeira vez na história em que um ex-presidente da República é condenado por crime comum no Brasil. Lula poderá recorrer da decisão em liberdade.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é condenado pelo juiz Sérgio Moro a 9 anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em 24 de janeiro a oitava turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, de Porto Alegre, amplia a condenação para 12 anos e 1 mês. Lula é levado para as celas da Polícia Federal em Curitiba em 7 de abril de 2018.

O ex-presidente, antes de ser preso, recebeu amigos, militantes e correligionários na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, onde iniciou sua vida política. O ex-presidente, segundo relatos, estava forte e sereno. Mas lamentou que houvesse pouco apoio popular contra sua prisão. Segundo números divulgados na ocasião apenas mil pessoas foram a São Bernardo do Campo protestar contra o cumprimento da pena. A maior parte era formada por militantes do PT e movimentos sociais ligados ao partido.  A economista Laura Carvalho, que ouvimos há pouco, esteve presente no Sindicato dos Metalúrgicos no sábado, 7 de abril, nos últimos momentos de liberdade do ex-presidente.

Laura Carvalho:
Independente de você atribuir ou não alguma culpa ao Lula, é nítida a perseguição que ele sofre, é nítida a forma seletiva como a justiça tem se comportado no caso dele em relação a outros políticos relevantes que estiveram implicados em escândalos,  seja no PSDB, seja em outros partidos. (…) Essa seletividade causa uma indignação porque, na verdade ela se encaixa num quadro geral de perseguição à esquerda como um todo e acho que até o fato do Lula ter sido um presidente que fez até muito menos em termos de mudança estrutural do que se gostaria, ele não fez grandes mudanças radicais no sistema tributário, no injusto sistema tributário brasileiro, a renda dos mais ricos cresceu muito mais rápido que a renda da classe média e dos pobres nesse período, se você olha o lucro dos bancos, qualquer elemento que você encontra você vai ver que a elite se beneficiou tremendamente, porque o Lula era um conciliador. Até por ser um conciliador esteve tão próximo desses setores corporativos e acabou implicado em escândalos de favorecimento ilícito. Ele, na verdade, era, dentro da sua trajetória de sindicalista, um negociador que tentava fazer essa conciliação entre esses diversos setores. E por ser isso, e sofrer essa perseguição, a sensação que dá é que não se pode fazer nada, que a elite brasileira não está disposta a deixar que nenhum tipo de avanço social, mesmo que restrito à base, mesmo que sem tocar nos privilégios no topo, aconteça impunemente.

Lula da Silva:
Eu vou atender o mandato deles e vou atender porque eu quero fazer a transferência de responsabilidade. Eles acham que tudo o que acontece nesse país, acontece por minha causa. Se dependesse da minha vontade eu não iria, mas eu vou. (…) Todos vocês daqui pra frente vão virar Lula.

Eduardo Cunha:
A presidência informa que se encontra em plenário 505 senhoras deputadas e senhores deputados, o que significa a existência de quorum constitucional para iniciar a votação da matéria. Declaro iniciada a votação. Passo a chamada das senhoras deputadas e senhores deputados.

A votação dos deputados pela admissão do processo de impeachment de Dilma Rousseff foi realizada no domingo 17 de abril de 2016. Exibida ao vivo para todo o país, a votação foi acompanhada nas ruas por militantes pró-impeachment e militantes contrários à cassação do mandato de Dilma. Ao final da noite de domingo, a Câmara dos Deputados aceitou a instauração do processo de impeachment por 367 votos, quando eram necessários, no mínimo, 342. Apenas 137 deputados votaram contra a abertura do processo de destituição. A noite de 17 de abril foi marcada por uma série de menções a Deus, à pátria e à família – um ensaio do que estava por vir.

Jair Bolsonaro:
Tem um nome que entrará para a história nesta data pela forma como conduziu os trabalhos nesta casa. Parabéns presidente Eduardo Cunha. Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família, pela inocência das crianças em sala de aula que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Folha de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas nossas forças armadas, por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim.”

