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Imprensa Regional

Imprensa regional: “Há muito consumidor que continua dependente da necrologia.”

3 Maio 2018
15:51

Tinha economia. “E chegados ao alto de uma colina, disse Jesus aos seus discípulos: «Em verdade vos digo que mais facilmente entrarão no reino dos Céus o Manuel de Melo, o António Champalimaud e o Belmiro de Azevedo do que passará um camelo pelo túnel da Gardunha»”.

Tinha protagonistas regionais. “O governador civil de Castelo Branco, os presidentes das câmaras de Belmonte, Covilhã e Fundão, dois deputados acordados, perguntaram ao ministro das Obras Públicas: – Sobre o túnel da Gardunha, ainda não sabemos nada!. Respondeu o ministro: – Nem eu!”.

Tinha política internacional. “Telegrama de George Bush hoje recebido no Ministério dos Negócios Estrangeiros: «Sei da obra do grande túnel da Gardunha que o vosso Primeiro Ministro prometeu a 27 de Abril de 1991. Espero que me convidem para a inauguração»”

Durante 78 semanas, o Jornal do Fundão (JF) publicou na sua primeira página um quadrado vazio chamado “O Túnel”. Esta rubrica, ilustrada com um quadrilátero cheio de nada, tinha toda a sua força na ironia e sátira das legendas mordazes que punham em cheque uma promessa de Aníbal Cavaco Silva, feita numa visita a Castelo Branco, durante a campanha eleitoral desse ano: a construção do Túnel da Gardunha.

Em 1991, o país tinha 474 quilómetros de autoestradas, bem distantes dos 3.065, de 2015, segundo dados apresentados pela Pordata. Se uns anos antes, no álbum “88”, os Xutos e Pontapés já se queixavam de que “De Bragança a Lisboa/São 9 Horas de distância”, do Fundão à capital continuavam a ser precisas mais de sete horas.

António Palouro, mítico fundador e diretor deste semanário da Cova da Beira, até 2002, ano da sua morte, assumiu a cobrança das promessas dos políticos dando, mais uma vez, lugar de destaque a um órgão de comunicação social regional que soube sempre ultrapassar as barreiras que as Serras da Estrela e da Gardunha impunham.

Chegou às bancas a 27 de janeiro de 1946, “sem ódios nem ambições, com a clara noção de que podemos querer, procuraremos servir o Concelho, firmes na ideia de que servi-lo não é apenas conseguir a satisfação de realizações materiais mas sim a valorização espiritual, física e material dos seus habitantes”, como se lia no seu editorial.

Assumiu-se como baluarte dos interesses de uma região, mas também da luta contra a ditadura e a censura. “Ainda tenho uma imagem de miúdo de um Portugal rural, descalço, enlameado, sem estradas, sem luz, sem eletricidade, sem saneamento básico, sujo, sem habitação. E é em nome desse Portugal que o Jornal do Fundão começa a falar. Não necessariamente na perspetiva do coitadinho, mas na perspetiva de sujeitos ativos, que exigem direitos”, conta-nos João Carlos Correia, investigador em Ciências da Comunicação na Universidade da Beira Interior (UBI), Covilhã, onde dá aulas.

Coordenador do projeto “Remedia.Lab – Laboratório e Incubadora de Media Regionais”, cujo objetivo é ajudar a fortalecer e modernizar os meios de comunicação social regionais, é um profundo conhecedor da imprensa local. Falámos com ele em abril, nos estúdios onde são produzidas a rádio e a televisão universitárias da UBI. Sobre a riqueza da história do Jornal do Fundão, precisaríamos de “outra entrevista”, garante.

O percurso ímpar deste órgão de comunicação social regional, negócio-causa da família Palouro, até há poucos dias, fez-se também pela aposta no jornalismo cultural, chamariz de escritores, intelectuais e artistas. José Cardoso Pires, Vítor Silva Tavares, José Saramago, Carlos Drummond de Andrade, entre outros, editaram aqui suplementos, publicaram textos inéditos, organizaram eventos, pensaram o país e o mundo. Os detalhes desta bonita aventura jornalística lêem-se de uma assentada na tese de mestrado de Eduardo Alves: “Jornal do Fundão: jornalismo de causas, cultura e identidade”, publicada em 2009, pela Faculdade de Artes e Letras da UBI.

Um jornal com espinha dorsal, reconhecida pela atribuição da Ordem do Infante D. Henrique, que distingue “quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no País e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores”. Uma distinção de que não se podem gabar muitas publicações.

O JF sempre se afirmou como oásis de vitalidade no panorama da comunicação social regional nacional, face a problemas cronicamente identificados: recursos escassos, deficiências na formação de profissionais, dependência e condicionamento dos poderes paroquiais – fossem locais ou nacionais.

Nos últimos 20 anos, Portugal perdeu perto de quatro centenas de jornais, revistas e rádios locais. Que importância têm, hoje, os meios de comunicação social “da terra”? Que dificuldades e sucessos reportam? Quem os consome e porquê? E as suas redações são mais ou menos vulneráveis aos caciques que as dos órgãos nacionais, de maiores dimensões?

A imprensa regional tem futuro? Ou são as notícias locais que têm futuro?

Fotografia: Portal da Comunicação Social

Edição de texto
  1. Ricardo Esteves Ribeiro
Entrevista
  1. Pedro Miguel Santos
Preparação
  1. Bernardo Afonso
  2. Pedro Miguel Santos
  3. Ricardo Esteves Ribeiro
Som
  1. Bernardo Afonso
Texto
  1. Pedro Miguel Santos
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