Menu
Jornalismo independente
progressista e dissidente

3 Maio, 2018



entrevista > é apenas fumaça

João Carlos Correia sobre imprensa regional

Untitled-design
Fotografia: Portal da Comunicação Social

Tinha economia. “E chegados ao alto de uma colina, disse Jesus aos seus discípulos: «Em verdade vos digo que mais facilmente entrarão no reino dos Céus o Manuel de Melo, o António Champalimaud e o Belmiro de Azevedo do que passará um camelo pelo túnel da Gardunha»”.

Tinha protagonistas regionais. “O governador civil de Castelo Branco, os presidentes das câmaras de Belmonte, Covilhã e Fundão, dois deputados acordados, perguntaram ao ministro das Obras Públicas: – Sobre o túnel da Gardunha, ainda não sabemos nada!. Respondeu o ministro: – Nem eu!”.

Tinha política internacional. “Telegrama de George Bush hoje recebido no Ministério dos Negócios Estrangeiros: «Sei da obra do grande túnel da Gardunha que o vosso Primeiro Ministro prometeu a 27 de Abril de 1991. Espero que me convidem para a inauguração»”

Durante 78 semanas, o Jornal do Fundão (JF) publicou na sua primeira página um quadrado vazio chamado “O Túnel”. Esta rubrica, ilustrada com um quadrilátero cheio de nada, tinha toda a sua força na ironia e sátira das legendas mordazes que punham em cheque uma promessa de Aníbal Cavaco Silva, feita numa visita a Castelo Branco, durante a campanha eleitoral desse ano: a construção do Túnel da Gardunha.

Em 1991, o país tinha 474 quilómetros de autoestradas, bem distantes dos 3.065, de 2015, segundo dados apresentados pela Pordata. Se uns anos antes, no álbum “88”, os Xutos e Pontapés já se queixavam de que “De Bragança a Lisboa/São 9 Horas de distância”, do Fundão à capital continuavam a ser precisas mais de sete horas.

António Palouro, mítico fundador e diretor deste semanário da Cova da Beira, até 2002, ano da sua morte, assumiu a cobrança das promessas dos políticos dando, mais uma vez, lugar de destaque a um órgão de comunicação social regional que soube sempre ultrapassar as barreiras que as Serras da Estrela e da Gardunha impunham.

Chegou às bancas a 27 de janeiro de 1946, “sem ódios nem ambições, com a clara noção de que podemos querer, procuraremos servir o Concelho, firmes na ideia de que servi-lo não é apenas conseguir a satisfação de realizações materiais mas sim a valorização espiritual, física e material dos seus habitantes”, como se lia no seu editorial.

Assumiu-se como baluarte dos interesses de uma região, mas também da luta contra a ditadura e a censura. “Ainda tenho uma imagem de miúdo de um Portugal rural, descalço, enlameado, sem estradas, sem luz, sem eletricidade, sem saneamento básico, sujo, sem habitação. E é em nome desse Portugal que o Jornal do Fundão começa a falar. Não necessariamente na perspetiva do coitadinho, mas na perspetiva de sujeitos ativos, que exigem direitos”, conta-nos João Carlos Correia, investigador em Ciências da Comunicação na Universidade da Beira Interior (UBI), Covilhã, onde dá aulas.

Coordenador do projeto “Remedia.Lab – Laboratório e Incubadora de Media Regionais”, cujo objetivo é ajudar a fortalecer e modernizar os meios de comunicação social regionais, é um profundo conhecedor da imprensa local. Falámos com ele em abril, nos estúdios onde são produzidas a rádio e a televisão universitárias da UBI. Sobre a riqueza da história do Jornal do Fundão, precisaríamos de “outra entrevista”, garante.

(Ouve aqui a entrevista:)

O percurso ímpar deste órgão de comunicação social regional, negócio-causa da família Palouro, até há poucos dias, fez-se também pela aposta no jornalismo cultural, chamariz de escritores, intelectuais e artistas. José Cardoso Pires, Vítor Silva Tavares, José Saramago, Carlos Drummond de Andrade, entre outros, editaram aqui suplementos, publicaram textos inéditos, organizaram eventos, pensaram o país e o mundo. Os detalhes desta bonita aventura jornalística lêem-se de uma assentada na tese de mestrado de Eduardo Alves: “Jornal do Fundão: jornalismo de causas, cultura e identidade”, publicada em 2009, pela Faculdade de Artes e Letras da UBI.

Um jornal com espinha dorsal, reconhecida pela atribuição da Ordem do Infante D. Henrique, que distingue “quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no País e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores”. Uma distinção de que não se podem gabar muitas publicações.

O JF sempre se afirmou como oásis de vitalidade no panorama da comunicação social regional nacional, face a problemas cronicamente identificados: recursos escassos, deficiências na formação de profissionais, dependência e condicionamento dos poderes paroquiais – fossem locais ou nacionais.

Nos últimos 20 anos, Portugal perdeu perto de quatro centenas de jornais, revistas e rádios locais. Que importância têm, hoje, os meios de comunicação social “da terra”? Que dificuldades e sucessos reportam? Quem os consome e porquê? E as suas redações são mais ou menos vulneráveis aos caciques que as dos órgãos nacionais, de maiores dimensões?

A imprensa regional tem futuro? Ou são as notícias locais que têm futuro?

Texto e entrevista: Pedro Santos
Preparação: Pedro Santos e Ricardo Ribeiro
Edição de som: Bernardo Afonso

Acreditamos que o papel da comunicação social é escrutinar a democracia: questionar as decisões tomadas, responsabilizar os representantes, dar voz aos representados. Se acreditas no mesmo e queres continuar a ouvir governantes a serem responsabilizados pelas suas decisões, contribui aqui.