“Um jogo de perspectiva”, por Bernardo Afonso

Fevereiro de 2021

No princípio, era o caos. À minha frente, um livro, 88 teclas e uma banda sonora por compôr. A pairar, referências e inspirações: caos. vazio. abismo. maelstrom. circularidade. subidas e descidas. interferências. introspectivo. evitar pianos pirosos. Nils Frahm. Kiasmos. Fernando Pessoa. Anotei isto porque a equipa do Fumaça tinha-se juntado há uns dias para imaginar coletivamente o som da nossa próxima série. Não sabíamos ainda, mas iria chamar-se Desassossego, (quase) como o livro de Bernardo Soares. No princípio, morei sem saber naquele quarto andar da Rua dos Douradores, em casa do ajudante de guarda-livros, durante muito tempo. Marquei com papéis e sublinhei por todo o lado o meu Livro do Desassossego. E quando o fechava, em frente às 88 teclas, lançava-me a compôr.

Julho de 2021

Soube da morte de António Coimbra de Matos na semana em que acabei a composição. Tínhamo-lo entrevistado uns meses antes. Impossível não pensar sobre o tempo. Não sei se, de facto, a banda sonora está pronta, nem o que é tal coisa, estar pronto. Há sempre algo mais que se pode fazer, acrescentar, mudar, redefinir. Mas tento impor-me limites para poder avançar. É como se de uma fotografia se tratasse. Está tirada e será sempre aquele momento apenas. Foco-me na beleza dessa inevitabilidade. E esta fotografia dos últimos cinco meses tem 31 músicas, 1200 faixas, mais de duas horas de banda sonora. Pus um chapéu de compositor, outro de produtor, de teclista, de baixista, de baterista e de guitarrista. 

Pelo meio, saí para comprar um sintetizador. Precisava daquele som para ultrapassar um bloqueio. Há aqui uma grande parte de desculpa esfarrapada para lidar com a frustração. Mas também um lado pragmático e real. Tom Waits dizia que havia um momento em que se tinha de deixar para trás o instrumento que se conhecia e procurar um em que não se fizesse ideia do que se estava a fazer. Em 2001, Thom Yorke explicava à New Yorker porque preferia compor num instrumento que não conhecesse bem, como o piano: “Parte da composição é ter aquela excitação ingénua de não saber exatamente por que é que estás a conseguir safar-te com aquilo, porque não tiveste tempo para compreender profundamente. Compor baseia-se em não compreender profundamente: as melhores ideias são as ideias simples.” O que é facto é que o novo sintetizador que eu não dominava acabou por ser o instrumento mais usado na banda sonora. 

Parte da criação faz-se dessas ilusões, desses pequenos truques que pregamos a nós mesmos, dessas mudanças de perspectiva. São precisos momentos de confiança e alguma arrogância para contrapor o rodopio de dúvidas que nos vai martelando. A fotografia destes cinco meses também tem alguns ataques de pânico e certezas de profunda incompetência. Quão adequado para o mote de tudo isto. Não que criar seja sinónimo de doença mental, mito romantizado até à exaustão, mas criar é quase sempre um combate pela saúde mental. 

Setembro de 2022

Há mais de um ano que não trabalho na banda sonora. Ouvia-a muitas vezes, compus para outros trabalhos, fiz jornalismo, mas agora é altura de pegar nas ideias que criei e pô-las em ação. No novo estúdio do Fumaça, começo a editar o som da série Desassossego, e nos próximos meses estarei aqui fechado. Agora são duas as portas que me separam do mundo – no antigo estúdio, no Bairro Alto, apenas uma cortina. A uma narrativa escrita e jornalística tenho de acrescentar uma narrativa sonora que a sirva. Será que tudo se conjuga? É altura de ser crítico com o meu próprio trabalho, vasculhar para separar o que interessa do que está a mais, e ouvir os pensamentos da equipa. A distância e a perspectiva são as ferramentas principais deste ofício. 

Nove músicas nunca virão a ser usadas, guardadas nos confins de um disco rígido. Há centenas de faixas que também não terão utilidade. E ideias que não resultam terão de ser adaptadas. Mas a última música, a 31.ª que compus, acabaria por ser o genérico – o tema que carrega o imaginário sonoro da série. Tive sorte com a fotografia que tirei? E se tivesse imposto o limite de 30 músicas? Quando é que está a composição pronta afinal?

Março de 2023

Quase 13 horas de áudio feitas e a série está lançada. Nos próximos meses ainda acrescentaremos mais duas reportagens. Surge uma ideia: giro era lançar isto em álbum. Decido começar por esta, apesar de haver mais sete bandas sonoras por adaptar e lançar. Só que criar músicas para acompanhar um podcast ou para serem ouvidas por si só são trabalhos completamente diferentes. Começa, então, uma nova fase de produção. Esperam-me uns meses no estúdio para adaptar as músicas, misturá-las e masterizá-las. Ponho agora novos chapéus. Faço-o nas horas vagas de outros trabalhos que o Fumaça tem. Sinto a falta de perspectiva, ao entrar no terceiro ano de conhecimento das músicas. Novas dúvidas rodopiam. Mas há uma luz ao fundo do túnel.

Junho de 2024

Desassossego, o álbum da banda sonora da série com o mesmo nome, está finalmente lançado publicamente e disponível em praticamente todas as plataformas digitais. A comunidade do Fumaça recebeu-a uma semana antes – são eles que me permitem andar por aí a duvidar de mim mesmo através da música. A minha estadia na Rua dos Douradores, truque que preguei a mim próprio, fez com que todos os títulos levassem expressões escritas por Bernardo Soares. Foi desse quarto andar que saíram, afinal, estas 22 músicas.
Pelo que sei, é a primeira vez que se edita a banda sonora de um podcast em Portugal – lá fora somam-se exemplos como o da Radio Ambulante, que lançou o mês passado uma coletânea das suas músicas. Motivo para um momento de confiança e até de arrogância. Mas demorou mais do que previa e nunca se está completamente contente com o resultado. Pelo meio, um rodopio de dúvidas sobre o meu trabalho e competência martelou-me a cabeça. Será que sei fazer isto? Talvez não saiba o suficiente. Segundo o Tom Waits e o Thom Yorke, não há problema. É tudo um jogo de perspectiva. E a fotografia está tirada. É hora de sentar-me outra vez à frente de 88 teclas. Tenho bandas sonoras por compôr e para isso preciso de voltar ao caos.

Subscreve a newsletter

Escrutinamos sistemas de opressão e desigualdades e temos muito que partilhar contigo.