Tem um nome que entrará para a história nesta data pela forma como conduziu os trabalhos nesta casa. Parabéns presidente Eduardo Cunha. Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família, pela inocência das crianças em sala de aula que o PT nunca teve, contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Folha de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas nossas forças armadas, por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim.”

O presidente da Câmara, que presidia a sessão, também votou.

Eduardo Cunha:
Que Deus tenha misericórdia desta nação, voto sim.

Em 12 de maio de 2016, o Senado Federal aprova a abertura do processo por 55 votos favoráveis contra 22 contrários do total de 81 senadores. A presidente Dilma é afastada do cargo.

Dilma Rousseff
Foi aberto pelo Senado Federal o processo de impeachment e determinada a suspensão do exercício do meu mandato pelo prazo máximo de 180 dias. (…) Diante da decisão do Senado eu quero mais uma vez esclarecer os fatos e denunciar os riscos para o país de um impeachment fraudulento, um verdadeiro golpe. Desde de que fui eleita, parte da oposição inconformada pediu recontagem dos votos, tentou anular as eleições e depois passou a conspirar abertamente pelo meu impeachment. Mergulharam o país em um estado permanente de instabilidade política, impedindo a recuperação da economia com um único objetivo de tomar à força o que não conquistaram nas urnas.

O vice-presidente, do MDB, assumia desta forma a presidência do Brasil, de forma interina.

Michel Temer:
Não vamos falar em crise vamos trabalhar.

A missão de Temer, que assumiu oficialmente a presidência em 31 de agosto de 2016, após o Senado cassar por 61 votos contra 20 o mandato de Dilma, era implementar reformas econômicas liberais, baixar o nível da dívida pública e tirar o país da recessão e do desemprego. Criticado, na ocasião, por formar um ministério de homens brancos, Temer nomeia para o ministério da Fazenda o engenheiro Henrique Meirelles, que tinha sido presidente do Banco Central do Brasil no governo Lula. Ilan Goldfajn, economista do banco Itaú, o maior banco privado do Brasil, assumiu a presidência do Banco Central.

Em dezembro de 2016, o presidente aprovou a Proposta de Emenda Constitucional n.º 95, que ficou conhecida como a PEC do Teto. Com ela, os gastos do governo poderiam subir apenas o equivalente à inflação de 12 meses, até junho do ano anterior, no período de 20 anos. A medida foi criticada por lideranças de esquerda, segundo as quais a PEC reduziria os gastos com saúde e educação – cujo percentual mínimo é garantido pela Constituição– além de inviabilizar os investimentos públicos na área econômica e social. Laura Carvalho vê nas medidas processo semelhante às políticas de austeridade implementadas em países como Grécia, Espanha e Portugal após a crise de 2008 e alerta para as consequências dessas ações.

Laura Carvalho
Como na Europa, a crise tem sido aproveitada para implementar um modelo de austeridade, de ajuste fiscal muito dramático, com cortes em áreas prioritárias, com investimentos públicos não sendo suficientes nem para cobrir a depreciação, para fazer a manutenção de estradas. Eu tenho a hipótese de que várias das tragédias que a gente está vivendo no Brasil em 2019 também, de alguma forma, vem como consequência dessa crise, dessa falta de investimento em manutenção, que acompanha essa era de austeridade.

Em julho de 2017 o presidente conseguiu aprovar uma outra peça legislativa fundamental para manter o apoio das elites econômicas ao seu governo: a reforma trabalhista.

Michel Temer
É uma vitória do Brasil na luta contra o desemprego e na construção de um país mais competitivo. Eu penso que nós aprovamos uma das reformas mais ambiciosas dos últimos trinta anos, aliás, desde a Constituição de 88 – eu fui constituinte – o país aguardava uma nova legislação trabalhista.

