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A Serpente, o Leão e o Caçador (Extra)

Lúcia Bayan: “Se há alguém com que podemos aprender sobre a defesa do ambiente é com as populações indígenas”

2 Abril 2020
06:00

“Por volta do século X, dois irmãos, Arog e Djame, fundaram a vila Arame, no norte da Guiné-Bissau. Um dia, Djame deixou a vila para caçar e chegou a uma pequena ilha. Atraído por sua condição natural, favorável ao cultivo e pesca de arroz, ele decidiu ficar e criar sua própria vila, chamada Djobel.

Djobel consiste em pequenas ilhas, cada uma com quatro ou cinco casas, e o movimento entre elas é feito em pequenas canoas. Durante esses onze séculos, os habitantes de Djobel adaptaram-se bem à água e aos mangais que os cercam. (…) Atualmente, devido às alterações climáticas, Djobel está à beira da extinção! O mar está a subir e a inundar Djobel e, segundo especialistas, subirá muito mais nos próximos anos, fazendo a aldeia desaparecer.

O povo de Djobel está com medo! Eles não sabem como salvar as suas casas e a sua vila.”

Estas linhas foram escritas por Zam (Sambu) Cudé, professor natural de Budjim, uma aldeia no extremo noroeste da Guiné-Bissau, perto da fronteira com o Senegal. O texto, com o título “Biografia de uma pequena aldeia”, conta como em Djobel, ao longo de onze séculos, homens e mulheres aprenderam a viver entre a água e os mangais; como aperfeiçoaram a construção de diques, o cultivo de arroz, a pesca, a criação de ostras, e como isso lhes valia as visitas de habitantes de aldeias vizinhas. Depois da constatação do medo que a crise climática trouxe, ele pergunta:

“Djobel, uma pequena vila muito longe dos benefícios do desenvolvimento, será por si só capaz de lidar com as consequências da irresponsabilidade do mundo, especialmente dos países desenvolvidos?”

Lúcia Bayan enviou-me este texto entre dezenas de fotos da aldeia que o mar quer engolir. Doutoranda em Estudos Africanos do ISCTE, em Lisboa, dedica-se há mais de uma década ao estudo das sociedades e do sistema político felupe – uma etnia dominante entre as margens do rio Cacheu, na Guiné-Bissau, e a região mais oeste de Casamança, no Senegal.  Podes ouvi-la no episódio “A Serpente”, o primeiro da série “A Serpente, o Leão e o Caçador”. Agora publicamos parte da entrevista que fiz há uns meses a Lúcia Bayan sobre a vida em Djobel, as sociedades de etnia felupe e a sua ligação ao ambiente.

Edição
  1. Ricardo Esteves Ribeiro
Entrevista
  1. Margarida David Cardoso
Imagem
  1. Joana Batista
Som
  1. Bernardo Afonso
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