“O nome que lhe chamavam”, por Margarida David Cardoso

André resiste a pronunciar o nome que lhe chamavam. Não lhe quer dar nova existência fora dos corredores da escola. “Na primeira vez, pensei que fosse só isso, mas depois pegou.” Começou no primeiro semestre do 11.° ano. Um grupo de rapazes, assim que o via, chamava-o, aos berros, por esse nome de uma personagem animada. Várias vezes ao dia. Parecia-lhe que toda a gente ouvia, olhava, falava sobre isso. “O que me custava mais era saber que aquilo ia sempre alastrar-se, crescer exponencialmente.” Primeiro, tentava ignorar. Evitava os colegas de turma, com quem já tinha dificuldades em se dar. Andava sozinho. Depois, tornou-se uma obsessão: “Não conseguia evitar olhar para as pessoas e pensar ‘Será que estão a falar de mim? Porque é que estão a gozar comigo?’”

Na altura, nada daquilo era lido como um problema. Boys will be boys. Teve uma consulta de psicologia na escola, mas não tinha as palavras certas para falar sobre isso. “Talvez lhe pudesse ter chamado sofrimento, tortura – embora não fosse física.” A ressalva parece-lhe importante. Não voltou ao gabinete.

Continuou a ouvir esse nome já na universidade e fragmentos da obsessão sedimentaram-se. “Ainda tenho que aprender a levar as palavras menos a sério quando alguém está a brincar comigo. Tenho que lidar melhor com a injustiça – comigo e com os outros. E conseguir fazer as pazes com esse miúdo e a falta de apoio que ele teve.”

Passaram-se 24 anos desde esses dias naquela escola em Lisboa, em que o bullying ainda não tinha nome. André, 40, tenta fazer sentido do sofrimento psicológico que há anos o arrasta para picos de depressão e ansiedade, e, havendo muito mais para além disto, a experiência de bullying não podia ficar de fora. “Parece pequeno e distante, não é? Mas tem uma influência enorme nos medos e incapacidades que tenho hoje.” Há oito meses pediu para ser admitido numa comunidade terapêutica de saúde mental, de onde sairá em breve. O bullying continua, aqui fora, a ser matéria de psicoterapia. 

Adolescente, Margarida era gozada em casa e na escola. As palavras soam-lhe vividas aos 24 anos: “Nunca devias ter nascido”, “Não vales nada”. Magoou-se a si mesma para lhes dar razão. Deixou de comer para as calar. Procurou fumar e beber para anestesiar a dor. Ainda é um desafio diário tentar contrariá-las. “Eu gostava que o meu pai compreendesse. Que as minhas irmãs não gozassem comigo. Que as pessoas na escola tivessem sido diferentes. Era… Principalmente que ninguém me ridicularizasse.”

Segundo a Ordem dos Psicólogos, há uma maior probabilidade de pessoas do género masculino serem vítimas de abuso físico, verbal e cyberbullying; do género feminino, de bullying socioemocional. Podiam encaixar nessa categoria as primeiras descrições que Margarida usa para falar das origens do seu sofrimento: abuso emocional em casa e o bullying na escola. Transporta de lá as raízes da anorexia, da obsessão pelo controlo, da automutilação, das tentativas de suicídio – com várias camadas, nada simples ou lineares como podem parecer nestes parágrafos curtos. O comportamento dos outros era intencional, repetido, em claro desequilíbrio de poder, ajudando a que se convencesse de que o merecia. 

O trauma de Noa tem 18 anos e há dias em que parece tão recente como ontem. Foram-lhe roubadas fotos íntimas e publicadas online. “Não era a Internet de hoje e, mesmo assim, é dos eventos mais marcantes da minha vida. Mudou tudo aquilo que eu penso e como penso.” Aos 40 anos, é a matéria dos seus pensamentos obsessivos e intrusivos, loops intermitentes que está agora a aprender a domar. “Será que aquelas pessoas vão descobrir? Será que também já viram? Porque é que elas estão a falar de mim?” As perguntas, a reboque da ansiedade social, começam assim que acorda e estão lá em todos momentos de desocupação – “Se não estiver a fazer nada, é tudo aquilo que eu penso. Preenche a minha cabeça em absoluto.”

É muito diferente a forma como as pessoas lidam com os mesmos ou semelhantes acontecimentos. O que é traumático para uma pode estar longe de o ser para outra. E a ideia de que não consegue ultrapassar algo que seria um acontecimento gerível para muita gente canaliza a dor de Noa para si próprio. “Eu é que não consigo parar de pensar assim.” O processo psicoterapêutico, que faz há cerca de dois meses, é um treino de desconstrução.

Vem isto a propósito de uma irritação. A agressão a uma criança de nacionalidade estrangeira numa escola na Amadora, noticiada a 14 de maio, parecia-me dizer mais sobre jornalismo do que sobre bullying. O caso denunciado “de memória” por uma responsável de uma organização, “como exemplo” de um tema maior (a perceção do aumento do discurso de ódio), tornou-se um título-alarme. Uma notícia com uma fonte única, sem verificação de factos, foi desenvolvida nos dias seguintes tocando várias esferas do poder público. O Ministério da Educação e a Procuradoria-Geral da República investigaram. O presidente da República condenou. A ministra da Administração Interna reforçou o policiamento junto das escolas. As reações obrigaram outras redações a ponderar o que publicar. A Visão fez uma radiografia mediática. A denunciante acabou por rever o uso da palavra “linchamento” para descrever a agressão. Há dúvidas sobre a nacionalidade e idade da alegada vítima. Publicamente, ainda é incerto o que terá acontecido. Mas por que é que um caso particular, chocante e avulso, faz saltar a mola da comoção e indignação pública, e não o faz a consistente denúncia do problema estrutural? Apenas a título de exemplo, em março, a Notícias Magazine detalhou o cerco de que são alvo pessoas trans nas escolas; esta reportagem da SIC, de 2022, correu todo o espectro; só o Observatório Nacional do Bullying recebeu 627 denúncias desde 2020; num ano letivo, a GNR registou 140 crimes de bullying e cyberbullying. Não faltam retratos, exemplos e dados, nem análise das implicações psicológicas, alertas quase diários de psicólogos e educadores.

E eu não trabalho numa redação de atualidade, só coleciono irritações e troco bitaites com camaradas que partilham da dor que é navegar “o caso do momento”, sem que isso signifique consequência, pensamento ou mudança estrutural. E, neste vai e vem, dou por mim num pequeno consultório de psicologia, transformado em sala de entrevistas, numa comunidade terapêutica de saúde mental, a falar com pessoas para um trabalho que nada tem a ver com infância, escolas e abuso. E uma atrás da outra, sem pedir, elas trazem estas histórias de bullying.

(André, Margarida e Noa são nomes fictícios e os detalhes das suas histórias foram poupados, a seu pedido, para garantia de anonimato)

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