Este pacote de medidas, muito criticado pela esquerda por diminuir os direitos e o poder de negociação do trabalhador, determinou que o acordado entre patrões e empregados representados por associações e sindicatos valeria mais que a lei; encerrou a contribuição sindical obrigatória, deixando os sindicatos em uma situação financeira crítica e autorizou o chamado trabalho intermitente, segundo o qual um empregador pode contratar determinado trabalhador para períodos específicos, comunicando-o previamente. Foi a última medida de impacto de seu governo na área econômica. Os empregos prometidos com a reforma, no entanto, não vieram. A taxa de desemprego no trimestre encerrado em novembro de 2018 era de 11,6%, mesmo número de julho de 2016, início do governo interino de Temer. A taxa equivale a mais de 12 milhões de desempregados e é considerada um dos principais fatores para o aumento do número de pobres no Brasil, que cresceu 11% em 2017. É também a queda de 3,5% na renda dos mais pobres. Os dados são da Organização Não Governamental Oxfam.

O presidente preparava-se para aprovar a reforma mais dura de seu governo – a da Previdência – quando foi alvejado, em maio de 2017, por um áudio vazado pelo empresário Joesley Batista, do Grupo JBS, o maior exportador de carnes do Brasil, que cresceu durante o governo Lula em sua política dos “campeões nacionais”, empresas que liderariam o desenvolvimento brasileiro dentro e fora do país. No diálogo, o empresário relatava ao presidente como andava sua relação com o ex-deputado Eduardo Cunha, naquela altura preso.

Joesley Batista:
O que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora: estou de bem com o Eduardo.
Michel Temer:
Tem que manter isso, viu?

O vazamento do áudio foi um tiro no peito do governo diante da suspeita de que Temer havia pedido ao empresário que subornasse o ex-deputado, em troca de seu silêncio. A continuidade de Temer na presidência foi colocada em dúvida. O então presidente, em declaração, foi incisivo:

Michel Temer:
Em nenhum momento autorizei que pagassem a quem quer que seja para ficar calado. Não comprei o silêncio de ninguém por uma razão singelíssima, exata e precisamente porque não temo nenhuma delação. Não preciso de cargo público, nem de foro especial, nada tenho a esconder. Não renunciarei.

O presidente conseguiu manter-se no poder a partir da liberação de verbas para os parlamentares – as chamadas emendas parlamentares. Os deputados, por sua vez, arquivaram duas denúncias contra Temer, em 2017. Os pedidos de abertura de processo de impeachment foram arquivados ou ignorados. Mas foi o fim de seu projeto de reformas liberalizantes. O então presidente do PSDB e senador pelo estado de Minas Gerais, Aécio Neves, que terminou as eleições de 2014 em segundo lugar, também teve um áudio vazado pelo empresário. Nele, Joesley comentava com o senador sobre o pedido de dois milhões de reais para custear advogados. O pedido havia sido feito pela irmã de Aécio, Andrea Neves.

Aécio: Como é que a gente combina?
Joesley: Tem que ver, você vai lá em casa ou…
Aécio: O Fred.
Joesley: Se for o Fred, eu ponho um menino meu pra ir. Se for você, sou eu. Só para [risos]…
Aécio: Só pode ser desse jeito [risos]
Joesley: Entendeu? Tem que ser entre dois, não dá pra ser…
Aécio: E tem que ser um que a gente mata ele antes dele delatar [risos]
Joesley: [Risos] Eu e você. Pronto.. ou o Fred e um cara desses… pronto.
Aécio: Vamos combinar o Fred com um cara desse. Porque ele sai de lá e vai no cara. Isso vai me dar uma ajuda do caralho.

Foi o fim de sua pretensão de chegar à presidência da República.

Sérgio Abranches:
Se agrava a situação porque o Aécio, que era o contestador, logo em seguida ao impeachment também se vê à margem das acusações de corrupção. Os que ficaram ao lado do impeachment também perderam legitimidade. O impeachment tinha apoio da maioria da população e perde a batalha da narrativa também por conta da deslegitimação da oposição ao governo Dilma.

Em 2018, Aécio foi eleito deputado federal por Minas Gerais, seu estado natal, com pouco mais de 106 mil votos. Em 2014, havia acabado as eleições presidenciais em segundo lugar, com mais de 51 milhões de votos.

