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Direita

Raquel Vaz-Pinto: “O pragmatismo é um suicídio político”

3 Dezembro 2020
06:30

“Posso afirmar com clareza cristalina que não me revejo nas lógicas populistas e extremistas das exposições de alguns partidos. Por isso, esses ficarão excluídos independentemente da sua posição ser à esquerda ou à direita.” Dias antes das eleições legislativas regionais, José Manuel Bolieiro, líder do PSD-Açores, respondia assim quando questionado pelo Observador acerca da possibilidade de uma coligação com o Chega. Deixou claro que quem votasse no PSD nos Açores votaria num partido que não se coligaria, por uma questão de princípio, com a extrema-direita. 

“O perfil e o percurso que os partidos populistas e extremistas têm tido nestes últimos tempos não são compatíveis com o meu quadro doutrinário e ideológico social-democrata”, afirmou.

No entanto, duas semanas depois das eleições, a 7 de novembro, José Manuel Bolieiro foi indigitado pelo representante da República no arquipélago, Pedro Catarino, Presidente do Governo Regional dos Açores. A chegada ao Poder fez-se através de uma coligação pós-eleitoral com o CDS e o Partido Popular Monárquico (PPM) e acordos de incidência parlamentar com os representantes do partido de extrema-direita Chega e com o deputado da Iniciativa Liberal – conseguiu, assim, garantir a a maioria na Assembleia Legislativa Regional. Chegaram ao fim 24 anos de governo do Partido Socialista na região.

Os deputados do Chega comprometeram-se a assegurar a estabilidade governativa durante toda a legislatura. Em troca, os líderes regionais do PSD, CDS e PPM concordaram com a concretização de quatro pontos: “Propor a redução do número de deputados regionais; criar um gabinete regional de luta contra a corrupção; reduzir a elevadíssima subsidiodependência na região; e promover o aprofundamento da autonomia política no quadro do Estatuto Político-Administrativo dos Açores e da Constituição da República”. Entre os cinco partidos apoiantes do novo Governo, só a Iniciativa Liberal ficou fora deste acordo escrito, embora tenha firmado termos com o PSD. 

Propostas não constam do programa do PSD

Para a direção nacional dos sociais-democratas, “são quatro aspetos que um Governo liderado pelo PSD deve naturalmente prosseguir na sua governação regional. Mal fora que não o fizesse apenas porque o Chega também o defende”. Apesar desta posição – e embora o vice-presidente Nuno Morais Sarmento diga que “nada foi alterado na proposta política do PSD, CDS e PPM por força do apoio da Iniciativa Liberal e do Chega” – o partido liderado por Rui Rio comprometeu-se com quatro exigências do partido de extrema-direita que não constam das suas propostas eleitorais para os Açores. 

Nas 116 páginas do programa eleitoral, fala-se da necessidade de modernização da administração pública, das eleições europeias, mas nunca da redução de deputados na Assembleia Legislativa Regional. Há várias páginas dedicadas aos incentivos à fixação de jovens, à formação e reabilitação profissional, ao desenvolvimento de políticas ativas de emprego. Fala-se em “garantir uma habitação condigna a preços sustentáveis para todos os açorianos”, porque – e cito – “há falta de habitação social condigna”. Fala-se da necessidade de “integrar os mais frágeis, dignificar os mais idosos, valorizar os mais jovens, apoiar os mais diferentes”. Uma das propostas nesta área é “criar políticas e medidas que promovam a formação e qualificação profissional, a empregabilidade e integração social das pessoas beneficiárias do Rendimento Social de Inserção (RSI)”. Nunca se fala em cortar o RSI. E não há uma única referência à palavra corrupção.

A propósito deste acordo e das mutações políticas que a Direita nacional atravessa, entrevistámos Raquel Vaz-Pinto, cientista política e investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa. Vaz-Pinto é militante do CDS/PP desde 2016, onde foi conselheira na Comissão Executiva da ex-líder Assunção Cristas, e número três nas Eleições Europeias de 2019, em que Nuno Melo – cabeça de lista pelos centristas – foi reeleito. É uma das subscritoras do manifesto “A clareza que defendemos”, um posicionamento de figuras da Direita Portuguesa crítico da ascensão da extrema-direita, publicado no início de novembro, no jornal Público.

Entrevista
  1. Margarida David Cardoso
Texto
  1. Margarida David Cardoso
Edição
  1. Pedro Miguel Santos
Fotografia
  1. Joana Batista
Preparação
  1. Margarida David Cardoso
Som
  1. Bernardo Afonso
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