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Jornalismo independente
progressista e dissidente

29 Março, 2018

Apenas Fumaça

reportagem

Rock in Riot. Bater o pé à especulação imobiliária

Fotografias: Frederico Raposo/É Apenas Fumaça

Foi bonita a festa, pá. Pessoas a dançar, aos beijos, aos pulos. Em abraços demorados de quem não se vê há muito. Aos gritos, a tirar fotografias. Bandas de rock a atuar em palcos-móveis a que costumamos chamar carrinhas de caixa aberta: dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS, Hezbó MC, Igwana, PUMA, Vaiapraia e as Rainhas do Baile, Violent Pup e Terra Livre.
Na carrinha, perdão, no Palco Molotov Dance Street, as colunas despejavam decibéis e decibéis escolhidos por uma misturada de DJs: Ayala, Candy Diaz, Celeste Mariposa, Jitterrr, Mystic Fyah, Naomi, Guilhotina Cumbiera, Taxila e Yari. House, trance, drum ‘n’ bass, eletrocumbia e mais um sem número de estilos eletrónicos.
Mais abaixo, em cima da Piano 4×4, a garotada brincava com um teclado, tocava guizos e ferrinhos. Havia ainda quem tocasse a desfilar: um acordeão, flautas, gaitas-de-foles, grupos de batuque, pandeiretas.
Tira o pé do chão minha gente, diria a Ivete Sangalo. A gente tirou.
Os agentes de Polícia é que não dançaram. Uma farda é uma farda e a postura, já se sabe, é tudo. Pelos muitos olhares de reprovação e desprezo com que miravam a celebração não havia grandes dúvidas de que o povo que ocupava as ruas não lhes merecia grande simpatia. Anarquistas e forças de segurança nunca se deram muito bem. Ainda para mais num evento chamado Riot, motim ou tumulto, em inglês.
Percebia-se-lhes o desconforto. Mesmo em silêncio, a linguagem não verbal, às vezes, grita mais do que megafones.
Uma rave estava a ter lugar em plena Avenida Almirante Reis, uma das artérias principais que desaguam no coração da Lisboa turística. Talvez pouca gente estivesse à espera disto.
Isto, que se passou no último sábado, 24, exatamente a três meses do famoso festival Rock in Rio Lisboa, foi o Rock in Riot. Um protesto-festa com o lema “Ocupar as Ruas, Reclamar a Cidade”.

(Ouve aqui a reportagem:)

Emma Goldman, teria adorado. Foi uma das primeiras feministas anarquistas. Nasceu em 1869 em Kaunas, segunda cidade da atual Lituânia, no tempo em que ainda havia Império Russo e o país estava sob domínio do Czar Alexandre III. Pela internet, onde se sabe tudo, atribui-se-lhe uma frase famosa, mais ou menos assim,: “Se eu não puder dançar, esta não é a minha revolução”. Podia ser esta a frase resumo do Rock in Riot.
Contudo, a internet também explica que o lema é apócrifo. Não há nada na obra de Goldman escrito desta maneira. Mas há diversas ideias e pensamento produzido por esta mulher que é certamente partilhado por muitas das pessoas que desfilaram avenida abaixo.
Emma batia-se pela liberdade de expressão, pelo direito ao aborto, pela igualdade, pela independência das mulheres, pela organização sindical e direitos laborais. Toda a vida participou e inspirou movimentos sociais. Acompanhou acontecimentos históricos, como a Revolução Russa ou a Guerra Civil Espanhola. Viveu grande parte da vida nos Estados Unidos da América mas, por causa das suas ideias, foi presa. Em 1919 é expulsa da terra do Tio Sam e deportada para a recém criada República Soviética Russa, nascida das Revolução de Outubro de 1917. Correu a Europa e o mundo espalhando as suas propostas radicais para resolver os problemas do mundo. Morreu a 14 de maio de 1940, em Toronto, Canadá, o mesmo dia em que a Holanda se rendia à Alemanha nazi.