VI – A ASCENSÃO DE BOLSONARO

A direita torna-se visível nas ruas a partir de junho de 2013, quando compete com a esquerda pelo espaço da avenida Paulista. O movimento, no entanto, vinha em um crescente. Começou na imprensa, com a transformação da revista Veja, o maior semanário do Brasil, em veículo de direita e em oposição ao PT. Passou pelo surgimento de think thanks liberais e de direita, como os institutos Ludwig von Mises e o Millenium, que realizam conferências e cursos onde são propagadas ideias liberais. Por protestos de rua, como os atos contra a corrupção em 2011. Pelo surgimento de movimentos sociais de direita, como o Movimento Brasil Livre, que seria a liderança mais evidente nos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2015 e 2016, com uma pauta voltada ao combate à corrupção e a diminuição da presença do Estado na economia. Para a economista Laura Carvalho, essa nova direita ganhou as ruas aliando o discurso da crise econômica com os casos de corrupção, investigados, na época, pela Operação Lava Jato.

Laura Carvalho:
Se vendeu a ideia, que é muito capturada em pesquisas de opinião, em 2015, de que na verdade a culpa dessa crise é da corrupção. Esse senso comum de que a própria corrupção, porque como a crise e os escândalos vieram simultaneamente, ficou um pouco no imaginário das pessoas que não havia dinheiro circulando na economia porque o dinheiro estava todo no bolso dos líderes do PT. Quer dizer, a ‘roubalheira’ do PT é que teria levado a essa crise. Por isso, ‘eu estou sem emprego’, ‘eu estou sem renda’, por isso ‘eu estou vivendo pior’, por isso ‘o serviço de saúde piorou’. Tudo fica nesse imaginário um pouco associado.

Para o sociólogo Sérgio Abranches, nesta altura, a direita – e não a esquerda – comandava as as massas nas ruas. Um fato novo na história política do país.

Sérgio Abranches:
Já havia claramente ali um substrato de direita forte que comandava a rua. Não comandava o Congresso ainda, mas comandava a rua. Então essa polarização das ruas já era uma manifestação clara e direta do que aconteceria nas eleições presidenciais. Nem os intelectuais, nem a Academia, nem a imprensa entenderam direito esse processo, por isso serão surpreendidos no futuro com a vitória do Bolsonaro. (…) Com o grau de apoio que a Dilma tinha do seu partido, de outros partidos da esquerda e de parte da população que ia pra rua pedindo em menor escala do que os que queriam o impeachment, mas, de qualquer forma, uma minoria consistente, grande e suficiente para ser respeitada, esse processo foi muito mais lento, muito mais doloroso e muito mais desorganizador do processo político brasileiro. Ali se consolidou essa polarização de dois lados muito raivosos, da qual eu trato no artigo ‘Democracia em risco’. O embate entre esses dois lados serviu sobretudo – e essa é uma das evidências de que a história se move por contradições – para fortalecer a extrema direita. Ao se reunir contra a Dilma e contra o PT no processo de impeachment, formou-se um grupo que começou a criar laços de solidariedade entre seus componentes e que reforçou essa síndrome que eu chamo de polarização afetiva. O que significa isso? Eu adoro nós e odeio eles.

O Movimento Brasil Livre elegeria duas de suas principais lideranças: em 2016, o vereador Fernando Holiday, em São Paulo. Em 2018, Kim Kataguiri, para a Câmara dos Deputados. Outros nomes ligados à militância de direita e de extrema-direita – como a jornalista Joice Hasselmann – também seriam eleitos para a Câmara dos Deputados.

O psicanalista Tales Ab’Saber, professor da Universidade Federal de São Paulo, é autor de “Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica”, “Dilma e o ódio político” e “Temer e o fascismo comum”, que analisam, à luz dos acontecimentos e a partir de seus personagens, o Brasil dos últimos quinze anos. Tales é ainda um dos diretores do documentário Intervenção, que narra a ascensão da extrema-direita no Brasil a partir de imagens colhidas na internet.

