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Opinião

“Não tenho que parecer autista”, por Carolina Lopes Rodrigues

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Quando há perto de dois meses saiu a notícia de uma presumível tentativa de atentado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, na opinião pública não se tardou em associar o aluno suspeito de planear uma “ação terrorista” a alguma patologia mental. Descrito na comunicação social como de carácter reservado e pouco social, com os pais a apontar à Polícia Judiciária, e um antigo professor a anunciar publicamente um diagnóstico hoje integrado no espetro do autismo, a relação entre o autismo e a criminalidade violenta ficou feita.

Eu sou autista e a notícia caiu como uma bomba no meu já muito sensível coração. Nunca é agradável ver a tua patologia associada a uma suspeita de terrorismo, logo como terceiro atributo do jovem, a seguir à idade e nacionalidade, na página da Wikipédia dedicada ao pretenso atentado.

É que continua a perpetuar-se a ideia de que somos seres – porque nem sempre sinto que temos o estatuto de pessoas – violentos e agressivos, sem qualquer vontade de comunicar e socializar ou de manter relações, quer de amizade, quer amorosas. Por outro lado, mantém-se o preconceito de que somos super especiais, diria até super heróis, porque somos autistas. Sobredotados, de uma inteligência inatingível para os restantes mortais, génios capazes de resolver os maiores mistérios científicos porque gostamos muito de dinossauros.

Apesar de haver casos-limite que alimentam estes preconceitos, estes não são representativos. Por experiência, reparo que muita gente pensa que sabe o que é autismo, mas muito pouca o sabe realmente descrever. É equivalente a afirmarem saber o que é a cegueira ou surdez, mas não saberem identificá-las como  “ausência de visão” ou “ausência de audição”, respetivamente. Isto leva a muitas ideias pré-concebidas e, normalmente, erradas. 

Não vou entrar com muitos termos médicos, porque isso não vai fazer diferença para a tua percepção do autismo em si. Vou dizer o que é o autismo para mim: imagina viver num mundo em que o volume e o brilho estão constantemente no máximo, sem um botão para “pôr mais baixo”. Esta é a vida de alguém autista. 

Tudo o que são sons e ruídos, luzes e brilhos, toques e cheiros, tudo o que os sentidos conseguem identificar –  estímulos sensoriais –  são tendencialmente percecionados por mim de forma muito mais intensa do que pelo humano autoproclamado “normal”. 

Porque o mundo é assim, avassalador, os autistas tendem a abrigar-se do estímulo isolando-se, sendo repetitivos, criando barreiras com o mundo exterior, que é demais. Demais para existir.

Ambientes que são aparentemente normais, e até agradáveis, podem ser hostis para alguém autista. Isto porque a pessoa neurotípica (categoria construída por oposição a neurodivergente, em que incluem os autistas) não é sensível a estímulos no mesmo grau que a pessoa autista é.   

Nem todos os autistas reagem da mesma maneira a estes estímulos, sempre. A perturbação do espetro do autismo está, como diz o nome, num espetro, o que significa que há vários pontos em que um autista se pode encontrar. Usar expressões como “autismo leve” ou “profundo”, de “alto” ou “baixo funcionamento” não é, de todo, adequado. Isto porque, na verdade, não existem nos manuais médicos.

Ainda há quem pense que nós somos inaptos e incapazes. Não somos. Os autistas não são incapazes. A sociedade é que nos incapacita. Ao não serem dadas as condições para os autistas serem bem sucedidos, tanto em contexto social e escolar, como académico e profissional, somos para sempre condenados ao fracasso. Como esperam que um míope veja sem óculos? E se não têm essa esperança para o míope, porque a têm para o autista? Acreditam mesmo que nós conseguimos fazer as coisas que todos fazem se não nos são dadas as condições para tal? 

Esta é a minha revolta e a minha luta diária: como não pareço autista, porque não caio no estereótipo do que é um autista, são me negadas acessibilidades e condições. A falta de empatia é notória em praticamente todos os aspetos da minha vida. Tenho de estar sempre a explicar o porquê de precisar do que preciso, o porquê de ser como sou. 

Não tenho que parecer autista. Não tenho de cair num estereótipo, porque ninguém o tem. 

Não sou ingénua ao ponto de dizer que é apenas a sociedade que se tem de adaptar ao autismo. Os autistas, dentro das suas capacidades, também devem aprender a viver em sociedade, como qualquer pessoa. 

Não pedimos um tratamento especial, mas reconhecimento e aceitação das nossas necessidades, da diferença que tanto insistem em lembrar, para podermos ser tanto quanto os outros. 

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