O manifesto do evento deixa poucas dúvidas sobre as razões da parada-manif:

A modernização de Lisboa nas últimas décadas tem vindo a redesenhar o território metropolitano enquanto um gigantesco negócio. Os espaços que outrora eram vividos colectivamente estão agora reconfigurados enquanto mero meio de criar dinheiro e as infraestruturas que visavam organizar a vida colectiva parecem agora apenas organizar a velocidade das interacções económicas.
O preço da habitação disparou, assim como dispararam os despejos. Encontrar casa para viver é difícil e nenhum inquilino se sente seguro. A habitação deixou de ser o local onde vivemos para se tornar num investimento. Por isso há cada vez mais casas não habitadas, casas com janelas emparedadas e cada vez menos sítios para viver.
A cidade é um bem comum, colectivamente produzido por todos os que nela habitam. Um pouco por todo o lado surgem processos de resistência que procuram salvaguardar e organizar os restos de comunidade que sobrevivem por entre a especulação e a comercialização de todos os aspectos da vida. Contra eles, o poder encontra sempre novas formas de sistematizar, separar, atomizar e dividir as populações.
Uma perspectiva alargada da cidade torna claro que o aumento dos preços da habitação é fruto dos negócios partilhados entre banca, fundos imobiliários e o poder autárquico; a expulsão das populações mais pobres e marginalizadas do centro; a gestão policial dos bairros das periferias e o policiamento de comportamentos e expressões corporais no espaço público; ou a privatização de ruas, praças, jardins e teatros municipais não são fenómenos separados, mas constituem expressão da forma como o espaço urbano se tornou numa máquina produtora de capital.
Contra esta lógica, vamos estar em festa na rua no dia 24 de março, entre a Alameda e o Intendente. Para mostrar que não concordamos com as políticas e a gestão que os poderes públicos têm feito da cidade e metrópole de Lisboa, nem com o papel que essas políticas nos atribuem. Fazendo uso da rua, afirmamos uma reapropriação da cidade.

A cidade foi mesmo tomada. Uma pequena, mas importante zona da Capital, cedeu temporariamente. Para os donos de cafés, pastelarias, lojas de conveniência e papelarias, dias de muita gente na rua são sempre sinónimo de bom negócio. Fumou-se bem, bebeu-se melhor. E embora não houvesse muitas palavras de ordem gritadas, elas liam-se, pintadas em grandes faixas:

Afinal queremos tudo
Depois de Passos? Passos de samba na cara da especulação
3878 casa devolutas. 1480 famílias despejadas
Hostil à cidade-hostel
Okupa Lisboa
Capataz e senhorio, vai tudo de fio a pavio
Tirem as mãos das nossas casas
Não somos especuladores, somos espectaculares

Nem só de ironia se faz uma reivindicação. A Assembleia de moradores dos bairros da Torre e da Quinta da Fonte, em Loures, do Bairro 6 de maio, na Amadora, e do bairro da Jamaica, do outro lado do rio, no Seixal, trouxeram uma faixa conjunta que tinha apenas 3 palavras, escritas a cor de rosa: “Luz, casas, água”. Se lhes tirassem uma foto, a preto e branco, e disséssemos que a imagem era de 1974, ninguém desconfiaria. Nessa altura o Sérgio Godinho chamou-lhe Liberdade.

O ajuntamento começou tímido, por volta das duas da tarde, nos jardins da Alameda Dom Afonso Henriques. Fazia um vento frio e chuviscava. Foi engrossando e pelas quatro e pouco da tarde arrancava Almirante Reis abaixo, em direção à Praça do Martim Moniz, para dar a volta e terminar no Largo do Intendente. Um percurso com pouco mais de três quilómetros, que se faz a pé, calmamente, em 45 minutos, levou dez vezes mais tempo, complicando a vida a automobilistas e a autocarros turísticos. Como com o Poder, não há vazios. Ocuparam-no as pessoas, animais, bicicletas, instalações móveis feitas com carrinhos de supermercado.
O cenário da festa tinha começado antes, de madrugada. Pósteres enormes foram colados em paragens de autocarros e por cima dos suportes de publicidade. Lia-se:

Okupação escreve-se com K
Compra tudo, que não és capaz de fazer nada
Indomáveis contra a vossa higienização podre
A publicidade nem sequer dá para limpar o cu
Fuck You Photo Selfie Tourist
Não façasjisso / Vai estudar, Quem não trabuka não manduka / Quem não extuda não é ninguém / Liga a TV e vai pó Facebook

As mensagens, mais agressivas, têm o dedo do movimento anarquista que se concentra nesta zona da cidade, além das sedes de partidos como o MAS, o Bloco de Esquerda, o Livre ou o PAN. Entre ativistas, militantes e simpatizantes de causas várias, a zona é conhecida como “Comuna de Arroios”.