Tales Ab’Saber:
No Brasil a direita são muitas direitas. Essa direita que é a extrema direita ela é uma classe média remediada, em geral ligada, muitos ex-militares, que têm um ressentimento de como o processo da democracia congelou e colocou um sinal negativo em relação à ditadura militar. Mas essa é uma das forças da direita. O que a gente vê lá no filme é que essa energia, essa extrema direita produziu uma energia política com ódio, mentira e delírio – esses três elementos – que, na verdade, alimentava todo o movimento à direita, anti-PT e pró-impeachment da presidente Dilma. Essa extrema direita tinha uma função estratégica muito importante. era ela que balizava a ideia simbólica de que você pode fazer o que você quiser, você pode dizer o que você quiser, você pode imputar o adversário político,  a figura, a máscara, a representação que for, que isto é legítimo na luta política. E este movimento foi o que grassou na internet. Ele é um movimento que rompe a estrutura de referências históricas, de pactos acordados. Ele vem dizendo que ‘nada do que vocês acreditam, pensam ou leem na história é verdade’. E isso precisa desse polo fascista para que funcione. Uma certa direita ainda negociava com uma espécie de demagogia antiga, dentro das regras do jogo, ‘o problema do PT é que ele quebrou economicamente o país e a corrupção’, que são coisas que teriam, ainda, algum grau de densidade histórica, que aconteceram, que são reais. Essa outra direita ela dizia que existia uma revolução comunista pronta, iminente para acontecer agora, o que é tudo mentira. Ela via armas entrando no país, ela via aviões a jato sobrevoando e pronto para atacar as pessoas, né?

Até novembro de 2010, Jair Bolsonaro era um político pouco expressivo. Havia sido reeleito para sua sexta legislatura na Câmara dos Deputados, com 120 mil votos. Foi quando, no corredor da Câmara dos Deputados, deparou-se com uma reunião que contava com lideranças e militantes LGBTI – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans, Intersexo – para a criação e implementação do projeto “Escola sem Homofobia”, voltado a pré-adolescentes e adolescentes em âmbito escolar.

Jair Bolsonaro:
Dá nojo. Esses gays, lésbicas querem que nós, a maioria, ‘entubemos’ como exemplo de comportamento a sua promiscuidade. Isso é uma coisa extremamente séria. Eu não acho não, o presidente da Câmara tem que tomar providência no tocante a esse assunto. Nós não podemos nos submeter ao escárnio da sociedade. Esse kit para 6 mil escolas, para crianças de 7 a 12 anos, ser distribuído ano que vem em todas as escolas públicas do Brasil. Isso é uma vergonha. Comissão de direitos humanos não. Comissão… Para não ser advertido no meu discurso, eu vou poupar o adjetivo para essa comissão.

Meses mais tarde, em maio de 2011, a presidente Dilma Rousseff ordenou que o Ministério da Educação cancelasse o projeto. Afirmou que seu governo “não faria propaganda de opções sexuais”. Deu, assim, a primeira vitória política a Bolsonaro. A batalha em torno do “Escola sem homofobia” tirou Bolsonaro dos bastidores. O deputado passou a ser presença constante na mídia brasileira. Deu uma série de entrevistas ao CQC, programa de humor da TV Bandeirantes, que esteve no ar entre 2008 e 2015.

Rafael Cortez: Você apoiaria a ditadura militar se ela acontecesse hoje no nosso país?

Jair Bolsonaro:
Nos moldes de 64, sim. E achei, achei não, tenho certeza que foi excelente para o Brasil. Excelente. Até porque que ditadura foi aquela que nenhum tiro foi dado, tivemos paredão, o povo tinha liberdade de ir e vir.

Participou de programas de auditório na TV aberta, como o Superpop, de Luciana Gimenez, na RedeTV!

