Crónica

José, sem dono (1955-2022)

Este texto foi originalmente lançado na nossa newsletter. Se quiseres receber estas crónicas, recomendações de reportagens, podcasts e filmes no teu email, subscreve aqui.

José Jesus conservava dos tempos em que estudou no seminário um certo carinho pelas escrituras. Contava algumas dessas histórias em dias bons. Naqueles em que era alegre, afável, atento, cheio de piada, em que vinha ao fundo da rua já a zoar. Nos dias maus, era de uma solidão danada que chuta para canto. Desarmadamente sincero. 

“Cão vadio não tem dono”, dizia muitas vezes. Tinha casa e família, mas não queria. Só a mãe – “mãe que é mãe”, outra das suas frases. Faziam anos um a seguir ao outro, ela já tinha passado os cem.

Ele era muito mais novo do que parecia. A cara, cheia de barba tão branca como o cabelo, dava-lhe a idade do sítio onde em dez anos se envelhece 20. Nasceu a 9 de dezembro de 1955, na Madeira, e andava em Lisboa há talvez duas décadas. Muito desse tempo na rua. “Não tinha necessidade de estar em situação de sem-abrigo, mas escolheu estar”, diz Cláudia Paixão, técnica de rua da Médicos do Mundo, que o conheceu durante anos. 

O estado de doença trazia as ambulâncias até à porta da tenda em Santa Apolónia. Eram vários os internamentos. Um ir e vir de hospitais, lares e outras estruturas sociais. Passadas umas semanas, poucos meses, o regresso à rua. A falta de saúde complicava tudo – era uma luta para ir ao médico, tomar a medicação, deixar-se cuidar. O álcool ajudava.

José não era um “bom freguês” das equipas técnicas de rua. A intervenção não conseguia ser grande coisa: iam passando para saber como estava, mas ele resistia sempre a voltar a qualquer outro lugar. Santa Apolónia era o único sítio de regresso – onde podia, como queria, ser livre. Muito livre. Poder fumar depois das dez da noite, viver nos seus próprios horários e termos, não depender. “Às vezes, aquilo que achamos que é adequado, na perspetiva do outro, não é. Tentamos inventar a roda e a pessoa diz que essa roda não lhe serve.”

Cláudia esteve com ele uma semana antes de morrer. “O José tinha dentro de si uma tristeza gigantesca que eu nunca tive contexto histórico para compreender.” O passado quase sempre ficou de fora do espaço que dava a estas pessoas para o conhecerem*. “Eram demasiadas roturas, um desgaste que se tornou visível no corpo.” Era o frio, a fome, a desilusão, a desesperança, a solidão.

José morreu a 20 de janeiro de 2022 num corpo doente. A sua falta em Santa Apolónia deu lugar a um graffiti no sítio onde viveu até ao último dia – “Até já, Zé”.

As tentativas de um voluntário de fazer uma cerimónia fúnebre com a presença de amigos perderam-se entre os afazeres da vida e a falta de contacto das instituições. Passados os 30 dias em que a família pôde reclamar o corpo, passaram-se quase outros tantos. José foi sepultado a 17 de março no cemitério do Alto de São João, por conta dos funerais sociais da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. A Irmandade de São Roque assistiu, como faz sempre que não aparece mais ninguém. São mais de 100, de 200 ao ano, as pessoas que ninguém reclama.

Mortes como esta, na rua, acontecem. Não são raras. Este texto serve para pouco mais do que dizer que José Jesus aconteceu, existiu. E não tinha dono. 

Créditos: Rita Vaz Corado (edição de Joana Batista)

*Este texto foi construído com base em conversas com a coordenadora das equipas técnicas de rua da associação Médicos do Mundo, Cláudia Paixão, os voluntários Mafalda Silva e Afonso Direito, o vizinho Geraldo, e as minhas próprias recordações do José.