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progressista e dissidente

11 Maio, 2018



reportagem

Racismo

Pombal, esta cidade não é para ciganos

Fotografias: Frederico Raposo/É Apenas Fumaça

A guetização é um processo deliberado. Não acontece sem querer. É preciso querer que aconteça. A Porto Editora define-a como a “colocação ou isolamento em guetos como forma de afastar ou mesmo excluir do contacto social determinados setores da sociedade”.

Em 2007, a Câmara Municipal de Pombal, cidade do distrito de Leiria, inaugurou um novo bairro para realojar dezenas de famílias ciganas que, até então, residiam em habitações ilegais, precárias, autoconstruídas, numa das margens do Rio Arunca, um curso de água que nasce naquele mesmo concelho e desagua no Mondego. É o Bairro Margens do Arunca. Casas dignas, finalmente – assim parecia no início.

(Ouve aqui a reportagem)

Mas esta é a outra margem.

O terreno em frente àquele que a comunidade cigana ocupava e que utilizava nas suas deslocações para a cidade, iniciou, naquela altura, um processo de loteamento. A urbanização prevista ia tirar partido da localização central e da proximidade ao rio. Os serviços que a cidade oferecia continuavam ali, a dois passos de distância, tal como quando lá residia a comunidade cigana. Volvidos dez anos, a urbanização continua a ser construída, lentamente.

Mas esta é a história da outra margem.

Na outra margem do Arunca, há um pedaço de terra enclausurado. Rodeiam-no o IC2 – a antiga Estrada Nacional número 1 -, mas também uma linha de comboios, uma densa zona industrial e, claro, o rio. Se antes a comunidade fazia parte da cidade, porque integrava o tecido urbano, agora foi-lhe dada ordem de reclusão.

São 300 metros, dali ao supermercado. Para lá chegar em segurança, os moradores do Margens do Arunca têm de percorrer mais de dois quilómetros. Ficar em casa ou arriscar? Muitos arriscam todos os dias, têm de o fazer. A situação perdura “enquanto não morrer aqui alguém”, dizia-nos, junto àquela estrada, uma mulher cigana. O Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano (PEDU) de Pombal define como objetivo a promoção da “acessibilidade a todos os cidadãos, em particular ao espaço público”. Mas aqui, a acessibilidade é a mesma de um beco.

O IC2, com o seu tráfego intenso, veículos pesados e velocidade elevada, separa o bairro da cidade. Enclausura os seus moradores e ergue obstáculos físicos entre pombalenses ciganos e pombalenses não ciganos. Hoje tudo está como há 11 anos, altura em que o bairro recebia os primeiros moradores. Ou quase tudo. Ainda em 2007, foram os jovens do bairro a escavar o túnel que a autarquia lhes fechou. Mas o tempo que passou revelou-se insuficiente para construir uma passadeira que permitisse atravessar o IC2 em segurança. Não foi também suficiente para que se construísse uma passagem superior, assim como não foi suficiente para a construção dos equipamentos de recreio prometidos há muito e desde sempre reclamados pelas crianças. Hoje, as habitações revelam problemas de construção sérios. A humidade, num bairro construído em leito de cheia, é uma ameaça à saúde de todos os que ali vivem.

O município de Pombal venceu, recentemente, uma candidatura ao programa Escolhas, um programa de promoção da inclusão social de jovens e crianças de contextos socioeconómicos vulneráveis. Na Assembleia Municipal que teve lugar a 6 de abril de 2018, o presidente da autarquia, Diogo Mateus, eleito pelo PSD, fez questão de notar o papel deste programa nas “intervenções que têm sido desenvolvidas com o agrupamento de escolas para os pais e para os filhos com uma abordagem preventiva de absentismo e abandono escolar”.

Mas Madaíl Reis, um jovem do Bairro Margens do Arunca, tem 15 anos e sempre que leva o irmão mais pequeno para a escola, tem “medo de passar a estrada com ele”. Tem “de dar a volta a Pombal”. Por agora, de pouco lhe serve o programa Escolhas.

Esta é uma história de guetização.

Texto: Frederico Raposo
Reportagem: Bernardo Afonso e Frederico Raposo
Edição: Bernardo Afonso, Frederico Raposo e Pedro Santos

NOTA
Fomos alertados pelas pessoas que nos ouvem e lêem de que havia algumas imprecisões nesta reportagem. Ouvimos, confirmámos e fazemos aqui o devido reparo.
As nossas desculpas pelo sucedido.

TEXTO – Onde era possível ler-se “O terreno que deixaram, iniciou, naquela altura, um processo de loteamento”, lê-se, agora, “O terreno em frente àquele que a comunidade cigana ocupava e que utilizava nas suas deslocações para a cidade, iniciou, naquela altura, um processo de loteamento”.

ÁUDIO – Há um erro na descrição feita da “Urbanização das Cegonhas”. Ouve-se, a partir dos 03:09 minutos: “encostados a uma propriedade para onde estava planeada a construção de um condomínio de luxo que foi erguido e onde hoje vivem centenas de pessoas”. Na realidade há apenas um prédio construído nesta urbanização e onde vários habitantes nos disseram que não moraria ninguém. A churrasqueira que havia no rés-do-chão fechou.
Nos últimos meses, as máquinas voltaram e há trabalhos para erguer novos edifícios.
Se todos os blocos de apartamentos estivessem construídos viveriam ali certamente várias centenas de pessoas. Não é, de longe, o caso.

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