Jair Bolsonaro:
Desenho animado…Eu estou com um público aqui que acredito que a idade média seja 18 anos. Acredito, tá ok? Talvez um pouquinhos menos. Quantos aqui assistem desenho animado? Poucos assistem. O natural é a molecada de 12, 10.. É natural nessa idade. Não é natural, normal, nós, eu principalmente, vocês aqui da frente, assistirem desenho animado. Por exemplo, o governo aqui está lançando agora, está em cartaz em vários locais do Brasil: Diversidade em animação, 3º Festival Internacional LGBT. Isso é para os nossos filhos. É justo o governo preparar material didático… Eu discutiria durante 10 horas contigo os 180 itens baixados pela secretária de direitos humanos, Maria do Rosário, de apoio à população LGBT, que não está apoiando vocês aqui, nem direita, nem esquerda, a grande maioria daqueles itens está entrando nas escolas do 1º grau com este material.

E, assim, arregimentou novos seguidores nas redes sociais. Resultado: em 2014, Bolsonaro foi eleito para sua sétima e última legislativa com 464 mil votos, quatro vezes o número que havia obtido em 2010, em pleno auge do PT no poder.

FIM

Esta foi a primeira parte da reportagem “Bolsonaro: um mito em crise permanente”, escrita pelo Danilo Tomaz, a partir do Rio de Janeiro.

A segunda parte será publicada na próxima quinta-feira, 11 de abril.

Na equipa de Lisboa, o Pedro Miguel Santos e o Ricardo Esteves Ribeiro, fizeram a edição de texto. O Bernardo Afonso fez a edição de som.

Além disso, ouvimos excertos de músicas dos seguintes autores:

Almirante & Bando de Tangarás – G e Ge (Seu Getúlio)
Ataulfo Alves – Atire a primeira pedra
Cartola – Preciso Me Encontrar
Chiquinha Gonzaga – Corta-jaca e Ô abre alas!
Noel Rosa – Com que Roupa, Filosofia, Onde está a Honestidade, Positivismo
Ismael Silva – Para Me Livrar Do Mal
Radamés Gnattali e Laurindo de Almeida – Toada

Também ouvimos excertos de trabalhos jornalísticos da Globo News e da Folha de São Paulo.

Fazem ainda parte da equipa Fumaça a Ana Freitas, Frederico Raposo, Joana Batista, Margarida David Cardoso, Maria Almeida, Mo Tafech, Sofia Rocha, Tomás Pereira e Tomás Pinho.

NOTAS DO AUTOR:

* O Brasil contou, ainda, com outras duas juntas compostas por três militares cada: em 1961, após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, poucos meses após o início de seu governo; e em 1964, após o golpe civil-militar que derrubou o presidente João Goulart, vice e substituto de Jânio Quadros. No entanto, nas duas ocasiões, quem ocupava formalmente o cargo de presidente da República era o presidente da Câmara dos Deputados, Pascoal Ranieri Mazzilli, do Partido Social Democrático (PSD) de São Paulo, o segundo na linha sucessória. Um dos militares que fez parte da Junta de 1964 era o general Artur da Costa e Silva, que viria a ser o segundo presidente do período da ditadura civil-militar (1964-85), governando o Brasil de 15 de março de 1967 a 31 de agosto de 1969. Fonte: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/juntas-militares

** Fundado em 1966, durante a ditadura civil-militar para ser a oposição “autorizada” ao regime, o Movimento Democrático Brasileiro – MDB, manteve esta nomenclatura até 1979, quando passou a se chamar Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Em 19 de dezembro de 2017, o partido decidiu, em convenção, voltar a chamar-se MDB. Para facilitar a leitura e escuta da peça, a edição optou por utilizar a nomenclatura atual, mesmo no que se refere a períodos anteriores a 19 de dezembro de 2017.

Fontes:
https://g1.globo.com/politica/noticia/pmdb-aprova-mudanca-de-nome-e-passa-a-ser-chamado-mdb.ghtml  

http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/movimento-democratico-brasileiro-mdb

Edição
  1. Pedro Miguel Santos
  2. Ricardo Esteves Ribeiro
Edição de som
  1. Bernardo Afonso
Preparação
  1. Pedro Miguel Santos
  2. Danilo Thomaz
  3. Ricardo Esteves Ribeiro
Reportagem
  1. Danilo Thomaz
Texto
  1. Danilo Thomaz
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