“Guida Gorda” é Margarida Martins, atual presidente da Junta de Freguesia de Arroios, eleita pelo Partido Socialista, a cumprir o seu segundo mandato. Nos anos 80 era porteira no bar Frágil, no Bairro Alto, local de vanguarda onde se juntavam políticos, intelectuais, artistas, jornalistas e toda a gente estranha da cidade. Manuel Reis, fundador do espaço, morreu este domingo. Hoje, mais institucional, “Guida” desperta azedumes q.b. na freguesia, sobretudo pela sua difícil relação com o espaço comunitário auto-organizado, conhecido como RDA, por ficar no Regueirão dos Anjos, n.º 69, paralelo à Almirante Reis, nas traseiras do Banco de Portugal.
Ainda assim, nada comparado à raiva que desperta o seu camarada de partido, Manuel Salgado, vereador do Planeamento, Urbanismo, Património e Obras Municipais da Câmara Municipal de Lisboa. É oficiosa e depreciativamente chamado, em alguns destes movimentos, como o “novo marquês de Pombal”. À medida que o cortejo foi avançando, colavam-se cartazes com montagens fotográficas a partir da sua cara e a frase: “Salgado? Não, obrigado!.”
O prédio que durante meses esteve ocupado na rua Marques da Silva, 69, foi emparedado no final de Janeiro, por ordem do arquitecto. À passagem por esta perpendicular à Almirante Reis ouviram-se gritos e assobios. O Hotel Czar, ali perto, serviu como alvo da frustração. Balões de água, cheios de tinta branca,foram atirados contra as suas fachadas envidraçadas.
O forte aparato da PSP ou não viu ou não o conseguiu impedir. Como também não evitou que fossem sendo pintadas inscrições com o logótipo e nome da STOP Despejos, uma aliança formada pelos coletivos Habita, Rede Solidariedade, Gaia – Associação Ecologista e Comissão de Moradores da Rua dos Lagares, que tentam evitar a expulsão de habitantes dos bairros da cidade. Uma tarefa difícil, contra o explosivo cocktail formado pela Lei das Rendas, pelos vistos gold, o alojamento local e o regime fiscal dos residentes não habituais.

À hora a que dá o Telejornal dançava-se a bom ritmo no Largo do Intendente. Durante décadas conhecido como sítio de má fama – por causa do tráfico e consumo de droga e da prostituição – passou a ser o símbolo máximo da gentrificação lisboeta: bares e café da moda, lojas de produtos portugueses para carteiras de origem estrangeira.
Com o barulho, os hóspedes apareciam às janelas do hotel 1908, um quatro estrelas aberto no ano passado, num belíssimo edifício arte nova, e olhavam com ar atarantado para o inesperado espetáculo que os indígenas davam no terreiro. Já no restaurante da unidade hoteleira, chamado Infame, pouco ou nenhum espanto. Os clientes, maioritariamente turistas, ignoravam o que acontecia lá fora, apreciando o seu copo de vinho e os costumeiros polvo e bacalhau.
Tudo very typical, como dizia um cartão colado à trotineta de um participante no desfile. “Very Tipical Tour By Alfama Zoo. Very safe interaction with the locals.” Trajava ao estilo Zé Povinho e transportava uma coluna portátil a ecoar música pimba.

Para quem ficou no Largo e tinha fome a “Cozinha contra a Gentrificação”, montada numa rulote, servia lentilhas estufadas à indiana, arroz de coentros e bróculos. Um monte de comida vegan, amparado num prato de papel, com direito a garfo feito de bioplástico biodegradável. Preço? Não havia. Cada pessoa era convidada a deixar os euros que tivesse, quisesse ou pudesse.

Pelas 21h00 deu-se o momento alto da noite, na fachada do número 48, do antigo palácio do Intendente de Pina Manique. É nesse edifício que uma vistosa tira amarela, que já faz parte da imagem do Largo, identifica a sede do “Sport Clube Intendente, fundado em 01-06-1933.”
O prédio é propriedade das sociedades de investimento imobiliário Vogue Homes e da RAN Capital, que o hão-de transformar em habitação de luxo e colocaram também uma tela na frontaria onde se lia “Promoção Imobiliária”.
Foi sobre essa mensagem, que a organização do Rock in Riot desfraldou uma nova frase. “Sambando na cara dos especuladores”.

Por falar em samba, Ivete Sangalo atua no palco mundo do Rock in Rio Lisboa, no dia 30 de junho.

Reportagem: Frederico Raposo (fotos) e Pedro Santos (texto e edição)
Montagem e mistura de som: Bernardo Afonso

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