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Jornalismo independente
progressista e dissidente

4 Outubro, 2018

Fotografia
Ricardo Esteves Ribeiro

Reportagem
Ricardo Esteves Ribeiro

Texto
Ricardo Esteves Ribeiro

Edição
Pedro Miguel Santos

Som
Bernardo Afonso
Ricardo Esteves Ribeiro

reportagem

Direito à Habitação

Bairro 6 de Maio: ordem para dividir

No dia 5 de setembro, cerca de 40 pessoas entraram pelo Instituto de Habitação e Requalificação Urbana (IHRU), em Lisboa, determinadas a ocupá-lo até que se fizesse justiça, disseram. A maioria era ou foi residente no Bairro 6 de Maio, na Amadora. Têm sofrido, há anos, demolições que deixam dezenas de famílias desalojadas sem qualquer alternativa que considerem digna. Apenas uns dias ou meses num albergue camarário ou a caução e um mês de renda num quarto ou apartamento, se o conseguirem encontrar.

A maioria das casas foi construída com as próprias mãos, depois de terem imigrado das ex-colónias até Portugal, à procura de uma vida melhor. Foi o caso de Avelino Soares, 53 anos, que veio de Cabo Verde, em 1999. Há 17 juntou-se ao Bairro 6 de Maio que na altura teria centenas de famílias, e construiu a casa onde viveu até fevereiro de 2017, quando foi surpreendido pela chegada de técnicos da Câmara, agentes da PSP e máquinas para demolir as casas.

Avelino sabia que um dia seria obrigado a sair. “Lei é lei”, diz várias vezes. Não contava – ou gostava de não acreditar, já que é algo tão recorrente -, que a troika aparecesse sem aviso: “Eu já sabia [que seria despejado]”. Uns meses antes, disse-o a um funcionário da Câmara Municipal da Amadora: “Não tem problema. Mas no dia em que vocês forem lá para demolir a casa, avisem-me para eu tirar as minhas coisas lá de dentro e depois eu dou a casa para demolir”.

São dezenas os testemunhos de residentes do Bairro de 6 de Maio que contam histórias parecidas. Muitas vezes de manhã, ainda antes das nove, são surpreendidos pela notícia de que têm de sair rapidamente, tirar o que conseguirem, e desaparecer do bairro para sempre. Rafaela Tavares, mora lá não sabe durante quanto mais tempo: “Tenho tudo em sacos, em caixas, com medo que me atirem para a rua e me tragam a polícia toda, como fizeram aos nossos vizinhos”.

Avelino Soares, no tal dia de fevereiro, tentou retirar tudo o que conseguiu de dentro de casa. Mas, segundo contou, foi impedido de entrar na sua própria casa. Foi agredido pela polícia, levado até à esquadra, e depois ao hospital, onde ficou durante três dias.

Avelino – um dos que ocupou o IHRU com mais quatro dezenas de pessoas – espera ainda uma solução para o seu despejo. Como não pertence à lista de pessoas recenseadas em 1993, no Programa Especial de Realojamento, não tem direito a casa. Foi o que aconteceu às pessoas que, estando na mesma situação, foram forçadas a sair do bairro. Até agora. No final do último agosto, algumas das cerca de 30 famílias que ainda vivem no 6 de Maio, por entre os escombros que a Câmara Municipal da Amadora (CMA) vai produzindo, receberam uma carta anunciando que a autarquia e o IHRU tinham celebrado um protocolo. Ou seja, quem reside ainda no bairro e não foi despejado, poderá ter solução. Mas quem foi despejado ao longo dos últimos anos, nada terá.

O IHRU, em resposta ao Fumaça, a 3 de outubro, confirma a existência desse acordo: “para disponibilizar soluções habitacionais para 24 agregados familiares residentes no Bairro 6 de Maio, que não se encontravam abrangidos pelo PER (…) o IHRU irá disponibilizar fogos do seu património, que estejam disponíveis e que se localizem na Área Metropolitana de Lisboa, para acolher os agregados familiares identificados e cuja situação habitacional se encontra por resolver. Mais se informa que os agregados identificados correspondem aos agregados em que foi efetivamente possível comprovar a situação de carência habitacional em que se encontravam, na sequência de uma análise cuidada dos processos individuais”.

A carta recebida podia significar uma vitória – afinal, a luta que moradores e ativistas travam há anos trazia solução para alguns. Mas não é bem assim. “Nós estamos numa luta junta”, dizia Cátia Silva, uma das pessoas que recebeu a tal missiva. “Quando entrei nesta luta, as pessoas já cá estavam e dói-me, custa-me ver que estas pessoas que estavam na luta muito antes não serão realojadas. Ou seja, esta luta é uma luta conjunta. Não vou, não vou deixar. Porque vou ser realojada não vou deixar de lutar pelos outros”.

O Fumaça esteve no IHRU durante as mais de cinco horas de ocupação. O conselho da direção do Instituto recusou a reunião, pedindo que os encontros fossem previamente agendados. A polícia chegou, pelas seis da tarde. Depois de duas horas de resistência, um a um, as moradoras e os moradores e do 6 de Maio, escreveram uma reclamação ao Instituto, antes de saírem, sem qualquer promessa. Nesta reportagem, “Bairro 6 de Maio: ordem para dividir”, contamos a história de algumas destas pessoas.

 

Música do genérico: Lotus Fever
Banda sonora: No Tchiga, de Raiz di Guetto; Dias de Bairro, de Beto di Ghetto; Longa Móh e Ghetto Six Damaia, de Baby Dog; Na Correria, de Vado.

 

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